O trecho “usado como se fosse uma metalinguagem”, grifado no...

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Q4326904 Português
O texto a seguir é referência para a questão.

    Os digitais não acreditam no crescimento infinito da economia ocidental; entre eles se espalhou a notícia de que existem limites para o desenvolvimento. Têm uma atitude bastante positiva em relação à vida e ao destino do planeta e da humanidade. Sabem que em algum lugar – talvez em Boston, em Tóquio ou em Cupertino – o progresso da tecnologia, da farmacologia, da cirurgia, da biotecnologia, da nanotecnologia e da inteligência artificial está preparando medicamentos e próteses prodigiosas com os quais se pode prolongar e melhorar a própria saúde. Tendem a acreditar, em suma, que, graças ao progresso científico e à criatividade, os instintos vitais, no fim, prevalecerão sobre os autodestrutivos. Até porque, sendo jovens, diferentemente de seus pais e avós, não experimentaram diretamente nem o fascismo nem a guerra. Têm quase a ideia e a ilusão de que não pode surgir outro fascismo ou estourar outra guerra: você pode fechar os portos aos migrantes, pode fazer o que quiser, mas, no fim, chega-se a um acordo. A guerra e a ditadura, para eles, são algo que está em outro lugar, num Terceiro Mundo ou num Oriente de qualquer modo distante. Talvez, quem sabe, sejam só fake news.
    São predominantemente jovens e já estão em toda parte. A maior concentração é no Ocidente, mas, com o crescimento da população jovem, cresce o número de digitais na Índia, na China, na África do Sul, aonde quer que a internet chegue.
    Os digitais têm uma familiaridade com a informática e com a virtualidade que torna as relações interpessoais cada vez mais abstratas, mas ao mesmo tempo enriquece os sentidos com novas dimensões, ainda que a visão e a audição sejam estimuladas muito mais que o paladar e o olfato. Apreciam e vivem como algo completamente normal a onipresença permitida pela informática e pelos novos meios de transporte cada vez mais rápidos e menos dispendiosos. A maioria dos digitais fala mais de um idioma, sendo um deles quase sempre o inglês, usado como se fosse uma metalinguagem para ouvir uma música, para abordar uma pessoa para fins comerciais ou por razões eróticas. Encaram com naturalidade a globalização: nem se perguntam de onde vem uma roupa. Além disso, estão acostumados a ir de um país a outro da Europa sem mostrar o passaporte e sem mudar de moeda. Adotam o controle de natalidade já desembaraçado de qualquer significado ético. Aceitam a igualdade de oportunidades: as mulheres, com entusiasmo, os homens, com resignação. Confiam na engenharia genética e nos novos medicamentos, que permitem vencer as doenças e modificar o corpo humano e seu destino biológico. Tendem a várias formas de secularização; não são mais tão influenciados pela fé em algo além: têm como pressuposto, em vez disso, que é aqui na Terra que o jogo acontece. Temem mais o aquecimento global que o fogo do inferno, por isso são sensíveis à ecologia e à sustentabilidade. Não fazem muita distinção entre dias úteis e feriados oficiais; se dependesse deles, o debate se as lojas devem abrir ou não aos domingos não existiria. Enquanto a sociedade industrial fez com que nós, analógicos, nos acostumássemos a distinguir claramente as oito horas de trabalho, as oito de tempo livre e as oito de cuidado pessoal e sono, os digitais não fazem muita distinção entre as atividades de estudo, de trabalho e de lazer. Praticam o que chamo de ócio criativo, isto é, um tipo de atividade no qual é difícil saber se a pessoa está trabalhando, estudando ou se divertindo. Diferentemente de seus pais e avós, não amam o trabalho incondicionalmente, não o consideram como o fator central da própria existência, não lhe atribuem significados carregados de sacrifício, dever, orgulho; dão a ele mais ou menos a mesma importância que reservam ao tempo livre. Frequentemente acostumados com o trabalho precário, habituaram-se a combinar períodos de trabalho ocasional com fases de estudo, viagem, tempo com a família e com os amigos.


De Masi, Domenico. O mundo ainda é jovem. Conversas sobre o futuro próximo. São Paulo: Vestígio, 2019.  
O trecho “usado como se fosse uma metalinguagem”, grifado no texto, significa que o inglês é uma língua: 
Alternativas

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Gabarito: E

Fundamento decisivo: A expressão “usado como se fosse uma metalinguagem” é seguida pela sequência “para ouvir uma música, para abordar uma pessoa” e “para fins comerciais ou por razões eróticas”, que explicita diferentes finalidades de uso do inglês.

Tema central: Função comunicativa do inglês
Análise das alternativas
A
Errada
O texto apresenta o inglês como instrumento para diferentes atividades, mas não lhe atribui importância secundária. Integrar um repertório com mais de um idioma não significa ser uma língua acessória.
B
Errada
A referência a razões eróticas caracteriza uma finalidade da interação, não um vínculo afetivo com o inglês. Além disso, o trecho não distingue falantes nativos de não nativos.
C
Errada
As expressões “A maioria” e “quase sempre” indicam recorrência, não compreensão universal. O texto também não afirma que o inglês seja fácil nem apresenta essa suposta facilidade como causa de uma preferência.
D
Errada
A enumeração informa para que o inglês é usado, não onde foi aprendido. Seu emprego em situações cotidianas não permite concluir que a aprendizagem tenha ocorrido fora da escola.
E
Certa
A alternativa E identifica o critério que reúne as situações enumeradas: o inglês serve como instrumento de comunicação no contexto dos digitais.
Pegadinha da questão
Interpretar “metalinguagem” por uma definição técnica isolada, como linguagem usada para falar da própria linguagem, em vez de observar os usos comunicativos que esclarecem a expressão no trecho.
Dica para questões semelhantes
  • Determine o sentido contextual da expressão pelas situações que a explicam na sequência.
  • Distinga função instrumental de posição secundária: servir como meio de comunicação não torna um idioma acessório.
  • Não transforme frequência de uso em facilidade ou compreensão universal.
  • Separe finalidade de uso e circunstância de aprendizagem: saber para que uma língua é utilizada não revela onde ela foi aprendida.

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GAB E

O inglês não é utilizado pelos digitais por conta de apego cultural, literário ou afetivo, mas sim como uma ferramenta/instrumento utilitário para viabilizar interações cotidianas globais (música, negócios, relacionamentos). É a língua instrumental da era digital.

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