Considere as afirmativas a respeito do segmento isolado por ...

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Q2878645 Português
        Uma nação se forja graças à sua memória. Ninguém melhor do que os franceses para cultuar a sua História, bem apresentada na Biblioteca François Mitterrand, em Paris, com a exposição sobre os heróis, denominada De Aquiles a Zidane. Curioso o título da mostra, a indicar o surgimento de um novo modelo de herói. Na exposição se percorre uma longa trajetória, que vai dos heróis gregos, como Aquiles, um bravo, corajoso, impiedoso combatente, que preferiu a vida breve gloriosa a uma vida longa obscurecida, até as figuras de gibi e televisão, como Superman e Homem-Aranha, para finalizar com uma celebridade do contagiante futebol. Dos pés de Aquiles, seu único ponto fraco, aos pés de Zidane, seu ponto forte.
        Sendo o herói de hoje efêmero, que tem seu rápido momento de glória registrado pela mídia para ser logo esquecido, teve-se de recorrer, para marcar o herói dos tempos atuais, às figuras imaginárias do Superman, do Homem-Aranha, consagradas nas revistas e nas telas de cinema ou televisão. Como diz Michela Marzano sobre a morte espetáculo, “as fronteiras entre a ficção e realidade são cada vez mais vagas”. Os heróis de hoje não são de carne e osso, são super-heróis indestrutíveis de um espetáculo de divertimento, mas que podem confundir-se com o real, como fez o garoto de Santa Catarina que, vestido de Homem-Aranha, penetrou nas chamas e retirou a menininha do berço incendiado.
        Mas a mostra rememora os heróis franceses a serem cultuados e seguidos. Os heróis são símbolos nacionais ou religiosos cujos prodígios se caracterizam pela bravura, pela temeridade, pela renúncia, pelo idealismo. Põem acima do próprio instinto de conservação a busca do bem coletivo. O herói ressalta-se por sua vontade de vencer, pela força do caráter, pela grandeza de alma, pela elevada virtude, que o faz enfrentar sobranceiramente a morte. [...]
        Lembrei o exemplo de mártires que, sem desprezo pela morte, a enfrentaram com estoicismo, alimentados por suas crenças em luta corajosa para a eliminação da injustiça e a transformação da sociedade em benefício de todos. Não foram estes homens combatentes de grandes feitos militares, portado- res de estratagemas ou forças invencíveis. Foram pessoas comuns, que tiveram destino diverso das demais por aceitarem enfrentar os perigos em nome de uma causa, com a virtude da renúncia aos próprios interesses. São heróis, não super-heróis ou celebridades, como os “heróis” de hoje.
        Nós, brasileiros, também temos exemplos de heróis de carne e osso, em nossa História, que morreram na luta por suas crenças. Lembro três: Zumbi, Frei Caneca e Marçal de Souza Tupã-Y. Malgrado existam estes exemplos, dentre outros, assusta a resposta colhida em pesquisa feita, por internet, entre 60 mil brasileiros, a quem se indagou qual a figura mais importante de nossa História. A resposta majoritária foi, num leque de opções, o próprio povo brasileiro. Tal indica que deixamos de ter modelos, valores a serem perseguidos. Perdeu-se a memória.

(Adaptado de Miguel Reale Júnior. O Estado de S. Paulo, A2, 1 de dezembro de 2007)

Considere as afirmativas a respeito do segmento isolado por aspas no 2o parágrafo:

I. O emprego de aspas indica tratar-se de reprodução exata de palavras alheias, introduzidas no texto.

II. Trata-se de um argumento que pode justificar a inclusão de figuras ficcionais ao lado de pessoas reais na mostra sobre os heróis.

III. Tem seu sentido contestado pelo exemplo do menino de Santa Catarina cuja atitude demonstrou que a realidade ainda supera a ficção.

Está correto o que se afirma SOMENTE em

Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: O trecho decisivo é: "Como diz Michela Marzano sobre a morte espetáculo, “as fronteiras entre a ficção e realidade são cada vez mais vagas”." Nesse segmento, as aspas assinalam citação direta de palavras alheias, introduzida por "Como diz Michela Marzano"; por isso, a afirmativa I está correta. A presença dessa citação também integra o encadeamento argumentativo do parágrafo, em que a aproximação entre ficção e realidade ajuda a explicar a referência a figuras ficcionais na mostra, o que sustenta a afirmativa II e invalida a III.

Tema central: Aspas e argumentação
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque considera apenas a afirmativa I. De fato, I é correta, já que as aspas assinalam citação direta introduzida por "Como diz Michela Marzano". Porém a II também é correta, pois o trecho citado sustenta o raciocínio de que figuras ficcionais podem representar o herói dos tempos atuais.
B
Errada
Está errada porque considera apenas a afirmativa II. A função argumentativa da citação está corretamente percebida, mas a I não pode ser excluída: o segmento entre aspas reproduz palavras atribuídas a Michela Marzano, e não mero destaque gráfico dado pelo autor.
C
Errada
Está errada porque a afirmativa III contraria o encadeamento do 2º parágrafo. O episódio do menino de Santa Catarina não contesta a frase "as fronteiras entre a ficção e realidade são cada vez mais vagas"; ele aparece justamente para ilustrar essa aproximação, já que o menino, vestido de Homem-Aranha, age no real sob influência de uma figura ficcional.
D
Certa
A alternativa D está correta porque reúne exatamente as duas afirmações sustentadas pelo texto. A I procede, pois o trecho entre aspas vem introduzido por verbo dicendi e atribuído expressamente a outra voz: Michela Marzano. Isso caracteriza reprodução de palavras alheias. A II também procede, porque a frase citada funciona como argumento de autoridade para explicar por que, na construção do herói contemporâneo, aparecem figuras ficcionais como Superman e Homem-Aranha: se as fronteiras entre ficção e realidade estão vagas, a inclusão dessas figuras na mostra se torna coerente com a tese desenvolvida no parágrafo.
E
Errada
Está errada porque mistura uma afirmativa correta com outra incorreta. A II está de acordo com o texto, mas a III introduz uma leitura não sustentada: o texto não diz que "a realidade ainda supera a ficção". Essa formulação é extrapolação interpretativa e, além disso, inverte a função do exemplo, que reforça a confusão entre ficção e realidade.
Pegadinha da questão
A banca explora duas confusões reais: ler as aspas apenas como destaque, ignorando que há citação direta introduzida por "Como diz", e tomar o caso do menino vestido de Homem-Aranha como refutação da tese, quando ele funciona como sua comprovação.
Dica para questões semelhantes
  • Se houver verbo como "diz", "afirma" ou "declara" antes das aspas, verifique primeiro se o trecho é fala alheia reproduzida diretamente.
  • Depois de identificar a citação, observe sua função no parágrafo: ela pode servir como argumento de autoridade, e não apenas como informação acessória.
  • Quando um exemplo vem logo após uma tese, teste a relação de sentido: ele pode ilustrar ou comprovar a ideia anterior, e não necessariamente contrariá-la.

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