No enunciado “Vou te explicar rapidinho”, a forma “te” é ex...

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Q3911927 Português

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A vida secreta dos áudios: por que a gente ouve em 1,5x e responde “kkk” com seriedade.



Tem gente que escreve “bom dia” e segue a vida. E tem gente que aperta o microfone, inspira como quem vai narrar um documentário e manda: “Vou te explicar rapidinho”, sinal claro de que nada ali será rápido. A verdade é que o áudio virou uma espécie de bilhete falado, só que com um tempero de intimidade e um toque de suspense, porque nunca dá para saber se vem uma dúvida simples ou uma novela em capítulos, com participação especial do cachorro latindo e da panela de pressão opinando ao fundo.

Eu, que já fui uma pessoa que ouvia em velocidade normal, hoje sou um cidadão da era 1,5x. É um estilo de vida. Não é pressa, é sobrevivência. O áudio chega, eu já imagino a cena: alguém andando na rua, vento no microfone, passos dramáticos, e a frase clássica: “Você tá me ouvindo?”. Estou. Só não do jeito que você imaginou. Eu ouço em 1,5x com a mesma seriedade de quem lê um contrato. Às vezes, em 2x, quando aparece aquele “deixa eu contextualizar” que vem junto com quinze anos de história familiar e um resumo do clima na cidade.

E aí surge o grande dilema moral: como responder? Porque o áudio tem um peso. Um texto pode ser seco, mas o áudio tem sorriso, tem pausa, tem o “ééé…” que revela o pensamento chegando atrasado. Só que a gente, prático e moderno, devolve um “kkk” que, dependendo do momento, significa: “entendi”, “tô com você”, “vou responder depois”, “não sei o que dizer” e, em casos extremos, “só Deus na causa”. O “kkk” é o canivete suíço das relações humanas. Você abre e ele vira o que precisar.

No grupo de trabalho, então, o áudio ganha vida própria. Tem o colega que manda um áudio de quatro minutos para dizer que atrasou cinco. Tem o professor que, no intervalo, grava olhando para o pátio e, sem querer, dá aula de sociologia e de meteorologia ao mesmo tempo. Tem a pessoa que fala baixinho, como se estivesse dentro de uma biblioteca secreta, e você aumenta o volume só para ouvir junto o som da vida inteira do prédio. E tem aquele áudio perigoso, o do “posso te ligar?”. Esse é o áudio que não é áudio, é um aviso de tempestade.

Eu gosto de pensar que existe uma etiqueta invisível. Tipo: se é urgente, escreve. Se é longo, avisa. Se é confidencial, não manda no meio da feira. Mas a etiqueta do século é outra. A etiqueta é: manda, e quem recebe que se vire. E a gente se vira. A gente aprende a ler emoções em velocidade acelerada, como se o coração também tivesse um botão de ajuste. A gente identifica tristeza em 1,5x, alegria em 2x, e indignação até em 0,5x, que é quando você volta para entender exatamente onde a conversa desandou.

Naquele dia, eu estava prestes a responder um áudio enorme com o meu “kkk” diplomático, quando reparei num detalhe. A voz do áudio tinha um ritmo estranho, como se fosse uma versão ligeiramente mais rápida do que eu lembrava. Voltei para 1x. A voz ficou… conhecida demais. Voltei para 0,5x, só para garantir. E foi aí que eu ouvi, no fundo, bem baixinho, uma coisa que eu nunca esperaria ouvir no áudio de outra pessoa.

O clique do meu próprio microfone. E a minha própria voz, do mês passado, dizendo: “Vou te explicar rapidinho”.

Na hora, eu entendi o desfecho inesperado dessa era. Eu não estava só ouvindo áudios demais. Eu estava, discretamente, virando o tipo de pessoa que manda áudios demais. E, por um segundo, eu tive vontade de me responder com um “kkk” bem sério, em 2x, só para manter a tradição.

 

Fonte: Banca Examinadora

No enunciado “Vou te explicar rapidinho”, a forma “te” é exemplo de:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: Em “Vou te explicar rapidinho”, “te” é pronome pessoal oblíquo átono de 2ª pessoa, ligado ao verbo “explicar”; por isso, é forma remissiva presa e remete ao interlocutor, o que confirma a alternativa D.

Tema central: pronomes oblíquos átonos
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque “te” não é forma remissiva livre. No trecho, ele é pronome oblíquo átono, portanto forma presa, dependente do verbo. Também erra ao justificar pela retomada de um nome explicitado no período anterior, o que não ocorre em “Vou te explicar rapidinho”.
B
Errada
Está errada porque “te” não funciona como substantivo. Trata-se de pronome oblíquo átono, sem autonomia nominal, e não há no trecho concordância de gênero e número com predicativo que sustente a descrição apresentada.
C
Errada
Está errada porque, embora reconheça parcialmente que “te” é forma remissiva presa, atribui a ele função e sentido incompatíveis com o trecho. Em “Vou te explicar rapidinho”, “te” não indica posse do interlocutor nem funciona como adjunto adnominal; ele se liga ao verbo “explicar” como pronome oblíquo.
D
Certa
A alternativa D está correta porque identifica “te” como forma remissiva presa e como pronome oblíquo referente ao interlocutor. No trecho, ele se liga ao verbo “explicar” e não atua como elemento autônomo, o que sustenta sua classificação morfológica e sintática.
Pegadinha da questão
A banca explorou a alternativa C por misturar um acerto parcial, “forma remissiva presa”, com uma justificativa falsa, “indicar posse” e “funcionar como adjunto adnominal”. O erro está em marcar pela metade certa e ignorar a função real de “te” no enunciado.
Dica para questões semelhantes
  • Quando a palavra for “me, te, se, o, a, lhe”, verifique primeiro se ela está ligada ao verbo; isso indica forma remissiva presa.
  • Não confunda referência ao interlocutor com retomada de nome explícito no texto; pronome oblíquo pode remeter à pessoa do discurso sem antecedente nominal expresso.
  • Se a alternativa disser que o pronome indica posse, confirme no trecho se ele realmente acompanha um nome; ligado ao verbo, o valor é outro.
  • Em alternativas com parte aparentemente correta, confira se a justificativa funcional também está correta; um acerto parcial não salva a opção.

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