Por meio da intencionalidade discursiva do poema A Draga, a...

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Q3503571 Literatura
A Draga


A gente não sabia se aquela draga tinha nascido ali, no Porto, como um pé de árvore ou uma duna.
- E que fosse uma casa de peixes?
Meia dúzia de loucos e bêbados moravam dentro dela, enraizados em suas ferragens.
Dos viventes da draga era um o meu amigo Mário-pega-sapo.
Ele de noite se arrastava pela beira das casas como um caranguejo trôpego.
À procura de velórios.
Os bolsos de seu casaco andavam estufados de jias.
Ele esfregava no rosto as suas barriguinhas frias.
Geleia de sapos!
Quando Mário morreu, um literato oficial, em necrológio caprichado, chamou-o de Mário-Captura-Sapo!
Ai que dor!
Ao literato cujo fazia-lhe nojo a forma coloquial.
Queria captura em vez de pega para não macular (sic) a língua nacional lá dele...
O literato cujo, se não engano, é hoje senador pelo Estado.
Se não é, merecia.
A vida tem suas descompensações.
Da velha draga,
Abrigo de vagabundos e de bêbados, restaram as expressões: estar na draga, viver na draga por estar sem dinheiro, viver na
miséria
Que ofereço ao filólogo Aurélio Buarque de Holanda
Para que as registre em seus léxicos
Pois o povo já as registrou.



BARROS, M. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1990 (fragmento Adaptado).
Por meio da intencionalidade discursiva do poema A Draga, a poética de Manoel de Barros pode ser caracterizada como 
Alternativas

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Alternativa correta: B - experimental, em que há a presença de nuances existencialistas, marcadas por alegorias, regionalismos e por uma subversão do uso convencional das palavras.

1. Tema Central da Questão

A questão aborda a poética de Manoel de Barros, um dos maiores nomes da literatura brasileira contemporânea, pedindo que você reconheça as características estilísticas de seu texto, especialmente a intencionalidade discursiva e o emprego inovador da linguagem.

2. Resumo Teórico

Manoel de Barros é conhecido por uma escrita experimental, lúdica e altamente subjetiva, que valoriza o olhar sobre o cotidiano e regionalismos, brincando com a gramática e subvertendo o uso tradicional das palavras. Sua poesia apresenta, muitas vezes, um tom existencial e se utiliza de alegorias para tratar de temas como a marginalidade e o olhar para os esquecidos. Fontes como o "Manual de Literatura Brasileira", de Massaud Moisés, confirmam essas características.

3. Justificativa da Alternativa Correta (B)

A alternativa B é correta porque descreve perfeitamente a experimentação linguística, o uso de regionalismos ("pega-sapo", "draga"), a subversão da norma (linguagem coloquial) e o olhar existencial para personagens marginalizados. Manoel de Barros valoriza a fala do povo e faz questão de romper com o uso convencional da língua, criando poesia a partir do simples e do cotidiano.

4. Análise das Alternativas Incorretas

  • A - Vanguardista/concretismo: Apesar do experimentalismo, Manoel de Barros não adere ao concretismo imagético nem utiliza a linguagem visual típica das vanguardas concretas dos anos 1950.
  • C - Clássica/catarse: Sua poesia não busca a catarse do interlocutor, nem se estrutura nos moldes clássicos de equilíbrio ou universalidade dramática.
  • D - Neoclássica/bucolismo: Apesar da presença da natureza, o enfoque é diferenciado, subversivo e não busca a idealização bucólica, típica do neoclassicismo.
  • E - Pré-modernista/crítica social: Embora haja crítica social e personagens marginalizados, Manoel de Barros está situado plenamente no Modernismo tardio e não no pré-modernismo.

5. Estratégias de Interpretação

Fique atento a palavras-chave como "experimentação", "subversão", "regionalismo" e analise se há exagero ou inadequação nas alternativas. Desconfie de termos técnicos deslocados ou rótulos históricos imprecisos.

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Principais Autores do Modernismo Tardio/Terceira Fase (Brasil):

  • Clarice Lispector: Destacou-se pela prosa intimista, fluxo de consciência e sondagem psicológica, com obras como A Paixão segundo G.H. (1964).
  • João Guimarães Rosa: Revolucionou a prosa com linguagem neológica e ambientação no sertão universal, com Grande Sertão: Veredas (1956).
  • João Cabral de Melo Neto: Conhecido como o "poeta engenheiro", focou no rigor estético e na poesia objetiva, autor de Morte e Vida Severina (1955).
  • Ariano Suassuna: Defensor da cultura popular, destacou-se no teatro com O Auto da Compadecida (1955).
  • Lygia Fagundes Telles: Mestra do conto e romance, explorando o psicológico, como em As Meninas (1973).
  • : Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari (anos 50).

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