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Q4036945 Português
Para responder à questão seguinte, leia o texto abaixo.

Oportunismo eleitoral e despesas ambientais nos
municípios do Brasil

    A competência do gestor público é frequentemente avaliada com base em sua capacidade de prover bens e serviços coletivos com eficiência e responsabilidade fiscal. Em períodos eleitorais, esse julgamento se intensifica, incentivando gestores a adotarem estratégias que ampliem sua popularidade e aumentem suas chances de reeleição. Entre essas estratégias, destacam-se o esforço em evitar déficits fiscais e o redirecionamento de recursos para áreas de maior visibilidade política, como pessoal, educação e infraestrutura.


    Tais ações evidenciam uma seletividade orçamentária, em que determinadas despesas são priorizadas estrategicamente conforme o ciclo político, gerando assimetria informacional de curto prazo. Esse comportamento encontra respaldo na Teoria dos Ciclos Políticos (TCP), segundo a qual gestores ajustam a política econômica de acordo com o calendário eleitoral, cuja previsibilidade favorece a antecipação de decisões com o objetivo de obter vantagem eleitoral.


    A TCP postula, em suas hipóteses, que gestores públicos se aproveitam da racionalidade limitada dos eleitores, divulgando benefícios e propostas para angariar votos. Esse aproveitamento da memória de curto prazo dos eleitores é declarado como a hipótese oportunística na TCP, e assume que os gestores utilizam ideologias e percepções populacionais para ganhos políticos em períodos eleitorais. Um bom exemplo é o uso de pautas ambientais para fomentar apoio em campanhas eleitorais, explorando a miopia política do eleitorado para obter suporte.


    Paralelamente, a criação do Sistema de Contabilidade Econômico-Ambiental, adotado como referência internacional pela Organização das Nações Unidas (ONU), promove a integração de dados econômicos e ambientais, proporcionando visão abrangente da contabilização de recursos naturais na produção de bens e serviços. Para legitimar a conformidade desse sistema dentro da esfera pública, foi desenvolvido um movimento liderado pelo International Public Sector Accounting Standards Board (IPSASB), que, em 2022, formalizou o início das normas de relatórios de sustentabilidade.


    Tais iniciativas foram impulsionadas por agendas ambientais globais. Entre essas agendas, destacam-se o Acordo de Paris, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU e a Agenda 21. Esses mecanismos buscam integrar a dimensão ambiental à lógica orçamentária estatal, por meio da mensuração das chamadas “despesas com capital verde”.


    No contexto brasileiro, a Política Nacional do Meio Ambiente (PNMA), instituída pela Lei n. 6.938/1981, estabelece as diretrizes para a preservação, melhoria e recuperação da qualidade ambiental. As chamadas despesas ambientais abrangem ações como controle de cheias, licenciamento, gestão de resíduos e recuperação de áreas degradadas, funcionando como indicativo da prioridade atribuída à agenda ambiental nos municípios.


    Diante do cenário de restrição fiscal, o orçamento público consolida-se como principal instrumento de escolha política e alocação estratégica. No Brasil, além de sua função de planejamento, ele também exerce papel fundamental na transparência, no controle social e na responsabilização dos gestores, contribuindo para a qualidade da gestão pública e a eficiência no uso dos recursos.


Como entes federativos mais próximos das demandas sociais, os municípios exercem papel decisivo na provisão de bens públicos. Estudos apontam que prefeitos tendem a ajustar suas decisões orçamentárias com base em incentivos eleitorais, priorizando áreas de maior apelo junto ao eleitorado. Nesse contexto, políticas ambientais podem ser relegadas a segundo plano em anos eleitorais, em favor de despesas com vantagem eleitoral, como obras públicas ou folha de pagamento.


Fonte: MARQUES, M. S. et al. Oportunismo eleitoral e despesas

ambientais nos municípios do Brasil. Cad. Gest. Pública Cid., São

Paulo, v. 31, n. 3, 2026 (com adaptações).

Considerando a organização global do texto, sua progressão temática e a articulação entre as ideias apresentadas — especialmente no que se refere à construção argumentativa, ao papel dos referenciais teóricos e à delimitação do núcleo temático —, analise as partes a seguir:


(1ª parte). O texto adota predominantemente uma estrutura expositiva neutra, limitando-se à apresentação de conceitos sem estabelecer relações argumentativas entre eles.


(2ª parte). A abordagem das agendas ambientais globais constitui o núcleo temático do texto, em detrimento da discussão sobre comportamento eleitoral.


(3ª parte). A conclusão introduz uma ideia nova e dissociada dos argumentos previamente desenvolvidos, rompendo a unidade temática do texto.


Pode-se afirmar que:

Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a progressão temática e a articulação entre tese, base teórica e fechamento: o texto não apresenta blocos independentes, mas encadeia o problema do oportunismo eleitoral, a TCP como suporte explicativo e a aplicação ao contexto municipal, de modo que a conclusão retoma o mesmo eixo argumentativo e preserva a unidade temática.

Tema central: oportunismo eleitoral e despesas ambientais
Análise das alternativas
A
Errada
Incorreta porque não é só a 1ª parte que está errada. A 2ª também está incorreta: “Tais iniciativas foram impulsionadas por agendas ambientais globais.” mostra função de contextualização, não de núcleo temático principal. E a 3ª também está incorreta, porque “Estudos apontam que prefeitos tendem a ajustar suas decisões orçamentárias com base em incentivos eleitorais...” retoma a discussão anterior e a aplica ao plano municipal, sem quebra de unidade.
B
Errada
Incorreta porque, embora a 1ª e a 2ª partes realmente estejam incorretas, a 3ª também está. A conclusão não introduz ideia dissociada: “Nesse contexto, políticas ambientais podem ser relegadas a segundo plano em anos eleitorais...” decorre diretamente da tese antes construída sobre oportunismo eleitoral, TCP e uso estratégico de pautas ambientais.
C
Errada
Incorreta porque a 1ª parte também está errada. O texto não se limita a apresentar conceitos; ele articula relações causais e interpretativas. Isso fica claro em “Em períodos eleitorais, esse julgamento se intensifica...” e em “Esse comportamento encontra respaldo na Teoria dos Ciclos Políticos (TCP)...”, trechos em que o referencial teórico sustenta a explicação do comportamento dos gestores.
D
Certa
A alternativa D está correta porque as três afirmações contrariam a organização real do texto. A 1ª está errada, pois o texto não se limita a expor conceitos de forma neutra: ele sustenta uma interpretação do comportamento dos gestores em períodos eleitorais, e a TCP funciona como base explicativa. A 2ª também está errada, porque as agendas ambientais globais aparecem como contextualização secundária, enquanto o núcleo temático é a relação entre oportunismo eleitoral e despesas ambientais nos municípios brasileiros. A 3ª igualmente está errada, já que a conclusão não rompe a unidade temática; ela retoma a discussão anterior e a aplica ao contexto municipal.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre texto técnico-informativo e exposição neutra, além de induzir o candidato a tomar a contextualização sobre agendas ambientais globais como tema central e a ler a conclusão aplicada aos municípios como se fosse assunto novo.
Dica para questões semelhantes
  • Verifique se os conceitos apresentados servem apenas para informar ou para sustentar uma tese; se explicam um fenômeno, há construção argumentativa.
  • Separe tema central de contextualização secundária: a presença de um bloco informativo não o transforma automaticamente no núcleo temático.
  • Teste a conclusão pelo vínculo com o desenvolvimento: se ela retoma premissas anteriores e apenas especifica o foco, não há ruptura temática.

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Comentários

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Gabarito: D

Todas as partes estão incorretas.

Análise da 1ª parte:

A 1ª parte afirma que o texto é apenas expositivo neutro, limitando-se a apresentar conceitos. Isso está incorreto. O texto até apresenta conceitos, como a Teoria dos Ciclos Políticos, despesas ambientais e agendas globais, mas faz isso para construir uma argumentação: mostrar como gestores podem ajustar despesas públicas conforme interesses eleitorais. Portanto, há relação argumentativa entre as ideias.

Análise da 2ª parte:

A 2ª parte afirma que as agendas ambientais globais são o núcleo temático do texto. Isso também está incorreto. Elas aparecem como elemento secundário, servindo para contextualizar a importância das despesas ambientais. O núcleo do texto é o oportunismo eleitoral na alocação de despesas ambientais nos municípios brasileiros.

Análise da 3ª parte:

A 3ª parte afirma que a conclusão traz ideia nova e desconectada. Também está incorreta. O último parágrafo retoma a ideia central: prefeitos ajustam decisões orçamentárias por incentivos eleitorais, podendo deixar políticas ambientais em segundo plano. Ou seja, a conclusão mantém a unidade temática.

Alternativa correta:

D — Todas as partes estão incorretas.

Comentário para revisão:

Quando a questão fala em organização global, progressão temática e núcleo temático, ela quer saber se você entendeu a estrutura geral do texto. Aqui, o texto progride assim: gestor público → período eleitoral → Teoria dos Ciclos Políticos → despesas ambientais → contexto brasileiro → conclusão sobre municípios e escolhas orçamentárias em ano eleitoral. O eixo central não é apenas meio ambiente, mas a relação entre eleição, orçamento e despesas ambientais.

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