Centro de pesquisa brasileiro desenvolve protótipo
de bateria nuclear
Imagine um telefone celular cuja bateria dure anos e não
precise ser plugado na tomada para recarregar. Ou um
drone capaz de voar indefinidamente sobre a Amazônia,
registrando focos de desmatamento e de mineração
ilegal. Situações como essas poderão se tornar
realidade, em algum tempo, com o início da produção
comercial de novos sistemas de armazenamento de
energia que usam material radioativo para gerar
eletricidade ininterruptamente, por dezenas ou centenas
de anos.
Uma das inovações foi revelada no começo do ano pela
startup chinesa Betavolt. A empresa desenvolveu uma
bateria nuclear que poderá gerar energia por 50 anos
sem necessidade de recarga. O dispositivo mede 15
milímetros (mm) de comprimento, por 15 mm de largura
e 5 mm de espessura e opera a partir da conversão da
energia liberada pelo decaimento de isótopos radioativos
de níquel (Ni-63). Com 100 microwatts (µW) de potência
e 3 volts (V) de tensão elétrica, o módulo é um
projeto-piloto. A Betavolt planeja colocar no mercado em
2025 uma versão mais potente da bateria, com 1 watt
(W). Ela tem função modular e, de acordo com a startup,
poderá ser empregada em série para energizar drones
ou celulares.
O Brasil tem estudos na área. Uma equipe do Instituto de
Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), uma unidade
técnico-científica da Comissão Nacional de Energia
Nuclear (CNEN), com sede em São Paulo, apresentou
no fim de 2023 o primeiro protótipo de uma bateria
nuclear termelétrica feito no país. O princípio de
funcionamento do dispositivo, também conhecido como
gerador termelétrico radioisotópico (RTG), é diferente do
sistema da Betavolt: uma corrente elétrica é produzida a
partir da conversão do calor gerado pela desintegração
de um isótopo de amerício (Am-241). No módulo chinês,
partículas beta (elétrons) transformam-se em corrente
elétrica por meio de um sistema conversor específico.
O processo de decaimento ou desintegração radioativa
ocorre quando o núcleo instável de um elemento químico
se transforma no núcleo de outro elemento, que tem
menos energia. O processo libera radiação
eletromagnética e pode emitir partículas. Esse fenômeno
é caracterizado pela meia-vida, que é o tempo
necessário para que metade dos átomos do isótopo
radioativo presente em uma amostra se desintegre.
"Durante nosso desenvolvimento, tivemos que
dimensionar um módulo gerador termelétrico,
responsável por converter a energia térmica em elétrica",
explica o engenheiro químico e doutor em tecnologia
nuclear Carlos Alberto Zeituni. Ele é o gerente do Centro
de Tecnologia das Radiações (Ceter) do Ipen, uma das
unidades envolvidas no projeto − a outra é o Centro de
Engenharia Nuclear (Ceeng).
A principal vantagem das baterias nucleares é a
possibilidade de fornecer carga durante um longo
período de tempo. "Uma bateria química convencional
dura cinco anos, enquanto uma de lítio chega a 10 anos.
As nucleares podem ter duração de 50, 100 anos ou
mais, dependendo do material radioativo utilizado. A
nossa, estimamos que vá durar mais de 200 anos", diz
Zeituni.
O Ipen não mediu a potência do módulo, cuja tensão
elétrica é de apenas 20 milivolts (mV). O próximo passo,
segundo o centro, é construir uma versão com 100
miliwatts (mW) de potência, capaz de controlar uma
estação meteorológica remota − a tensão dependerá do
termelétrico empregado. A pesquisa, iniciada há dois
anos, vem sendo financiada por uma empresa nacional
interessada em comercializar a tecnologia. Por contrato,
seu nome não pode ser revelado.
Para criar o módulo, os pesquisadores do Ipen utilizaram
11 fontes de amerício que eram originalmente
empregadas em equipamentos de medição de
espessura de chapas. Para eliminar o risco de
vazamento do material radioativo, as fontes foram
empilhadas e encapsuladas em um tubo de alumínio.
"O parâmetro inicial de todo o projeto nuclear tem que
ser a segurança. A bateria só será comercializada
quando houver garantia de que o risco de vazamento é
nulo. Por isso, vamos usar um duplo ou triplo
encapsulamento do material radioativo e realizaremos
testes de impacto e de quebra", esclarece o engenheiro
mecânico Eduardo Lustosa Cabral, pesquisador do
Ceeng que participa do projeto.
Retirado e adaptado de: VASCONCELOS, Yuri. Centro de pesquisa
brasileiro desenvolve protótipo de bateria nuclear. Revista Pesquisa
FAPESP.