A relação entre coesão e coerência, tomando o texto como re...

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Q3911925 Português

Leia o texto e responda à questão.



A vida secreta dos áudios: por que a gente ouve em 1,5x e responde “kkk” com seriedade.



Tem gente que escreve “bom dia” e segue a vida. E tem gente que aperta o microfone, inspira como quem vai narrar um documentário e manda: “Vou te explicar rapidinho”, sinal claro de que nada ali será rápido. A verdade é que o áudio virou uma espécie de bilhete falado, só que com um tempero de intimidade e um toque de suspense, porque nunca dá para saber se vem uma dúvida simples ou uma novela em capítulos, com participação especial do cachorro latindo e da panela de pressão opinando ao fundo.

Eu, que já fui uma pessoa que ouvia em velocidade normal, hoje sou um cidadão da era 1,5x. É um estilo de vida. Não é pressa, é sobrevivência. O áudio chega, eu já imagino a cena: alguém andando na rua, vento no microfone, passos dramáticos, e a frase clássica: “Você tá me ouvindo?”. Estou. Só não do jeito que você imaginou. Eu ouço em 1,5x com a mesma seriedade de quem lê um contrato. Às vezes, em 2x, quando aparece aquele “deixa eu contextualizar” que vem junto com quinze anos de história familiar e um resumo do clima na cidade.

E aí surge o grande dilema moral: como responder? Porque o áudio tem um peso. Um texto pode ser seco, mas o áudio tem sorriso, tem pausa, tem o “ééé…” que revela o pensamento chegando atrasado. Só que a gente, prático e moderno, devolve um “kkk” que, dependendo do momento, significa: “entendi”, “tô com você”, “vou responder depois”, “não sei o que dizer” e, em casos extremos, “só Deus na causa”. O “kkk” é o canivete suíço das relações humanas. Você abre e ele vira o que precisar.

No grupo de trabalho, então, o áudio ganha vida própria. Tem o colega que manda um áudio de quatro minutos para dizer que atrasou cinco. Tem o professor que, no intervalo, grava olhando para o pátio e, sem querer, dá aula de sociologia e de meteorologia ao mesmo tempo. Tem a pessoa que fala baixinho, como se estivesse dentro de uma biblioteca secreta, e você aumenta o volume só para ouvir junto o som da vida inteira do prédio. E tem aquele áudio perigoso, o do “posso te ligar?”. Esse é o áudio que não é áudio, é um aviso de tempestade.

Eu gosto de pensar que existe uma etiqueta invisível. Tipo: se é urgente, escreve. Se é longo, avisa. Se é confidencial, não manda no meio da feira. Mas a etiqueta do século é outra. A etiqueta é: manda, e quem recebe que se vire. E a gente se vira. A gente aprende a ler emoções em velocidade acelerada, como se o coração também tivesse um botão de ajuste. A gente identifica tristeza em 1,5x, alegria em 2x, e indignação até em 0,5x, que é quando você volta para entender exatamente onde a conversa desandou.

Naquele dia, eu estava prestes a responder um áudio enorme com o meu “kkk” diplomático, quando reparei num detalhe. A voz do áudio tinha um ritmo estranho, como se fosse uma versão ligeiramente mais rápida do que eu lembrava. Voltei para 1x. A voz ficou… conhecida demais. Voltei para 0,5x, só para garantir. E foi aí que eu ouvi, no fundo, bem baixinho, uma coisa que eu nunca esperaria ouvir no áudio de outra pessoa.

O clique do meu próprio microfone. E a minha própria voz, do mês passado, dizendo: “Vou te explicar rapidinho”.

Na hora, eu entendi o desfecho inesperado dessa era. Eu não estava só ouvindo áudios demais. Eu estava, discretamente, virando o tipo de pessoa que manda áudios demais. E, por um segundo, eu tive vontade de me responder com um “kkk” bem sério, em 2x, só para manter a tradição.

 

Fonte: Banca Examinadora

A relação entre coesão e coerência, tomando o texto como referência, pode ser caracterizada por: 
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: B

Fundamento decisivo: A decisão depende de separar coesão de coerência: a primeira organiza os vínculos linguísticos do texto, e a segunda corresponde à unidade de sentido construída globalmente. No texto-base, os recursos de retomada e encadeamento sustentam essa organização, enquanto o desfecho confirma a coerência do conjunto; por isso, a alternativa B é a única compatível com a base.

Tema central: coesão e coerência
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa erra ao afirmar que coesão e coerência são a mesma coisa. A base distingue expressamente os dois planos: coesão é a articulação linguística interna; coerência é a construção do sentido global. Também é falsa a ideia de que conectores garantem “um único sentido para qualquer leitor”, porque a coerência depende de tema, contexto e progressão textual, não apenas da presença de conectores.
B
Certa
A alternativa B está correta porque separa adequadamente os dois fenômenos cobrados. No texto, a coesão aparece na organização dos vínculos linguísticos, com retomadas, repetições, pronomes e conectores como “E aí”, “Só que”, “Mas” e “E foi aí”, além da recorrência de “áudio” como eixo lexical. Já a coerência se constrói no sentido global: o texto desenvolve, de forma contínua, uma reflexão humorística sobre o uso de áudios e chega a um desfecho compatível com essa progressão, quando o narrador percebe que estava se tornando justamente o tipo de pessoa que criticava.
C
Errada
A alternativa reduz indevidamente a coesão a um único mecanismo, os pronomes, o que contraria a base, que aponta repetição lexical, conectores, retomadas e organização referencial. Também erra ao atribuir a coerência apenas à pontuação. No texto, o sentido global decorre da unidade temática em torno dos áudios, do ponto de vista do narrador e do desfecho irônico, não de pontuação isoladamente.
D
Errada
A alternativa apresenta restrições falsas. A base afirma que a coesão não aparece somente em períodos compostos e que a coerência não existe apenas em narrativas. Além disso, a própria formulação exclui indevidamente conectores e retomadas, embora a base mostre que esses elementos participam da articulação textual. O erro, portanto, é conceitual e também de generalização absoluta.
Pegadinha da questão
A pegadinha real foi apresentar formulações absolutas e redutoras — “mesma coisa”, “apenas”, “somente”, “garante um único sentido” — para induzir a confusão entre mecanismos de ligação textual e construção global de sentido.
Dica para questões semelhantes
  • Separe sempre o que é recurso de amarração linguística do que é unidade global de sentido.
  • Desconfie de alternativas que reduzam coesão ou coerência a um único elemento, como pronome, pontuação ou conector.
  • Confirme a definição observando o funcionamento do texto: retomadas e conectores apontam coesão; tema, progressão e desfecho sustentam coerência.

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