No contraste “Eu, que já fui… hoje sou…”, a recorrência tem...

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Q3911930 Português

Leia o texto e responda à questão.



A vida secreta dos áudios: por que a gente ouve em 1,5x e responde “kkk” com seriedade.



Tem gente que escreve “bom dia” e segue a vida. E tem gente que aperta o microfone, inspira como quem vai narrar um documentário e manda: “Vou te explicar rapidinho”, sinal claro de que nada ali será rápido. A verdade é que o áudio virou uma espécie de bilhete falado, só que com um tempero de intimidade e um toque de suspense, porque nunca dá para saber se vem uma dúvida simples ou uma novela em capítulos, com participação especial do cachorro latindo e da panela de pressão opinando ao fundo.

Eu, que já fui uma pessoa que ouvia em velocidade normal, hoje sou um cidadão da era 1,5x. É um estilo de vida. Não é pressa, é sobrevivência. O áudio chega, eu já imagino a cena: alguém andando na rua, vento no microfone, passos dramáticos, e a frase clássica: “Você tá me ouvindo?”. Estou. Só não do jeito que você imaginou. Eu ouço em 1,5x com a mesma seriedade de quem lê um contrato. Às vezes, em 2x, quando aparece aquele “deixa eu contextualizar” que vem junto com quinze anos de história familiar e um resumo do clima na cidade.

E aí surge o grande dilema moral: como responder? Porque o áudio tem um peso. Um texto pode ser seco, mas o áudio tem sorriso, tem pausa, tem o “ééé…” que revela o pensamento chegando atrasado. Só que a gente, prático e moderno, devolve um “kkk” que, dependendo do momento, significa: “entendi”, “tô com você”, “vou responder depois”, “não sei o que dizer” e, em casos extremos, “só Deus na causa”. O “kkk” é o canivete suíço das relações humanas. Você abre e ele vira o que precisar.

No grupo de trabalho, então, o áudio ganha vida própria. Tem o colega que manda um áudio de quatro minutos para dizer que atrasou cinco. Tem o professor que, no intervalo, grava olhando para o pátio e, sem querer, dá aula de sociologia e de meteorologia ao mesmo tempo. Tem a pessoa que fala baixinho, como se estivesse dentro de uma biblioteca secreta, e você aumenta o volume só para ouvir junto o som da vida inteira do prédio. E tem aquele áudio perigoso, o do “posso te ligar?”. Esse é o áudio que não é áudio, é um aviso de tempestade.

Eu gosto de pensar que existe uma etiqueta invisível. Tipo: se é urgente, escreve. Se é longo, avisa. Se é confidencial, não manda no meio da feira. Mas a etiqueta do século é outra. A etiqueta é: manda, e quem recebe que se vire. E a gente se vira. A gente aprende a ler emoções em velocidade acelerada, como se o coração também tivesse um botão de ajuste. A gente identifica tristeza em 1,5x, alegria em 2x, e indignação até em 0,5x, que é quando você volta para entender exatamente onde a conversa desandou.

Naquele dia, eu estava prestes a responder um áudio enorme com o meu “kkk” diplomático, quando reparei num detalhe. A voz do áudio tinha um ritmo estranho, como se fosse uma versão ligeiramente mais rápida do que eu lembrava. Voltei para 1x. A voz ficou… conhecida demais. Voltei para 0,5x, só para garantir. E foi aí que eu ouvi, no fundo, bem baixinho, uma coisa que eu nunca esperaria ouvir no áudio de outra pessoa.

O clique do meu próprio microfone. E a minha própria voz, do mês passado, dizendo: “Vou te explicar rapidinho”.

Na hora, eu entendi o desfecho inesperado dessa era. Eu não estava só ouvindo áudios demais. Eu estava, discretamente, virando o tipo de pessoa que manda áudios demais. E, por um segundo, eu tive vontade de me responder com um “kkk” bem sério, em 2x, só para manter a tradição.

 

Fonte: Banca Examinadora

No contraste “Eu, que já fui… hoje sou…”, a recorrência temporal e o aspecto verbal constroem, principalmente, a ideia de:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: O trecho decisivo é “Eu, que já fui uma pessoa que ouvia em velocidade normal, hoje sou um cidadão da era 1,5x.”. A oposição entre “já fui” e “hoje sou” marca passagem de um estado passado para um estado presente, o que decide a alternativa correta.

Tema central: contraste temporal e mudança de estado
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque o trecho não projeta uma prática futura nem a subordina a condição alguma. Os verbos apresentam uma situação já realizada no passado (“já fui”) e uma condição vigente no presente (“hoje sou”). Portanto, não há hipótese futura, mas constatação atual de mudança.
B
Errada
Está errada porque não há linguagem de ordem, instrução ou procedimento dirigido ao leitor. O trecho é um relato em primeira pessoa sobre a experiência do narrador. O critério de exclusão é a ausência de marcas injuntivas e a presença de enunciação autorreferente e descritiva.
C
Errada
Está errada porque a formulação “já fui... hoje sou...” rompe a ideia de continuidade do mesmo hábito. O texto opõe um comportamento anterior a outro atual. Logo, o efeito construído não é permanência, mas mudança.
D
Certa
A alternativa D está correta porque o trecho apresenta explicitamente a passagem de uma condição anterior para outra atual: antes, o narrador ouvia áudios em velocidade normal; agora, se define como “um cidadão da era 1,5x”. O contraste entre “já fui” e “hoje sou” não indica hipótese futura nem instrução, mas mudança de estado do eu-narrador.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre hábito e continuidade: como o texto fala de práticas recorrentes com áudios, o candidato pode marcar permanência, mas o trecho decisivo explicita ruptura entre passado e presente. Outra armadilha é tratar relato em primeira pessoa como se fosse instrução ao leitor.
Dica para questões semelhantes
  • Compare os marcadores temporais do trecho: quando aparecem formas como “já” e “hoje”, verifique se o texto opõe momentos distintos.
  • Observe o valor dos verbos no contexto: se um estado anterior é contrastado com outro atual, a ideia central tende a ser mudança, não continuidade.
  • Não transforme relato pessoal em instrução: primeira pessoa descrevendo experiência do narrador não equivale a ordem ou manual de conduta.

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