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Q3946954 Português

Leia o texto abaixo, para responder à questão


TEXTO I


Robôs no parquinho: brinquedos inteligentes levantam dúvidas sobre efeitos na infância


Impulsionados por políticas de inovação e pela cultura de alto desempenho escolar, eles ganham espaço na China


        Não deu outra, e era esperado que assim fosse. Brinquedos equipados com inteligência artificial (IA) deixaram de ser curiosidade de feira tecnológica para virar hábito de quarto infantil na China. Bichos de pelúcia que “falam”, pingentes que dão voz a personagens e robôs de mesa que jogam xadrez com crianças fazem parte de um catálogo em expansão acelerada. A engrenagem que puxa a onda combina três forças conhecidas do país: o investimento público em inovação (ainda que na marra, com a mão pesada do Estado), uma cultura que trata a educação como escada social desde cedo e o avanço dos modelos locais de linguagem ancorados em algoritmos. O resultado: “companheiros digitais” que prometem ensinar, conversar e até reconhecer emoções — uma evolução evidente em relação Rosie, a funcionária doméstica dos à Jetsons dos anos 1960 e 1970, que supunha um amanhã que agora chegou. A promessa empolga famílias e empresas, mas acende, com igual intensidade, o alerta de educadores.


        Startups exibem números vistosos; segundo projeções do setor, o mercado pode ultrapassar o equivalente a cerca de 75 bilhões de reais até 2030. A multiplicação das opções criou um ecossistema em que o aprendizado e o afeto viraram produto. Um dos campeões de venda é o BubblePal, um pequeno pingente que transforma qualquer pelúcia em interlocutor falante, com 39 vozes diferentes que dão “vida” a personagens da Disney e até heróis chineses. [...]


        No marketing, os autômatos são apresentados como “ferramentas educativas”. Na sala de aula e no quintal, porém, a conta é mais complexa. “Habilidades como empatia, resolução de conflitos e generosidade só podem ser aprendidas na arena complexa das interações humanas”, afirma Daniela Pannuti, diretora da divisão primária da Avenues São Paulo, escola internacional que também mantém um campus em Nova York. A ressalva toca o coração da infância: brincar é processo, não produto. [...] Quando a criança passa a “brincar” com um outro previsível, mesmo que muito sofisticado, há o perigo de treinar o convívio sem contradição, sem espera de vez, sem o gesto de ceder. 


        Do lado de lá do balcão, o fenômeno ilumina uma política industrial cujo adversário, não há dúvida, são os Estados Unidos. O país opera há anos com metas explícitas de liderança tecnológica e digitalização. Brinquedos “inteligentes”, nesse contexto, deixam de ser apenas entretenimento para virar extensão de uma estratégia. “A China entende que a IA é uma ciência e que faz parte do progresso de uma nação. Por isso, esses brinquedos inteligentes são vistos como uma vantagem competitiva no campo da educação”, observa Thomas Law, presidente do Instituto Sociocultural Brasil-China (Ibrachina). A leitura ajuda a explicar por que a adoção é tão veloz: se o objeto promete treinar língua, lógica ou matemática, ele ganha o carimbo de utilidade e acaba entrando no carrinho. O gesto é cultural, mas também pragmático: a família compra o que acredita encurtar o caminho para o desempenho acadêmico.


        Nada disso, no entanto, significa que as máquinas devam ser mantidas do lado de fora da escola ou dos hospitais, onde também atuam, cuidando de idosos. Elas são fundamentais. A tecnologia viabiliza criações que não nasceriam sem câmera, microfone e software. [...] No fim, a questão não é preparar meninos e meninas para o brinquedo de IA de hoje e, sim, para um mundo com IA no futuro; aquele em que a curiosidade, a colaboração, a empatia e o pensamento crítico, as únicas tecnologias realmente exclusivas da espécie humana, conversem com peças de metal e silício. Não abandonemos ao léu os simpáticos robozinhos. 


Fonte: MORAES, Ligia. Robôs no parquinho: brinquedos inteligentes levantam dúvidas sobre efeitos na infância. Veja, 25 out. 2025. Disponível em: https://veja.abril.com.br/tecnologia/robos-no-parquinho-brinquedos-inteligentes-levantam-duvidas-sobre-efeitos-na-infancia/. Acesso em: 10 fev. 2026.


Observe o emprego das formas verbais em destaque nos fragmentos textuais abaixo elencados e, em seguida, analise as proposições.

“Não deu outra, e era esperado que assim fosse. Brinquedos equipados com inteligência artificial (IA) deixaram de ser curiosidade de feira tecnológica para virar hábito de quarto infantil na China.

[...] A multiplicação das opções criou um ecossistema em que o aprendizado e o afeto viraram deixaram de ser produto.

[...] Quando a criança passa a “brincar” curiosidade de com um outro previsível, mesmo que muito sofisticado, há o perigo de treinar o convívio sem contradição, sem espera de vez, sem o gesto de ceder. 

-[...] Se o objeto promete treinar língua, lógica ou matemática, ele ganha o carimbo de utilidade e acaba entrando no carrinho. 



Considerando os contextos de uso das formas verbais nos fragmentos citados, deduz-se que: 

I - As perífrases DEIXARAM DE SER e PASSA A BRINCAR pressupõem respectivamente – “os brinquedos eram curiosidade de feira tecnológica” e “a criança não brincava e agora vai brincar com um outro previsível”.

II - O verbo VIRAR de valor equivalente a TORNAR-SE ilustra o uso de forma verbal simples como geradora de pressuposição – a mudança de percepção sobre o que representa o aprendizado e o afeto.

III - As formas auxiliares PASSAR e PROMETER constitutivos das locuções “passar a brincar” e “promete treinar” classificam-se como modais e expressam os mesmos valores semânticos.

IV - O verbo auxiliar ACABAR na locução “acaba entrando” classifica-se como aspectual e expressa noção de término recente de uma ação.


É CORRETA a explicação proposta apenas nos itens:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: E

Fundamento decisivo: A questão se resolve pelo valor semântico-aspectual e pressuposicional das formas verbais no próprio texto: "deixaram de ser" e "passa a “brincar”" marcam mudança de estado com pressuposição de situação anterior, e "viraram", no sentido de "tornaram-se", também indica transformação. Por isso, a alternativa correta é a que reúne I e II.

Tema central: Perífrases verbais e pressuposição
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque inclui o item III. O problema de III é afirmar que "passar" e "prometer", em "passa a brincar" e "promete treinar", expressam os mesmos valores semânticos. Não expressam: "passar a" marca início de estado/comportamento, enquanto "prometer" remete a expectativa, potencialidade ou promessa de desempenho atribuída ao objeto.
B
Errada
Está errada porque inclui o item IV. Embora I esteja correto, IV não se sustenta: em "acaba entrando no carrinho", a construção não indica término recente da ação, mas desfecho ou consequência prática no encadeamento argumentativo. O trecho aponta para o resultado a que se chega, não para algo equivalente a "acabou de entrar".
C
Certa
A alternativa E está correta porque reúne exatamente os itens I e II. No item I, "deixaram de ser" exprime cessação de um estado anterior, portanto pressupõe que os brinquedos antes eram "curiosidade de feira tecnológica"; e "passa a “brincar”" marca ingresso em um novo comportamento, com pressuposição de que antes esse modo específico de brincar, com "um outro previsível", não ocorria. No item II, "viraram", com valor de "tornaram-se", também indica mudança de estado: o texto afirma que "o aprendizado e o afeto viraram produto", o que pressupõe uma condição anterior distinta. Assim, os dois itens reconhecem corretamente o valor semântico-aspectual e pressuposicional das formas verbais no contexto.
D
Errada
Está errada porque se apoia somente no item IV, que é falso. No trecho "ele ganha o carimbo de utilidade e acaba entrando no carrinho", "acaba entrando" exprime resultado final ou consequência da utilidade percebida, e não término recente de uma ação em curso.
E
Errada
Pegadinha da questão
A banca explora duas confusões reais: tratar toda locução verbal como se trouxesse o mesmo valor semântico e ler "acaba entrando" como se fosse ideia de término temporal recente, quando no contexto a locução exprime desfecho consequente.
Dica para questões semelhantes
  • Verifique se a forma verbal indica mudança de estado; se indicar, procure a situação anterior pressuposta pelo enunciado.
  • Não iguale automaticamente locuções com auxiliar: "passar a + infinitivo" e "prometer + infinitivo" podem ter valores semânticos bem diferentes.
  • Leia "acabar + gerúndio" dentro do encadeamento do período: o contexto pode mostrar resultado ou consequência, não fim recente.
  • Mesmo verbo simples pode sustentar pressuposição, se no contexto tiver sentido transformacional, como "viraram" = "tornaram-se".

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Comentários

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A alternativa correta é a E: I e II.

  • Análise do Item I (Correto): A perífrase "deixaram de ser" indica a cessação de um estado habitual anterior, o que pressupõe que, no passado, os brinquedos eram apenas curiosidades. Já "passa a brincar" é uma locução que indica o início de um novo processo ou fase (aspecto inceptivo), pressupondo que a ação de brincar com esse "outro previsível" não ocorria antes.
  • Análise do Item II (Correto): O verbo "virar" é classificado como um verbo de ligação que exprime mudança de estado, sendo perfeitamente equivalente a "tornar-se". O uso dessa forma simples gera a pressuposição de que houve uma transformação na natureza do que se percebe como aprendizado e afeto.
  • Análise do Item III (Incorreto): As formas auxiliares possuem valores semânticos distintos. "Passar a" foca no início de uma ação (fase inceptiva), enquanto "prometer" possui um matiz modal ligado à intenção ou potencialidade de um fato futuro. Eles não expressam os mesmos valores.
  • Análise do Item IV (Incorreto): Embora "acabar" seja um verbo aspectual, a noção de término recente é expressa pela estrutura "acabar de + infinitivo". No fragmento, "acaba entrando" (auxiliar + gerúndio) indica, na verdade, uma consequência final ou um resultado de um processo, e não que a ação de entrar terminou há pouco tempo.

Ponto de Perícia: Para não cair nessas armadilhas, lembre-se: "Passar a" é o gatilho de início. Já o "Acabar" só é "término recente" se vier com o "DE" (Acabou de sair). Sem o "de", ele costuma indicar como algo terminou ou resultou.

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