Quando se vê, o tempo passou, aquele amigo adoeceu e não tem
mais condições de receber visitas e o prato delicioso não pode
ser saboreado. Que qualidade de vida é essa?
Renata Giraldi | 11/06/24
A correria do dia a dia tira o nosso sono, obriga que as
refeições sejam feitas sempre de maneira açodada, que as
conversas com os amigos e pessoas queridas fiquem para depois
e que os planos simplesmente não ocorram. Que qualidade de
vida é essa? Quando se vê, o tempo passou, aquele amigo
adoeceu e não tem mais condições de receber visitas e o prato
delicioso não pode ser saboreado porque o restaurante fechou...
Ah, o tempo. Numa viagem ao Marrocos, eu, como sempre
apressada, estava exausta com a longa história interminável e
sem fim do guia local, pedi que fosse direto ao ponto. Eis que ele
me deu uma das respostas mais inteligentes que já ouvi. "A
senhora sabe a diferença entre nós, do Oriente Médio, e vocês"?
Acenei negativamente. Veio a resposta: "Vocês têm pressa. Nós?
Temos tempo."
Desde então, parei para pensar na beleza e no prazer das
coisas mais simples e cotidianas. Adoro andar devagar pelas ruas
de Brasília, olhando as flores e plantas. Escolho a minha favorita
e até batizo. Também sou capaz de estacionar o carro em local
que nunca passei porque gostei da proposta do lugar: um pastel,
um doce e, depois, trato de cuidar do peso na consciência.
Sim, peso na consciência porque saí da dieta e posso
engordar, porque gastei mais tempo no caminho do que deveria
e acabei me enrolando para o compromisso seguinte. Mas como
diria o marroquino: "Temos tempo". É preciso parar para ter
tempo e se dar tempo porque, do contrário, a vida te trava e
mostra que ela que manda em você, e não o contrário.
De uns anos para cá, resolvi seguir a máxima de uma
grande amiga que sobreviveu a três cânceres - mama, útero e
cérebro. Segundo ela, depois desse desafio, ela passou a dar
valor ao que realmente tem valor. Antes, eu era a brigona. Não
deixava passar nada, um desaforo era rebatido, uma palavra mal
colocada, devolvida. Agora?
Bem, agora, não vou dizer que faço a digestão com
tranquilidade. Não, não faço. Mas olho bem para a pessoa, avalio
até que ponto ela é importante na minha vida, se responder vai
me trazer algum benefício. Em geral, o silêncio é a melhor
resposta. As pessoas não estão acostumadas ao silêncio, pois a
agressividade anda tão em alta que quando são virulentas, já se
preparam para retaliação.
Lembro-me sempre do meu querido Mario Quintana,
quando a repórter perguntou para ele, como reagia, pois, pela
terceira vez, teve o nome rejeitado pela Academia Brasileira de
Letras (ABL), um sonho cultivado pela mãe do poetinha que
imaginava o filho de fardão. Risonho, olhos baixos e uma carinha
de quem enxerga ao longe, Quintana respondeu com a icônica
frase: "Eles passarão, eu passarinho".
GIRALDI, Renata. Eles passarão, eu passarinho....
Correio Braziliense, 11 de junho de 2024. Disponível em:
https://www.correiobraziliense.com.br/opiniao/2024/06/6874830-artigo-elespassarao-eu-passarinho.html. Acesso em: 13 jun. 2024.
Qual dos trechos a seguir, apresenta uma narrativa
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