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Q2825037 Português

Leia o texto para responder às questões de números 05 a 07.


Em busca do tempo perdido


Houve um tempo, já um pouco distante, em que fui perseguido tenazmente por uma mesma pergunta. Nas dezenas de entrevistas a que fui submetido, tive de responder que rodava mil e quinhentos quilômetros por semana. Isso não pareceria nada estranho aos repórteres se eu fosse um motorista profissional, mas era professor.

O significado que a pergunta começou a formular em minha consciência, contudo, eclodiu passado algum tempo, quando uma repórter, com ar meio incrédulo, acrescentou: “Mas então quantas horas o senhor passa dentro do carro a cada semana?” Pronto, estava estabelecido o conflito íntimo. A partir de então comecei a fazer cálculos, a estabelecer porcentagens, comecei a me torturar. Quanto tempo da minha vida estava jogando fora por semana, por mês, por ano?

Torturei-me durante algumas semanas com essa ideia. Pensei até em mudar de profissão. Jogar fora nas estradas meu precioso tempo pareceu-me de uma irresponsabilidade sem perdão.

Dias depois me lembrei de um poema de Mario Quintana, lido há muitos anos e nunca mais encontrado. Era sobre a passagem do trem por uma estaçãozinha. Havia os que chegavam e havia os que partiam. Além deles havia os que não chegavam nem partiam, apenas ficavam olhando as pessoas nas janelas do trem e sonhando com o mundo além, o mundo possível se houvesse a coragem de partir. E ele arrematava com uns poucos versos em que dizia não importar a estação de partida nem a de chegada. O que vale mesmo, dizia o mago do Caderno H, é a viagem.

O poema de Mario Quintana devolveu-me a paz. Sem me sentir culpado por estar jogando fora a vida pela janela do carro, voltei a usar o tempo das travessias, em que o corpo estava preso e condicionado a uns poucos movimentos mecânicos, para soltar a imaginação. Assim foi que, no azul do céu, quase sempre muito azul, debaixo do qual costumava viajar, começaram a surgir revoadas de palavras que aos poucos e aos bandos se combinavam, pintavam cores e formas, botavam algumas ideias respirando e de pé.


(Menalton Braff. www.cartacapital.com.br/sociedade/ em-busca-do-tempo-perdido-8754.html, 03.05.2014. Adaptado)

De acordo com o autor,

Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito comentado:

Tema central: Interpretação de texto, com foco em identificar a ideia principal do texto, observando a evolução das ideias e o sentido das referências intertextuais (neste caso, o poema de Mario Quintana).

Justificativa da alternativa correta:

A alternativa D (“o conflito acerca do tempo despendido em suas viagens de carro dissipou-se após a lembrança do poema de Mario Quintana”) está de acordo com o texto, pois o autor, inicialmente incomodado com o tempo ‘perdido’, encontra serenidade quando rememora o poema. Como está no texto: "O poema de Mario Quintana devolveu-me a paz." Ele deixa de se torturar pela perda de tempo e ressignifica esse período, reconhecendo o valor da viagem em si. Isso corresponde ao conceito de ideia principal, que segundo Bechara, consiste em identificar o núcleo da mensagem do texto.

Análise das alternativas incorretas:

A — Incorreta porque o autor não apreciava dirigir; ao contrário, sentia-se incomodado pelo tempo nas estradas, demonstrado pelos cálculos para estimar o tempo ‘jogado fora’.

B — Errada, pois o texto apenas menciona a intenção de mudar de profissão, não que efetivamente foi persuadido a isso pelas perguntas dos repórteres (“Pensei até em mudar de profissão”, sem decisão final).

C — Conflituosa, pois a comparação entre a vida do autor e das pessoas que apenas sonham não está claramente colocada no texto e extrapola o que foi dito.

E — Imprecisa. O autor aprende, com o poema, que o importante é a viagem, não o destino (como a escola). O texto valoriza o processo, não o ponto de chegada.

Estratégias e dicas:

Ao resolver questões de interpretação textual, busque pistas claras no texto (palavras-chave como “devolveu-me a paz”, “voltei a usar o tempo... para soltar a imaginação”), evite respostas baseadas em interpretações subjetivas ou inferências exageradas, e sempre confronte o que está literal no trecho com o que é proposto nas alternativas. Conforme orientam gramáticas como a de Cunha & Cintra e Bechara, foque na coerência entre o texto e a opção marcada.

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Comentários

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esse sim é um bom texto

No texto, o autor relata um momento de angústia e reflexão sobre o tempo que perdia dirigindo. Ele chega a se sentir culpado e cogita até mudar de profissão. Esse conflito íntimo persiste até que ele se recorda de um poema de Mario Quintana, o qual lhe transmite uma nova perspectiva: o valor está na viagem, não no destino. Com isso, o autor recupera a paz e volta a aproveitar o tempo das viagens para exercitar a imaginação — ou seja, o conflito se dissipa graças à lembrança do poema.

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