Assinale a alternativa em que NÃO há a presença do sentido f...
Bernardo Élis
Já tinha um horror de gente na beira do rio quando o delegado chegou. O corpo nu do menino estendia-se na areia. Frio. Empazinado.
O delegado sentenciou que estava morto. Embora todos já soubessem disso, o espanto foi geral. E houve um silêncio mau, sarcasticamente cheio de reflexões. Logo, porém, vieram comentários: “que o menino estava vadiando no rio cheio e deu um de-ponta. Que demorou a voltar à tona. Os outros meninos gritaram, berraram. Que o vendeiro veio correndo, mergulhou também. Chegaram mais pessoas. Depois meia hora o corpo passava na passagem e um velho o tirou. Que isso, que aquilo, que era sucuri que tinha ali.”
Agora o cadaverzinho estava estendido na praia. O delegado esbravejou contra essas mulheres que botam filhos no mundo e não lhes dão educação, não cuidam deles.
- Mas a mãe dele era a cozinheira da pensão e nem sabia de nada!
- Ah, é?!
Começaram a calçar no menino a calcinha suja e remendada.
Aqueles meninos da rua da Beira do Rio viviam dentro dágua o que dava o dia. O rio era a escola deles. Sua diversão, seu mundo enfim. As águas claras e mansas davam-lhes o carinho que o trabalho não deixava as mães lhes dar. Davam-lhes brinquedos que a falta de cobre negava. Para os meninos ricos, havia Papai Noel. Para os da rua da beira do Rio, enchente.
Eles ficavam imaginando uma cheia que cobrisse as casas da rua de Baixo. Então só os telhados ficariam de fora. Poderiam dar de-pontas da torre da igreja, ir nadando de casa em casa, fazer barquinhos e sair remando por entre os telhados. Naquela noite de fim de dezembro, o rio roncou feito um danado. De manhã, a luz morta do dia punha reflexos idiotas nos redemoinhos traiçoeiros das águas barrentas. No meio, a correnteza se encrespava em saltos selvagens, em saracoteios lúbricos, numa volúpia diabólica de destruição.
O menino enfincou um pauzinho na areia da praia, marcando a orla das águas. Com pouco, sumiu tudo.
- Capaz do rio passar pro riba da ponte.
Depois foram nadar na vargem. Mas o rio estava enfezado, trombudo, cheio de instintos criminosos e arrebatou o menino.
- Quem morreu, descansou. Vamos cuidar dos vivos - disse o delegado. E o povo riu, porque a presença incômoda da morte rondava friamente a criança arroxeada.
ÉLIS, Bernardo. Seleta. Rio de Janeiro: José Olympio, 1991. p. 19-20.
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A questão proposta exige que analisemos a presença de figuras de linguagem nos trechos do texto apresentado. As figuras de linguagem são recursos de estilo usados para dar maior expressividade ao texto, muitas vezes por meio do sentido figurado.
Vamos analisar cada alternativa para identificar onde não há sentido figurado:
A - "Aqueles meninos da rua da Beira do Rio viviam dentro d'água o que dava o dia. O rio era a escola deles."
Nesta alternativa, há presença de sentido figurado. Quando se diz que "o rio era a escola deles", temos uma metáfora, pois compara o rio a uma escola de forma implícita, sem o uso de termos comparativos.
B - "Então só os telhados ficariam de fora. Poderiam dar de-pontas da torre da igreja, ir nadando de casa em casa, fazer barquinhos e sair remando por entre os telhados."
Esta alternativa é a correta. Aqui, não se faz uso do sentido figurado. A descrição parece mais literal, retratando uma situação imaginada pelas crianças, mas não há uma linguagem figurada como metáforas ou personificações.
C - "De manhã, a luz morta do dia punha reflexos idiotas nos redemoinhos traiçoeiros das águas barrentas."
Este trecho contém figuras de linguagem, como a personificação (atribuir características humanas à luz) e a metáfora (quando fala sobre "reflexos idiotas").
D - "No meio, a correnteza se encrespava em saltos selvagens, em saracoteios lúbricos, numa volúpia diabólica de destruição."
Mais uma vez, há figuras de linguagem. Observamos a personificação da correnteza, que "se encrespava" e se movia com "volúpia diabólica", o que não ocorre literalmente.
Portanto, a alternativa B é a única que não utiliza o sentido figurado no trecho, sendo a correta para a questão.
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Comentários
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“Então só os telhados ficariam de fora. Poderiam dar de-pontas da torre
da igreja, ir nadando de casa em casa, fazer barquinhos e sair remando
por entre os telhados.
Que texto pesado.
O gabarito correto segundo o QC é a alternativa: B
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