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Q3653962 Sociologia
“Foi então que uns brancos muito legais convidaram a gente pra uma festa deles, dizendo que era pra gente também. Negócio de livro sobre a gente. A gente foi muito bem recebido e tratado com toda consideração. Chamaram até pra sentar na mesa onde eles estavam sentados, fazendo discurso bonito, dizendo que a gente era oprimido, discriminado, explorado. Eram todos gente fina, educada, viajada por esse mundo de Deus. Sabiam das coisas. E a gente foi se sentar lá na mesa. Só que tava cheia de gente que não deu pra gente sentar junto com eles. Mas a gente se arrumou muito bem, procurando umas cadeiras e sentando bem atrás deles. Eles tavam tão ocupados, ensinando um monte de coisa pro crioléu da plateia, que nem repararam que se apertasse um pouco até que dava pra abrir um espaçozinho e todo mundo sentar junto na mesa. Mas a festa foram eles que fizeram, e a gente não podia bagunçar com essa de chega pra cá, chega pra lá. A gente tinha que ser educado. E era discurso e mais discurso, tudo com muito aplauso.”

GONZALEZ, Lélia. (In: "Racismo e sexismo na cultura brasileira", epígrafe).


O trecho destacado da obra da intelectual Lélia Gonzalez faz parte de sua ampla discussão sobre racismo e sexismo no Brasil. No que diz respeito ao tema e com base na epígrafe destacada, é incorreto afirmar que:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: D

Por que D é a alternativa correta (incorreta no enunciado):

O item D afirma que a epígrafe “busca, através da grafia de determinadas palavras, expor o preconceito linguístico sofrido por mulheres pretas em ambientes acadêmicos no Brasil.” Isso é um erro de leitura. A fala reproduzida usa formas coloquiais e grafia que representam uma voz social (registro popular) para mostrar relações de poder, condescendência e exclusão — não faz argumento específico sobre preconceito linguístico em ambientes acadêmicos. Ou seja: o trecho ilustra relação dominador/dominado e racismo-sexismo interseccionado, não uma denúncia exclusiva sobre variação linguística na academia.

Resumo teórico curto e referências:

- Conceitos centrais: racismo estrutural (Silvio Almeida), interseccionalidade (Kimberlé Crenshaw) — explicam como raça e gênero se combinam para produzir consequências específicas para mulheres negras.

- No Brasil, o debate de Lélia Gonzalez destaca como discursos paternalistas e culturalmente superiores naturalizam exclusões e estigmas. Fontes úteis: Lélia Gonzalez (ensaios sobre racismo e sexismo), Crenshaw (1989) e o Estatuto da Igualdade Racial (Lei nº 12.288/2010) como referência normativa contra discriminações.

Análise das alternativas (por que A, B e C estão corretas):

A — Correta: o texto mostra relação entre dominador (os “brancos muito legais”) e dominados (o grupo convidado), evidenciando condescendência e controle simbólico.

B — Correta: a articulação de racismo e sexismo produz efeitos violentos sobre corpos de mulheres negras — leitura alinhada à interseccionalidade e à obra de Gonzalez.

C — Correta: o “imbricamento de distintas opressões” rotula corpos negros com marcas pejorativas; o trecho revela estigmatização e construção de inferioridade.

Estrategia de prova — como identificar a pegadinha:

- Note o termo da questão: “é incorreto afirmar”. Sempre inverta mentalmente as alternativas.

- Busque no enunciado evidência literal: o trecho trata de relações sociais e poder, não faz referência específica a “ambiente acadêmico” nem propõe uma reflexão lingüística técnica — cuidado com extrapolações.

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