O conectivo que introduz o verso “que meu coração bateu fort...
TEXTO I
Coração numeroso
Foi no Rio.
Eu passava na Avenida quase meia-noite.
Bicos de seio batiam nos bicos de luz estrelas
inumeráveis.
Havia a promessa do mar
e bondes tilintavam,
abafando o calor
que soprava no vento
e o vento vinha de Minas.
Meus paralíticos sonhos desgosto de viver
(a vida para mim é vontade de morrer)
faziam de mim homem-realejo imperturbavelmente
na Galeria Cruzeiro quente quente
e como não conhecia ninguém a não ser o doce vento
mineiro,
nenhuma vontade de beber, eu disse: Acabemos com
isso.
Mas tremia na cidade uma fascinação casas
compridas
autos abertos correndo caminho do mar
voluptuosidade errante do calor
mil presentes da vida aos homens indiferentes,
que meu coração bateu forte, meus olhos inúteis
choraram.
O mar batia em meu peito, já não batia no cais.
A rua acabou, quede as árvores? a cidade sou eu
a cidade sou eu
sou eu a cidade
meu amor.
Fonte: ANDRADE, Carlos Drummond de. Alguma Poesia.
O conectivo que introduz o verso “que meu coração bateu forte, meus olhos inúteis choraram.” assume, no contexto, um valor semântico de:
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Comentário da questão – Interpretação de Textos: Relações de Consequência
Tema central: A questão explora a interpretação do valor semântico da conjunção “que” no contexto do poema. Esse tópico pertence à análise de conjunções e orações subordinadas adverbiais, fundamentais para a coesão e o sentido dos textos, conforme orienta a gramática normativa (Celso Cunha & Lindley Cintra).
Justificativa da alternativa correta (D – consequência):
Na construção poética “Mas tremia na cidade uma fascinação casas compridas... que meu coração bateu forte, meus olhos inúteis choraram”, o “que” introduz uma consequência direta da intensidade da fascinação mencionada anteriormente: o efeito produzido foi tal que o coração bateu forte e os olhos choraram.
Como esclarece Celso Cunha: “A oração subordinada adverbial consecutiva exprime o resultado do que se declara na oração principal, usualmente introduzida por ‘que’ depois de intensificadores como ‘tão’, ‘tanto’, ou latente no contexto.” (Nova Gramática do Português Contemporâneo, p. 537).
Estratégia de prova: Perceba sempre se há relação de intensidade antecedendo o “que”, pois frequentemente caracteriza consequência.
Análise das alternativas incorretas:
- A) Explicação: O “que” explicativo justifica uma ideia anterior, geralmente com sentido de “pois”, “porque”. Não é o caso; aqui, não há justificativa, mas sim resultado.
- B) Concessão: Implica oposição ou contraste (ex.: “embora”). O trecho analisado resulta, não contradiz.
- C) Causa: Indica motivo, razão pelo qual ocorre a ação (“porque”, “visto que”). O “que” neste verso não apresenta motivo, e sim consequência.
- E) Condição: Espera-se ideia de hipótese (“se”, “caso”). O trecho não condiciona, apresenta resultado.
Dica de interpretação: Observe que o uso de estruturas intensificadoras (“tanto”, “tal”, ou contexto de intensidade) seguido de “que” é forte indício de oração consecutiva. Atenção para não confundir com oração causal, comum em provas devido à semelhança em alguns contextos.
Resumo: O “que” no poema funciona como conjunção consecutiva – apresenta consequência dos sentimentos do eu lírico diante da fascinação pela cidade.
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