Em "A luavezinha", a autora utiliza palavras e expressões c...

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Q4112708 Português
A luavezinha


Minha filha tem um adormecer difícil. Sempre imagina algo antes de dormir e me pede histórias. Certa noite, quis saber se o mundo inteiro dormia com ela. Disse-lhe que muitos fazem isso: procuram um sonho e o encontram no sono. A menina decidiu que queria ver a lua; as tradições antigas diziam que ela lamenta a perda da luz solar, e isso a encantou.

Deitada, pediu que eu soprasse um sonho para ela. Encostou a cabeça no meu peito e adormeceu. Sonhou que buscava a lua e que, ao alcançá-la, ambas se olhavam como quem se reconhece. Mas algo a assustou: a lua não tinha nome, apenas um brilho preso a um medo antigo. Ao ouvir o choro da menina, a lua também chorou, revelando que temia ser esquecida.

No sonho, choraram juntas, e uma pequena ave surgiu, feita de ecos da própria lua. A ave pediu que a menina cantasse para espantar o silêncio. A menina cantou, e a lua, aos poucos, recuperou sua luz. Era o canto mais lindo que alguém já ouvira em todo o universo. Então, libertou a ave que saíra dela mesma e que agora voava sobre a noite renovada.

Quando acordou, minha filha me contou que tinha visto a lua mais bonita do mundo. Disse que a canção que sonhara ainda ecoava dentro dela. Sorriu com a certeza simples das crianças: a de que algumas belezas só aparecem para quem as sonha primeiro.


COUTO, Mia. A luavezinha. Texto adaptado a partir de: COUTO, Mia. Contos do nascer da Terra. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. 
Em "A luavezinha", a autora utiliza palavras e expressões com sentidos que vão além do seu significado literal, contribuindo para a construção do clima poético e simbólico da narrativa. Com base no contexto e nos efeitos de sentido produzidos, assinale a alternativa que apresenta a interpretação mais adequada da expressão "um brilho preso a um medo antigo", atribuída à lua.
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: A interpretação deve ser contextual e simbólica, conforme o trecho exato "a lua não tinha nome, apenas um brilho preso a um medo antigo. Ao ouvir o choro da menina, a lua também chorou, revelando que temia ser esquecida." Nesse contexto, "brilho" aponta para a luz/beleza da lua, enquanto "medo antigo" expressa um temor duradouro que a contém ou enfraquece; por isso, o gabarito é a alternativa D.

Tema central: interpretação de metáfora
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa reduz a expressão a uma comparação física entre lua e sol e acrescenta a ideia de inferioridade da noite diante do dia, o que o texto não afirma. O trecho decisivo desloca o sentido para o plano afetivo e simbólico: a lua chora e teme ser esquecida.
B
Errada
A alternativa trata a lua como simples projeção das inseguranças da menina, mas o texto lhe atribui interioridade própria: "a lua também chorou, revelando que temia ser esquecida". O medo é da própria lua, não uma transferência do medo da criança.
C
Errada
A alternativa impõe ao texto uma explicação mitológica específica sobre a lua minguante. A narrativa menciona "tradições antigas" e a perda da luz solar como recurso poético, mas não explica fases da lua nem afirma perda literal do poder de brilhar nesse sentido.
D
Certa
A alternativa D é a que melhor traduz o valor figurado da expressão: a lua é personificada como alguém que sofre, chora, teme ser esquecida e depois "recuperou sua luz". Isso indica que sua luz estava antes diminuída ou contida por um sofrimento antigo. Assim, "um brilho preso a um medo antigo" revela uma luminosidade existente, mas tolhida por tristeza, solidão ou memória do passado.
Pegadinha da questão
Tomar "brilho" em sentido apenas físico ou astronômico e ignorar a personificação da lua. O trecho "recuperou sua luz" confirma que a expressão fala de luminosidade simbolicamente contida por um medo antigo.
Dica para questões semelhantes
  • Quando o comando pedir sentido além do literal, interprete a expressão pelo contexto simbólico, não pelo significado físico isolado.
  • Se o texto personifica um elemento, os traços emocionais atribuídos a ele orientam o sentido da metáfora.
  • Use trechos posteriores como prova semântica: aqui, "recuperou sua luz" mostra que a luz estava antes contida, não ausente.
  • Elimine alternativas que acrescentem explicações científicas, hierarquias ou projeções psicológicas sem amparo no texto.

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