Considerando o trabalho argumentativo promovido ao longo do ...
A realidade, só a realidade
Para ser qualificada de grande, uma obra de arte precisa estabelecer conexões profundas com as pessoas. Ao analisar o papel das tragédias teatrais, por exemplo, o filósofo grego Aristóteles concluiu que elas acabavam por purificar os espectadores quando lhes causavam sentimentos de terror e compaixão. Isso porque, depois de experimentá-los, as pessoas sairiam aliviadas, purgadas dos próprios pesadelos. Aristóteles chamou a isso catarse. O tipo de conexão proporcionado por Tropa de Elite, do diretor José Padilha, é de outra ordem. Trata-se de um grande filme justamente pelo contrário: ele não concede válvulas de escape ao retratar como a criminalidade degradou o país de alto a baixo. O pesadelo real ganha ainda mais nitidez. A sociedade brasileira, pelo jeito, ansiava por esse tapa na cara dado pelo capitão Nascimento, o policial interpretado magistralmente por Wagner Moura. Lançado há apenas duas semanas, Tropa de Elite já é o filme mais visto e comentado da história do cinema brasileiro. As salas de exibição lotam em todas as sessões e estima-se que mais de 11 milhões de pessoas tenham assistido ao filme em DVDs piratas que inundaram os camelôs de várias capitais do país (veja reportagem). Gírias policiais reproduzidas no filme e trechos de diálogos entre os personagens - como "pegou geral" e "01 pede pra sair" - tornaram-se bordões repetidos nas mais diversas situações.
O assunto da obra do diretor José Padilha é a guerra diuturna que a polícia carioca move contra os traficantes de drogas encastelados nos morros favelizados da cidade. Mais especificamente o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), a tropa de elite do título. O tráfico de drogas, o nervo mais exposto de um país em desordem e refém do medo (veja o quadro), é tema comum na cinematografia nacional recente. A diferença é que esse filme o aborda pondo os pingos nos is. Bandidos são bandidos, e não "vítimas da questão social". Há policiais corruptos, mas também muitos que são honestos. Se existem traficantes de cocaína e maconha, é porque há milhares de consumidores que os bancam. Muitos desses consumidores, aliás, são aqueles mesmos que fazem "passeatas pela paz" e compactuam com a bandidagem para abrir ONGs em favelas. Por último, a brutalidade de alguns policiais pode ser explicada pelo grau de penúria e abandono que o estado lhes reserva. [...]
Ditas de maneira tão simples, essas verdades parecem de uma obviedade ululante. E são. Mas o Brasil, infelizmente, é um país de idéias fora do lugar por causa da afecção ideológica esquerdista que inverte papéis, transformando criminosos em mocinhos e mocinhos em criminosos. Aqui, a "questão social" é justificativa para roubos, assassinatos e toda sorte de crime e contravenção - mesmo quando praticados por quadrilhas especializadas, compostas por integrantes que nada têm de coitadinhos.
Na semana passada, a pedido de VEJA, o instituto Vox Populi realizou uma pesquisa para medir o impacto de Tropa de Elite nos espectadores. Os resultados indicam por que o filme é arrebatador. Na opinião de 72% dos entrevistados, os criminosos que aparecem no filme são tratados como merecem. Quase 80% deles concordam que a polícia é apresentada com fidelidade - ou seja, tem uma banda podre e uma banda boa. Tropa de Elite agrada também por abordar a responsabilidade dos usuários de drogas sem meias palavras. O capitão Nascimento diz que o "playboy" que fuma um cigarro de maconha é o responsável pela morte de um traficante abatido pelo Bope. A afirmação encontra eco na população. Para 85% dos espectadores, o raciocínio do capitão Nascimento está correto. O policial vivido por Wagner Moura ganhou enorme popularidade, mas isso não significa que todas as pessoas enxerguem num Rambo a solução para problema tão complexo como o da criminalidade. Na opinião de 53% dos entrevistados, o capitão é um herói, mas 43% rejeitam essa idéia, embora o vejam com relativa simpatia. As características do personagem ajudam a explicar tal divisão. Nascimento é um ser humano devastado. Sofre de síndrome do pânico, consome vorazmente remédios de tarja preta e suas explosões freqüentemente resultam em ações que extrapolam o manual do Bope.
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Gabarito comentado
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Gabarito comentado – Interpretação de Texto
Tema central: A questão avalia interpretação de texto, mais precisamente a identificação da tese defendida e dos argumentos usados pelo autor para sustentar a qualificação de “Tropa de Elite” como grande obra. Dominar coerência textual e compreender a progressão lógica das ideias são fundamentais.
Por que a alternativa B está correta?
A alternativa B afirma que o filme escancara as mazelas da guerra contra o tráfico de maneira realística, com requinte dramático. O próprio texto diz que “não concede válvulas de escape ao retratar como a criminalidade degradou o país de alto a baixo” e deixa claro que “o pesadelo real ganha ainda mais nitidez”. O enfoque recai sobre a exposição direta e realista dos problemas (mazelas) sociais ligados ao tráfico e à violência, sendo essa exatamente a linha argumentativa do texto.
Segundo Bechara (Moderna Gramática Portuguesa), a compreensão textual exige perceber o senso global do texto e identificar elementos explícitos que sustentem as alternativas. Não são apenas frases soltas: é a coerência do todo que deve ser analisada.
Análise das alternativas incorretas:
A – Fala em “purificação por meio de sentimentos”, associando à catarse aristotélica. Contudo, o texto afirma o contrário, pois o filme não oferece válvula de escape ou alívio, mas escancara e aprofunda o desconforto. Atenção a esse tipo de pegadinha – generaliza-se filosofia, sem consonância com o texto-base.
C – Sugere “intertexto” com Aristóteles e “apelo subjetivo”, o que não se concretiza. O texto cita Aristóteles para efeito de contraste e não por produzir ligação literária/intertextual entre as obras. Isso é um falso argumento textual.
D – Indica que o filme é grande por mostrar “concepção de combate ao crime contrária às expectativas do espectador”. Isso não se sustenta, pois o texto não menciona frustração de expectativa, mas sim impacto pela crueza e realismo ao tratar o tema.
Dica estratégica: Em questões de interpretação, destaque os motivos centrais elencados pelo texto. Fique atento aos termos de valoração explícita (“grande filme”, “realidade escancarada”, “sem válvula de escape”): eles guiarão sua resposta logicamente.
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Qual o erro da letra D diante do trecho:
"Trata-se de um grande filme justamente pelo contrário: ele não concede válvulas de escape ao retratar como a criminalidade degradou o país de alto a baixo. "
Não vejo erro.
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