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Q450201 Português
                                     Memórias de um avestruz literário

        Modéstia à parte, fui um menino bem esquisitinho. Depois, há quem diga, piorei. Não é verdade. Não daria conta de superar em bizarria - em chatice, vá lá - o frangote que fui na puberdade. O turbilhão de hormônios não explica tudo. Não me lembro de ter conhecido um ser que desfiasse o meu vocabulário de então. Talvez o Antônio Houaiss. Não era por acaso que lá no bairro volta e meia alguém me interpelava:
       - Ei, irmão do Rodrigo, vem falar difícil pra gente! 
      Não cheguei a topar provocações, mas certa vez deixei de queixo caído um tio que veio xeretar o que havia no meu prato.

     - O que temos aí? 
     - Lipídios, glicídios e protídeos. 
     Foi o que bastou para ganhar do tio Samuel o apelido, infelizmente efêmero, de Zé Lipídio.
    Ouvia entoar a ave galiforme da família dos fasianídeos - ou, se você prefere, ouvia o galo cantar - e tratava logo de utilizar o vocábulo recém-aprendido, sem o cuidado de saber o que estava dizendo. Arranquei gargalhadas de meu pai com um “diabo aquático” em vez de “diabo a quatro”. Escaldado, tratei de me tornar freguês do dicionário, que até então, como os outros garotos, folheava apenas para garimpar palavrões, com especial atenção aos que designassem acidentes geográficos da anatomia humana.
    Ao contrário dos companheiros, porém, mantive o hábito mesmo depois que pudemos encarar ao vivo o que conhecíamos apenas do dicionário. Só que agora os palavrões, digamos, eram outros: na minha insuportável chatice adolescente, o que eu buscava eram palavras estranhas - abstrusas, diria eu na época - que, jogadas na roda como granada verbal, tivessem o poder de silenciar a audiência ignara. Meu amigo Jaime e eu chegamos a inventar umas tantas, nenhuma delas mais impactante que “cripteriótico”, cujo significado, se é que tinha algum, variava conforme a circunstância em que era disparada. Devo ao Laudelino uma coleção de excentricidades vocabulares que tive o bom senso de jamais utilizar. Mas ainda sei o que é almadraque. Não, não vou traduzir. Vá catar no dicionário, seu alóbrogo.

                                             (Humberto Werneck. Esse inferno vai acabar. Porto Alegre: Arquipélago 
                                                                                                                      Editorial, 2011, pp. 123/124)

Considerando-se o contexto, traduz-se adequadamente o sentido de um segmento em:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: B

Fundamento decisivo: A decisão depende da equivalência semântica contextual do segmento “Não daria conta de superar em bizarria - em chatice, vá lá - o frangote que fui na puberdade.”: no enunciado, “superar” vale por exceder, ir além, e “bizarria”, pelo contexto, equivale a excentricidade/esquisitice. Assim, a única paráfrase compatível é a da alternativa B.

Tema central: equivalência semântica contextual
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque a paráfrase altera o sentido dos dois termos do segmento. Em “tivessem o poder de silenciar a audiência ignara.”, “ignara” significa ignorante, não “anônima”. Além disso, “audiência”, nesse contexto, refere-se ao público/ouvinte, não a “recepção”. Há desvio semântico do adjetivo e do substantivo.
B
Certa
A alternativa B preserva o sentido do segmento original ao manter “superar” como ir além e “bizarria” como excentricidade/esquisitice. Por isso, reproduz a ideia de que o narrador não seria capaz de ser mais excêntrico do que foi na puberdade.
C
Errada
Está errada porque substitui uma expressão figurada coerente por outra de campo semântico diverso. “Turbilhão de hormônios” não corresponde a “congestão de excreções” e a paráfrase não preserva o sentido do trecho.
D
Errada
Está errada porque, embora “efêmero” possa corresponder a “transitório”, a troca de “infelizmente” por “afortunadamente” inverte a avaliação do narrador. A equivalência tem de preservar o sentido global do segmento, inclusive o valor avaliativo expresso pelo advérbio.
E
Errada
Está errada porque “folheava apenas para garimpar palavrões” significa procurar, catar, buscar palavrões no dicionário. “Discriminar maledicências” não corresponde ao sentido de “garimpar” nem ao de “palavrões”, produzindo uma reescrita semanticamente infiel.
Pegadinha da questão
A banca explorou paráfrases com aparência de acerto parcial: uma palavra até se aproxima do original, mas outra quebra o sentido do segmento inteiro, como em “infelizmente efêmero”/“afortunadamente transitório”.
Dica para questões semelhantes
  • Verifique se a paráfrase preserva o sentido do segmento completo, não apenas de uma palavra isolada.
  • Use o contexto anterior e posterior para fixar o valor semântico de palavras potencialmente ambíguas, como “bizarria”.
  • Elimine opções que trocam o campo semântico original por outro, mesmo que a construção pareça sofisticada.
  • Observe advérbios e marcas avaliativas: se eles mudam, o sentido global também muda.

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Ignara = que não tem conhecimentos, instrução

Bizarria = distinção, elegância

Turbilhão = agitação, movimento intenso, redemoinho

Efêmero = breve, passageiro, temporário

Garimpar = explorar, ir em busca de (no sentido conotativo, figurado)

A) Audiência ignara = audiência ignorante

B) Superar em bizarria = exceder na elegância, ou ir além na excentricidade, como afirma o gabarito.

C) Turbilhão de hormônios = agitação de hormônios, redemoinho de emoções

D) Infelizmente efêmero = infelizmente breve

E) Para garimpar palavrões = para procurar palavrões

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