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Q3736490 Português
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Ostra feliz não faz pérola


    As ostras, seres macios e saborosos, têm uma habilidade notável: a capacidade de construir conchas duras para se protegerem. Em um recife marinho, vivia uma colônia de ostras que irradiava felicidade. No entanto, havia uma ostra solitária que emitia um canto triste. O motivo? Um pequeno grão de areia estava preso em sua carne, causando dor constante. Mas essa ostra sofredora não se entregou ao desespero; seu corpo sabia como se livrar da dor. Enquanto continuava a cantar sua melodia triste, ela secretamente cobria o grão de areia com camadas de uma substância lisa, brilhante e redonda. Um dia, um pescador capturou toda a colônia de ostras, incluindo a ostra sofredora. Em casa, ao saborear uma deliciosa sopa de ostras, o pescador deparou com um objeto duro em uma das ostras. Era uma pérola deslumbrante. Surpreendentemente, apenas a ostra que havia sofrido tinha produzido uma pérola. Ele a presenteou a sua esposa.

     Essa história das ostras também se aplica aos seres humanos. Nietzsche, em seu ensaio sobre o nascimento da tragédia grega, notou que os gregos abraçaram a tragédia de forma séria, sem a promessa de transformá-la em comédia no além, como os cristãos. A diferença crucial era que os gregos, assim como a ostra que cria uma pérola, transformavam a tragédia em beleza. A beleza não apagava a tragédia, mas tornava-a suportável. O sofrimento pode ser a fonte de criação da beleza, e aqueles que passam por angústias são frequentemente os artistas que produzem obras extraordinárias. Beethoven, apesar de surdo, compôs uma música celebrando a alegria. Van Gogh, Cecília Meireles, Fernando Pessoa... todos transformaram sua dor em arte.


Alves, Rubem. Ostra feliz não faz pérola. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2008. [Texto adaptado]. 
Dentro do excerto, uma análise compara a perspectiva dos gregos com a dos cristãos em relação à tragédia e explora como os gregos a encaravam. Com base no texto, qual é a diferença central entre a abordagem dos gregos e dos cristãos em relação à tragédia e como os gregos a enfrentavam, de acordo com Nietzsche?
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: A

Tema central: Interpretação de texto. Nesta questão, é essencial compreender a intenção e as ideias principais do autor, uma das habilidades mais requeridas nas provas para Motorista de Ambulância, segundo os manuais e gramáticas (Celso Cunha & Lindley Cintra).

Análise da alternativa correta (A):

A alternativa A é a resposta certa porque reproduz fielmente o pensamento expresso no texto. O fragmento diz que os gregos “abraçaram a tragédia de forma séria, sem a promessa de transformá-la em comédia no além, como os cristãos”, e que “transformavam a tragédia em beleza”, o que indicava profundidade no tratamento do sofrimento sem recorrer a promessas de redenção. Isto mostra sensibilidade sem fuga, habilidade de extração de beleza da adversidade. Essa proposta é alinhada ao conceito de interpretação textual: identificar, no texto, o sentido e a relação entre as ideias, como ensina Bechara.

Por que as demais estão erradas?

B: Equivoca-se ao afirmar que os gregos encontravam consolo em “promessa de transformação positiva”, diferente do que o texto sustenta. Atenção, pois aqui há uma “pegadinha semântica”: o autor deixa claro que não havia para eles esperança em futuras compensações.

C: Foge do contexto ao mencionar fé como superação grega, elemento ausente na abordagem do texto. Gregos não atribuíam à fé a superação da dor, mas sim à capacidade de criar beleza a partir dela.

D: Troca as abordagens dos grupos. O texto não sugere busca grega por “alívio na fé”, nem diz que cristãos aceitavam a dor; esse conteúdo não está no excerto. Trata-se de informação inventada.

E: Diz que os gregos eram “mais superficiais”, contrariando totalmente o texto, que os apresenta como profundos observadores da tragédia. Mais uma mudança sutil de sentido (cuidado com adjetivos que distorcem informações centrais!).

Dica de prova: Leia o texto com atenção, destaque palavras-chave e tome cuidado com termos que invertam ou suavizem a ideia original. Revisar as alternativas comparando sempre com o texto-base é essencial para não cair em pegadinhas de sentido!

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