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Q3652221 Português
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“Conto de escola”: a lição que não estava no quadro


    Na manhã de uma segunda-feira de 1840, um menino indeciso caminha pelas ruas do Rio de Janeiro com a cabeça dividida entre a liberdade do campo e a obrigação da aula. Ele se chama Pilar e, embora costume acabar as lições mais depressa que os colegas, carrega ainda no corpo a lembrança das surras que o pai dá quando ele mata aula. A escola, num sobrado de grade de pau, parece menor do que a cidade que o cerca; ainda assim, é ali que Pilar vai descobrir que existem faltas mais difíceis de apagar do que um erro de conta.

    Ao subir a escada, Pilar encontra o filho do professor, Raimundo, um menino pálido e aplicado, que entende as coisas devagar e teme o pai severo. Raimundo se aproxima, hesitante, como quem pede segredo antes de pedir favor. Entre olhares furtivos e silêncios, ele oferece uma moedinha de prata para que Pilar lhe sopre a lição de aritmética. Pilar hesita: a mão aceita o brilho, mas o estômago embrulha. A tentação parece pequena e privada; afinal, é só uma ajuda rápida, um empurrão nos números que tanto custam a Raimundo. Ninguém notará, pensa.

    Na sala, as carteiras rangem, a palmatória adormece sobre a mesa, e o professor, grave, distribui tarefas como se fossem sentenças. Entre os meninos, um se destaca: Curvelo, atento como quem fareja vantagem. É ele quem percebe os sussurros entre Pilar e Raimundo, é ele quem mede o valor do silêncio e da palavra, e é dele que sai a delação que rompe a frágil barraca de feira em que a pequena corrupção tentava se esconder. De súbito, tudo para: o mestre fixa os olhos pontudos em Pilar e no próprio filho, pedindo explicações que as bocas não sabem dar.

    A punição vem pública e certeira. Não é apenas a dor física que arde, mas a vergonha que se espalha pela sala como tinta derramada. A palmatória, instrumento pedagógico daquela época, marca não só as mãos: grava, sobretudo, a memória de que atos discretos podem ter consequências amplas. Pilar, castigado ao lado de Raimundo, percebe que o pequeno “acordo” tinha um preço que o brilho da moeda não mostrava. Entre o castigo do corpo e o silêncio pesado do professor, descobre-se algo sobre lealdade, medo e responsabilidade — lições que não estavam no quadro-negro.

    Anos depois, ao narrar o episódio, Pilar já entende o que naquela manhã escapava: a escola é também uma arena de escolhas morais, onde convivem o impulso de ajudar, a procura de atalhos e a sombra da delação. O saldo da história não é tanto a matemática que faltou, mas a ética que, a duras penas, se aprendeu. E essa lição, que começou com uma moeda miúda, termina maior do que o sobrado da Rua do Costa, porque segue valendo fora da sala, onde os olhos alheios muitas vezes pesam menos do que a própria consciência.


Fonte: Machado de Assis, “Conto de escola”, em Várias histórias (1896) Adaptado.
Considerando a situação comunicativa, identifica-se que o texto é enunciado por um
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Tema central: Interpretação de texto – Foco narrativo e tipos de narrador.

Nesta questão, é fundamental identificar quem narra a história, o registro de linguagem utilizado e para quem o texto se dirige. Saber reconhecer o tipo de narrador é uma habilidade-chave em concursos, pois permite entender a intenção do autor e o alcance da mensagem.

Alternativa correta: B

Justificativa: O texto é conduzido por um narrador-analista (ou onisciente analítico), caracterizado por não ser personagem da trama, mas sim um observador externo que interpreta acontecimentos e comportamentos. O próprio trecho final indica reflexão: “O saldo da história não é tanto a matemática que faltou, mas a ética que, a duras penas, se aprendeu”. Além disso, toda a redação do texto é feita em terceira pessoa e com registro formal, voltado a um público amplo, o que configura linguagem culta, estruturada e objetiva. Essas marcas são claras indicações do narrador analista, como explica Evanildo Bechara (“Moderna Gramática Portuguesa”) ao definir tipos narrativos.

Por que as demais alternativas estão erradas?

A) Aluno contemporâneo: Incorreto. Não há marcas de primeira pessoa nem de oralidade. O texto não se direciona a um professor específico, tampouco usa linguagem coloquial.

C) Órgão público: Incorreto. O texto é literário, não prescritivo (não apresenta regras ou normas formais), diferentemente dos textos oficiais, como ressalta o Manual de Redação da Presidência da República.

D) Repórter: Incorreto. Não é uma reportagem, não existe coleta de depoimentos nem estrutura jornalística.

E) Memorialista em diário íntimo: Incorreto. O narrador não escreve de maneira subjetiva ou sem intenção de generalizar; ao contrário, universaliza a experiência, transmitindo uma mensagem ética que extrapola o espaço íntimo.

Dica para concursos: Sempre observe se o narrador aparece como personagem (“eu”, “meu”) ou como alguém que apenas observa (“ele”, “seu”) e se faz comentários ou análises sobre a trama – são indícios importantes para definir o tipo de narrador.

Resumo: O domínio do tipo de narrador e da situação comunicativa permite acertar questões de interpretação, fundamentais para cargos no magistério e decisivos em provas de concurso.

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Comentários

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O texto é uma adaptação de “Conto de escola”, de Machado de Assis, e apresenta:

  • Um narrador em primeira pessoa, que é Pilar adulto, recordando um episódio de sua infância;
  • Esse narrador não se limita a contar os fatos — ele analisa e interpreta o ocorrido, refletindo sobre ética, moral e responsabilidade;
  • A narração tem registro formal, com vocabulário literário e construções elaboradas;
  • O texto se dirige a um público amplo, buscando propor uma reflexão universal sobre valores e aprendizado moral.

Portanto, trata-se de um narrador-analista, e a alternativa correta é B.

A alternativa correta é a letra B

O texto apresenta um narrador externo ao enredo original de “Conto de escola”, que reconta, analisa e interpreta o episódio vivido por Pilar.

Esse narrador:

  • não participa da história;
  • adota um tom formal e reflexivo;
  • dirige-se a um público amplo, presumivelmente leitores interessados em literatura e ética;
  • tem como propósito oferecer uma interpretação analítica e moral do conto de Machado de Assis.

Essas características definem um narrador-analista em registro formal.

  • A) aluno contemporâneo → incorreta, pois o texto não é uma fala direta, nem há registro coloquial.
  • C) órgão público → incorreta, porque não há caráter normativo nem prescrição de condutas.
  • D) repórter → incorreta, pois não há linguagem jornalística nem menção a fontes ou entrevistas.
  • E) memorialista → incorreta, já que o texto não tem caráter pessoal ou confessional.

Conclusão:

O texto é enunciado por um narrador-analista, com registro formal e objetivo, que interpreta o episódio de “Conto de escola”, portanto a resposta correta é a alternativa B.

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