No texto, a coesão no período composto se organiza por cone...

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Q3911928 Português

Leia o texto e responda à questão.



A vida secreta dos áudios: por que a gente ouve em 1,5x e responde “kkk” com seriedade.



Tem gente que escreve “bom dia” e segue a vida. E tem gente que aperta o microfone, inspira como quem vai narrar um documentário e manda: “Vou te explicar rapidinho”, sinal claro de que nada ali será rápido. A verdade é que o áudio virou uma espécie de bilhete falado, só que com um tempero de intimidade e um toque de suspense, porque nunca dá para saber se vem uma dúvida simples ou uma novela em capítulos, com participação especial do cachorro latindo e da panela de pressão opinando ao fundo.

Eu, que já fui uma pessoa que ouvia em velocidade normal, hoje sou um cidadão da era 1,5x. É um estilo de vida. Não é pressa, é sobrevivência. O áudio chega, eu já imagino a cena: alguém andando na rua, vento no microfone, passos dramáticos, e a frase clássica: “Você tá me ouvindo?”. Estou. Só não do jeito que você imaginou. Eu ouço em 1,5x com a mesma seriedade de quem lê um contrato. Às vezes, em 2x, quando aparece aquele “deixa eu contextualizar” que vem junto com quinze anos de história familiar e um resumo do clima na cidade.

E aí surge o grande dilema moral: como responder? Porque o áudio tem um peso. Um texto pode ser seco, mas o áudio tem sorriso, tem pausa, tem o “ééé…” que revela o pensamento chegando atrasado. Só que a gente, prático e moderno, devolve um “kkk” que, dependendo do momento, significa: “entendi”, “tô com você”, “vou responder depois”, “não sei o que dizer” e, em casos extremos, “só Deus na causa”. O “kkk” é o canivete suíço das relações humanas. Você abre e ele vira o que precisar.

No grupo de trabalho, então, o áudio ganha vida própria. Tem o colega que manda um áudio de quatro minutos para dizer que atrasou cinco. Tem o professor que, no intervalo, grava olhando para o pátio e, sem querer, dá aula de sociologia e de meteorologia ao mesmo tempo. Tem a pessoa que fala baixinho, como se estivesse dentro de uma biblioteca secreta, e você aumenta o volume só para ouvir junto o som da vida inteira do prédio. E tem aquele áudio perigoso, o do “posso te ligar?”. Esse é o áudio que não é áudio, é um aviso de tempestade.

Eu gosto de pensar que existe uma etiqueta invisível. Tipo: se é urgente, escreve. Se é longo, avisa. Se é confidencial, não manda no meio da feira. Mas a etiqueta do século é outra. A etiqueta é: manda, e quem recebe que se vire. E a gente se vira. A gente aprende a ler emoções em velocidade acelerada, como se o coração também tivesse um botão de ajuste. A gente identifica tristeza em 1,5x, alegria em 2x, e indignação até em 0,5x, que é quando você volta para entender exatamente onde a conversa desandou.

Naquele dia, eu estava prestes a responder um áudio enorme com o meu “kkk” diplomático, quando reparei num detalhe. A voz do áudio tinha um ritmo estranho, como se fosse uma versão ligeiramente mais rápida do que eu lembrava. Voltei para 1x. A voz ficou… conhecida demais. Voltei para 0,5x, só para garantir. E foi aí que eu ouvi, no fundo, bem baixinho, uma coisa que eu nunca esperaria ouvir no áudio de outra pessoa.

O clique do meu próprio microfone. E a minha própria voz, do mês passado, dizendo: “Vou te explicar rapidinho”.

Na hora, eu entendi o desfecho inesperado dessa era. Eu não estava só ouvindo áudios demais. Eu estava, discretamente, virando o tipo de pessoa que manda áudios demais. E, por um segundo, eu tive vontade de me responder com um “kkk” bem sério, em 2x, só para manter a tradição.

 

Fonte: Banca Examinadora

No texto, a coesão no período composto se organiza por conectores. A combinação que marca, respectivamente, oposição e explicação é:
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Gabarito: B

Fundamento decisivo: O comando pede, respectivamente, oposição e explicação. No texto, “só que” marca contraste/oposição e “porque” introduz explicação/justificativa; essa correspondência é a que decide o gabarito.

Tema central: valor dos conectores
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque os elementos indicados não têm os valores pedidos. “Às vezes” marca frequência, não oposição. “quando”, no contexto mencionado, introduz circunstância temporal, não explicação. O erro está em tomar marcador adverbial e oração temporal como se formassem o par oposição/explicação.
B
Certa
A alternativa B acerta porque identifica exatamente os dois conectores do texto com os valores exigidos. “Só que” exerce função contrastiva, opondo a riqueza expressiva do áudio à resposta simplificada por escrito. Já “porque”, em “Porque o áudio tem um peso.”, explica por que surge o dilema de como responder. É a única opção que corresponde aos conectores do texto e à sequência semântica pedida: primeiro oposição, depois explicação.
C
Errada
Está errada por dois motivos objetivos. Primeiro, “No meio disso” nem aparece no texto-base, então a alternativa já falha no confronto textual. Segundo, “então”, em “No grupo de trabalho, então”, funciona como articulador de progressão/enfoque, não como elemento que componha o par oposição e explicação exigido pelo comando.
D
Errada
Está errada porque “Naquele dia” é marcador temporal, não conector de oposição. Além disso, “como”, em estrutura do tipo “como se fosse...”, tem valor comparativo/modal, não explicativo. A alternativa troca relações lógico-semânticas diferentes pelas que a questão pede.
Pegadinha da questão
A banca mistura conectores verdadeiramente argumentativos com expressões temporais, circunstanciais ou até inexistentes no texto e ainda exige a ordem exata dos valores: primeiro oposição, depois explicação.
Dica para questões semelhantes
  • Confira se o elemento apontado realmente está no texto antes de analisar seu valor semântico.
  • Não basta reconhecer um articulador; é preciso verificar se ele expressa exatamente a relação pedida no comando.
  • Diferencie conector de oposição ou explicação de marcador temporal, de frequência ou de comparação.
  • Observe a ordem solicitada pela questão, porque inverter os valores semânticos elimina a alternativa.

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