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Q3416236 Português
Leia o texto a seguir e responda à questão.

Dez anos sem Ariano Suassuna (final)

Aurélio Molina | Prof. Dr. Associado e Livre Docente da UPE, Ph.D. pela University of Leeds (UK), Membro das Academias Pernambucanas de Medicina, de Ciências e da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores

Publicado em: 21/08/2024

    Me recordo de um diálogo, já com seu problema de saúde firmado e sob tratamento, com seu filho Dantas, quando expressei minha angústia de não ver sua obra terminada. E a resposta foi: ele nunca irá terminá-la simplesmente porque ele não deseja terminá-la. Mas, enfim, uma das versões foi finalizada e publicada. Espero que o material original ainda exista e seja tão lindo quanto a versão que testemunhei. Também é impossível falar de Ariano sem mencionar sua profunda espiritualidade e religiosidade. Ela está presente em toda sua obra e no seu dia a dia, inclusive com símbolos místicos de várias tradições. Sob a capa de uma dureza sertaneja, sua fé cristã o levava a uma marcante compaixão para com o outro (individual e coletivo), particularmente aqueles mais pobres.
    Ele e Zélia rezavam todos os dias, antes de dormir, ajoelhados ao pé da cama, pedindo proteção e BENÇÃOS a todos os familiares e perdão aos que poderiam ter ofendido. E entre tantas coisas marcantes que pude testemunhar, o perdão a todos os envolvidos com o assassinato de seu pai, tragédia que marcou dolorosamente sua personalidade, foi talvez o ápice da sua Senda Espiritual.
    Apesar do evidente enfoque regional de sua obra, sua cultura e ERUDIÇÃO eram universais. Era um leitor tão voraz, que, certa vez, um trabalhador que fazia obras na casa da Rua do Chacon (Ilumiara Coroada) teria comentado que Zélia era trabalhadora, mas ele, Ariano, não saía da cama e só ficava lendo livros. Mal desconfiava ele da capacidade de trabalho de nosso personagem que muitas vezes passava horas e horas trancado em seu gabinete, totalmente dedicado aos seus afazeres artísticos e intelectuais. Tinha especial carinho por Cervantes, Dostoievsky e Tolstoi, que afirmava reler com enorme satisfação. Aliás, desconfio que uma famosa frase desse último foi internalizada (consciente ou não) como um mantra pessoal (“se queres ser Universal comece pintando sua aldeia”).
    Suspeito também que a religiosidade e a espiritualidade singular desses dois grandes nomes da literatura russa também o tenham influenciado, embora não tenha certeza de que a obra CULMINANTE da visão cristã do autor de Guerra e Paz e Anna Karerina, “O Reino de Deus está em Vós”, considerada por alguns como a obra prima de seus ensaios, tenha sido lida por ele porque, entre nós, ela só foi publicada em 1994, após quase um século de desaparecimento. E a importância que Ariano dava à cultura universal ficou profundamente marcada em mim quando certa vez me recomendou: Aurélio, leia os Clássicos! Jamais olvidei de tal conselho. Mas tentar “explicar” Ariano sem citar a importância de sua Zélia seria deveras incompleto. Seu amor por ela foi uma das coisas mais bonitas que presenciei. Sem esse sentimento e a importância dele em sua trajetória existencial, o Ariano que conhecemos, em minha opinião, não existiria.
    Finalmente, pelo seu compromisso inquebrantável com a criação de uma identidade nacional, por suas contribuições na VALORIZAÇÃO do que o povo brasileiro tem de mais autêntico e pela clareza de nossa importância no rol das nações, como país AUTIVO, independente e soberano, não tenho dúvida em afirmar que, mesmo envolto em algumas importantes polêmicas, além de um grande ser humano, gênio de nossa raça, Ariano também é merecedor do título, dentre tantos outros, de Herói do Povo Brasileiro.

MOLINA, Aurélio. Dez anos sem Ariano Suassuna (final). Diário de Pernambuco, 21 de agosto de 2024. Disponível em: https://www.diariodepernambuco.com.br/noticia/opiniao/2024/08/dezanos-sem-ariano-suassuna-final.html. Acesso em: 21 ago. 2024. Adaptado.
Qual das figuras de linguagem listadas a seguir foi utilizada na oração “Era um leitor tão voraz [...]” (3º parágrafo)? 
Alternativas

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Tema central: Esta questão trabalha figuras de linguagem, conteúdo recorrente em provas para Oficial Administrativo, importante para o domínio da interpretação de textos conforme a norma-padrão.

No trecho analisado – “Era um leitor tão voraz...” – a palavra voraz, normalmente relacionada ao ato de comer (paladar), é empregada para qualificar a leitura, atividade ligada à visão. Essa associação caracteriza a SINESTESIA, que é a união de sensações originadas de diferentes sentidos do corpo humano, tornando a linguagem mais expressiva.

Regra da sinestesia, segundo a gramática: “Sinestesia é a figura que consiste na fusão de impressões sensoriais diferentes.” (CUNHA & CINTRA, Nova Gramática do Português Contemporâneo)

Exemplo clássico: “Escuto com os olhos cheios de lágrimas.” (olhar: visão / escutar: audição)

Análise das alternativas:

A) Sinestesia: Correta. O uso de “voraz” para leitura mistura sentidos (paladar e visão), encaixando-se com precisão no conceito da sinestesia.

B) Eufemismo: Errada. Eufemismo suaviza expressões desagradáveis, o que não ocorre na frase citada.

C) Ironia: Errada. Ironia é dizer o oposto do que se quer, geralmente de modo sarcástico, o que não ocorre aqui.

D) Pleonasmo: Errada. Pleonasmo é a repetição proposital de ideias ou palavras, inexistente no trecho analisado.

E) Comparação: Errada. Comparação exige conectivos como “como”, “tal qual”, o que não aparece nesse caso; não há relação explícita de semelhança.

Orientação: Ao encontrar expressões que misturam características sensoriais (ex: “doce presença”, “voz áspera”, “olhar frio”), pense imediatamente em sinestesia. É uma pegadinha recorrente exigindo atenção aos detalhes dos sentidos envolvidos!

Referências: Cunha & Cintra e Evanildo Bechara – Figuras de linguagem.

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Vamos analisar cada alternativa para entender por que a correta é Comparação:

Sinestesia: Essa figura ocorre quando há mistura de sensações de sentidos diferentes, como “um gosto amargo de saudade” – onde o olfato, o paladar, etc., se misturam. Em “Era um leitor tão voraz [...]”, não há essa combinação sensorial.

Eufemismo: É a suavização de uma realidade considerada dura ou inconveniente, substituindo termos explícitos por expressões mais delicadas. Por exemplo, dizer “passou desta para melhor” em vez de “morreu”. Na frase em análise, o adjetivo “voraz” expressa intensidade sem suavizar nenhum conceito, logo não se trata de eufemismo.

Ironia: Ironia acontece quando se afirma algo usando palavras com o sentido oposto ou contrastante à intenção real, frequentemente com um tom de sarcasmo. “Era um leitor tão voraz” não carrega essa antítese de sentido; está afirmando de forma direta a característica do leitor, não havendo contradição entre o que se diz e o que se quer dizer.

Pleonasmo: Essa figura consiste na repetição desnecessária de uma ideia ou na redundância de termos para reforço, como em “subir para cima”. A expressão “leitor tão voraz” não tem elementos redundantes; “voraz” é um adjetivo que qualifica o tipo de leitura, sem repetir a ideia já inerente à leitura.

Comparação: Apesar de a comparação, em seu sentido mais clássico, exigir um termo comparativo (como “como”, “tal qual”), ela consiste em atribuir a uma coisa qualidades de outra mediante uma associação. Ao dizer “leitor tão voraz”, o autor sugere que o leitor consome os livros com a mesma intensidade e rapidez que um animal voraz devora sua presa – ou seja, ele estabelece uma relação implícita entre a voracidade da leitura e a voracidade encontrada no reino animal. Mesmo sem o uso explícito de “como”, a ideia subjacente é de comparação, que na análise dos enunciados figurados pode ser reconhecida nesse recurso.

Portanto, dentre as alternativas apresentadas, a figura de linguagem escolhida para evidenciar a intensidade do hábito de leitura do personagem é Comparação.

Pessoa, aqui preto no branco. Voraz lembra de um animal voraz, que devora. Leitor voraz é aquele que "devora livros", lê muito. Sinestesia mistura sentidos, neste caso a questão misturou a visão (leitura) com paladar (devorar).

“Se eu tivesse 8 horas para cortar uma árvore, gastaria 6 horas afiando meu machado,” Abraham Lincoln

A palavra “voraz” normalmente é usada para quem devora comida com muita fome.

Aqui, ela é aplicada figuradamente a “leitor”, indicando alguém que lê muito, com avidez, com “fome” de leitura.

Ou seja, há transferência de sentido entre domínios diferentes: o ato de comer → o ato de ler.

Metáfora, pois há transferência de significado (leitor “voraz” = leitor que lê com intensidade).

Na lista apresentada, “metáfora” não aparece.

Entre as alternativas dadas, nenhuma corresponde exatamente à metáfora — porém, vejamos:

AlternativaDefiniçãoAplica-se aqui?A) Sinestesiamistura de sensações❌ NãoB) Eufemismosuavização de ideia❌ NãoC) Ironiasentido oposto ao literal❌ NãoD) Pleonasmorepetição de ideias❌ NãoE) Comparaçãousa conectivo comparativo (“como”, “tal qual” etc.)❌ Não (não há “como”)

Gab A

Tema central: Esta questão trabalha figuras de linguagem, conteúdo recorrente em provas para Oficial Administrativo, importante para o domínio da interpretação de textos conforme a norma-padrão.

No trecho analisado – “Era um leitor tão voraz...” – a palavra voraz, normalmente relacionada ao ato de comer (paladar), é empregada para qualificar a leitura, atividade ligada à visão. Essa associação caracteriza a SINESTESIA, que é a união de sensações originadas de diferentes sentidos do corpo humano, tornando a linguagem mais expressiva.

Regra da sinestesia, segundo a gramática: “Sinestesia é a figura que consiste na fusão de impressões sensoriais diferentes.” (CUNHA & CINTRA, Nova Gramática do Português Contemporâneo)

Exemplo clássico: “Escuto com os olhos cheios de lágrimas.” (olhar: visão / escutar: audição)

Análise das alternativas:

A) Sinestesia: Correta. O uso de “voraz” para leitura mistura sentidos (paladar e visão), encaixando-se com precisão no conceito da sinestesia.

B) Eufemismo: Errada. Eufemismo suaviza expressões desagradáveis, o que não ocorre na frase citada.

C) Ironia: Errada. Ironia é dizer o oposto do que se quer, geralmente de modo sarcástico, o que não ocorre aqui.

D) Pleonasmo: Errada. Pleonasmo é a repetição proposital de ideias ou palavras, inexistente no trecho analisado.

E) Comparação: Errada. Comparação exige conectivos como “como”, “tal qual”, o que não aparece nesse caso; não há relação explícita de semelhança.

Orientação: Ao encontrar expressões que misturam características sensoriais (ex: “doce presença”, “voz áspera”, “olhar frio”), pense imediatamente em sinestesia. É uma pegadinha recorrente exigindo atenção aos detalhes dos sentidos envolvidos!

Referências: Cunha & Cintra e Evanildo Bechara – Figuras de linguagem.

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