“Não, eles nunca vão tirar a gente deste LIXÃO. Tenho fé em ...
Texto para responder às questões de 01 a 15.
Muribeca
Lixo? Lixo serve pra tudo. A gente encontra a mobília da casa, cadeira pra pôr uns pregos e ajeitar, sentar. Lixo pra poder ter sofá, costurado, cama, colchão.Até televisão.
É a vida da gente o lixão. E por que é que agora querem tirar ele da gente? O que é que eu vou dizer pras crianças? Que não tem mais brinquedo? Que acabou o calçado? Que não tem mais história, livro, desenho?
E o meu marido, o que vai fazer? Nada? Como ele vai viver sem as garrafas, sem as latas, sem as caixas? Vai perambular pela rua, roubar pra comer?
E o que eu vou cozinhar agora? Onde vou procurar tomate, alho, cebola? Com que dinheiro vou fazer sopa, vou fazer caldo, vou inventar farofa?
Fale, fale. Explique o que é que a gente vai fazer da vida? O que a gente vai fazer da vida? Não pense que é fácil. Nem remédio pra dor de cabeça eu tenho. Como vou me curar quando me der uma dor no estômago, uma coceira [...]? Vá, me fale, me diga, me aconselhe. Onde vou encontrar tanto remédio bom? E esparadrapo e band-aid e seringa?
O povo do governo devia pensar três vezes antes de fazer isso com chefe de família. Vai ver que eles tão de olho [...] aqui. Nesse terreno. Vai ver que eles perderam alguma coisa. É. Se perderam, a gente acha. A gente cata. A gente encontra. Até bilhete de loteria, lembro, teve gente que achou. Vai ver que é isso, coisa da Caixa Econômica . Vai ver que é isso, descobriram que lixo dá lucro, que pode dar sorte, que é luxo, que lixo tem valor.
Por exemplo, onde a gente vai morar, é? Onde a gente vai morar? Aqueles barracos, tudo ali em volta do lixão, quem é que vai levantar? [...] Esse negócio de prometer casa que a gente não pode pagar é balela, é conversa pra boi morto. Eles jogam a gente é num esgoto. Pr'onde vão os coitados desses urubus? A cachorra, o cachorro?
[...] Isso tudo aqui é uma festa. Os meninos, as meninas naquele alvoroço, pulando em cima de arroz, feijão. Ajudando a escolher. A gente já conhece o que é bom de longe, só pela cara do caminhão. Tem uns que vêm direto de supermercado, açougue. Que dia na vida a gente vai conseguir carne tão barato? Bisteca, filé, chã-de-dentro – o moço tá servido? A moça?
Os motoristas já conhecem a gente. Têm uns que até guardam com eles a melhor parte. É coisa muito boa, desperdiçada. Tanto povo que compra o que não gasta – roupa nova, véu, grinalda. [...] Agora, o que deu na cabeça desse povo? A gente nunca deu trabalho. A gente não quer nada deles que não esteja aqui jogado, rasgado, atirado. A gente não quer outra coisa senão esse lixão pra viver. Esse lixão para morrer, ser enterrado. Pra criar os nossos filhos, ensinar o nosso ofício, dar de comer. Pra continuar na graça de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não faltar brinquedo, comida, trabalho.
Não, eles nunca vão tirar a gente deste lixão. Tenho fé em Deus, com a ajuda de Deus eles nunca vão tirar a gente deste lixo. Eles dizem que sim, que vão. Mas não acredito. Eles nunca vão conseguir tirar a gente deste paraíso.
FREIRE, Marcelino .Angu de sangue. Cotia: teliê, 2000. p. 23-5.
“Não, eles nunca vão tirar a gente deste LIXÃO. Tenho fé em Deus, com a ajuda de Deus eles nunca vão tirar a gente deste LIXO.” Sobre os vocábulos destacados, leia as afirmativas.
I. Lixão é o depósito de resíduos e, no contexto, o sufixo -ão perde o valor aumentativo
II. Lixo tem duplo sentido no contexto, um deles é miséria, degradação.
III. Os dois vocábulos se aproximam semanticamente, mas, quanto à classe gramatical, se distanciam.
Está correto apenas o que se afirma em:
Gabarito comentado
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TEMA CENTRAL DA QUESTÃO: Interpretação textual e análise semântica e morfológica dos vocábulos “lixão” e “lixo”, considerando sentido contextual e aspectos gramaticais.
REGRA FUNDAMENTAL: Para resolver a questão, o candidato precisa identificar o significado contextual das palavras destacadas e compreender a flexão morfológica (formação de palavras) e sua classe gramatical. Segundo a gramática normativa (Cunha & Cintra; Bechara), sufixos como -ão geralmente expressam o aumentativo, mas podem perder este sentido dependendo de contextos socioculturais.
ANÁLISE DAS ALTERNATIVAS:
I. Lixão é o depósito de resíduos e, no contexto, o sufixo -ão perde o valor aumentativo.
ERRADO. O sufixo “-ão” é tradicionalmente aumentativo (Cunha & Cintra), mas aqui, ao indicar “lixão”, ele mantém sentido aumentativo, pois remete ao grande depósito de lixo. O sentido social não anula o valor morfológico; continua sendo “grande lixão”. As bancas costumam cobrar essa atenção ao valor de sufixos, não devendo ignorar o sentido original.
II. Lixo tem duplo sentido no contexto, um deles é miséria, degradação.
CORRETO. No texto, “lixo” significa tanto resíduos materiais quanto condição social desfavorecida. O autor usa a palavra para referir-se tanto ao objeto (lixo concreto) quanto ao contexto simbólico de exclusão. Essa polissemia é comum em questões de interpretação textual!
III. Os dois vocábulos se aproximam semanticamente, mas, quanto à classe gramatical, se distanciam.
ERRADO. Tanto “lixo” quanto “lixão” são substantivos comuns (masculinos). Não há distância quanto à classe gramatical, ambos nomeiam coisas ou locais. Bancas cobram atenção para não confundir sentido com categoria morfológica.
ESTRATÉGIA: Observe sempre se a banca pede a “correta”, “incorreta”, “apenas”, “todas”, etc., e não extrapole além do que o texto afirma ou da gramática normativa.
GABARITO: E – Somente a afirmativa II está correta.
Síntese: Entenda o significado contextual e a formação das palavras. Atente-se para possíveis pegadinhas na análise de sufixos e classes gramaticais!
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