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Q3542764 Português
Texto CB1A1

        Em pleno momento de grandes transformações político-sociais, na segunda metade da década de 1970, quando já havia inclinações para a volta da democracia, o cantor e compositor Belchior anunciava que “o passado é uma roupa que não nos serve mais”. Os padrões de hoje já nos estabelecem estilos e modelos diversos daqueles que um dia adotamos como referência. Definitivamente, aquele que envergou a vestimenta outrora usada já não é mais a mesma pessoa e qualquer tipo de tentativa de reutilizá-la passará, necessariamente, pela realização de ajustes que se amoldem ao instante presente.

        Velhos hábitos incorporados à nossa rotina devem, periodicamente, ser revisitados, a fim de que se tornem compatíveis com a realidade e a concretude do presente. Se, antes, a vasta cabeleira podia ser repartida ao meio, dando a quem a ostentava ares despojados e joviais, no tempo atual, para muitos, a escassez capilar obriga a adaptar o penteado. Nada adianta ficar de mal com a superfície que a imagem reflete. De qualquer forma, nada ou ninguém passa incólume pela ação do tempo, sem experimentar transformações de todas as naturezas.

Mudar é verbo que se conjuga em perfeita sintonia com viver e, essencialmente, compõe rima exata com adaptar. Ao descrever a teoria da evolução, Charles Darwin assentou que a sobrevivência não é assegurada pelo emprego da força, mas depende de mudanças adaptativas dos seres expostos às transformações constantes (paulatinas ou abruptas) do ambiente que os cerca. 

        O contexto estampado veicula um paradoxo. Se, por um lado, a marcha da mudança é via que não admite retorno, permitindo apenas momentos de variações rítmicas dos passos, mas sem nunca ser contida, por outro, ela aterroriza, chegando quase a paralisar o paciente da mutação. No entanto, não é o medo do escuro que vai impedir que a Terra gire, tampouco fará que a luz solar tome o lugar da noite pouco iluminada.

Fábio Túlio Filgueiras Nogueira. O tribunal de contas contemporâneo, o processo de transformação e a pandemia. In: Edilberto Carlos Pontes Lima (coord.). Os tribunais de contas, a pandemia e o futuro do controle. Belo Horizonte: Fórum, 2021, p. 245-254 (com adaptações)

Julgue o item a seguir, referente a aspectos linguísticos e ao vocabulário do texto CB1A1.


No trecho “já não é mais a mesma pessoa” (terceiro período do primeiro parágrafo), a omissão da palavra “já” — não é mais a mesma pessoa — ou da palavra “mais” — já não é a mesma pessoa — não prejudicaria a coerência das ideias do texto. 

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Gabarito: CERTO

A omissão da palavra "já" e da palavra "mais" não prejudicam a coerência, pois ela diz respeito à lógica das ideias, à relação de sentido entre as partes do texto que claramente dá para entender, o que o texto quer repassar para o leitor.

Diferentemente da coesão que se refere à forma como as palavras, orações e parágrafos estão ligados linguisticamente no texto, por meio de conjunções, pronomes.

A retirada de “já” ou de “mais” não compromete a coerência do texto, porque a ideia central — de que houve uma transformação da pessoa — continua presente.

O que muda é apenas o grau de ênfase e de nuance temporal:

  • Com “já” e “mais” juntos: maior intensidade expressiva.
  • Sem “já”: perde-se a referência temporal de contraste.
  • Sem “mais”: perde-se o reforço de ruptura definitiva.

No trecho “já não é mais a mesma pessoa”, temos uma construção enfática.

  • Se retirarmos “já”, fica “não é mais a mesma pessoa” → a ideia de mudança continua, só perde a noção de tempo/ênfase (“já” = nesse momento, atualmente).
  • Se retirarmos “mais”, fica “já não é a mesma pessoa” → também permanece coerente, transmitindo a ideia de transformação.

Em ambos os casos, a frase continua correta e com sentido coerente, apenas com leve perda de intensidade ou nuance temporal, mas sem comprometer a compreensão do texto.

Tá errado sim e nada tira isso da minha cabeça. Cebraspe deveria ter anulado ou mudado o gabarito dessa.

Não compromete a coerência, uma vez que esses termos são elementos estilísticos que dão ênfase a oração, não são essenciais.

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