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Q3911924 Português

Leia o texto e responda à questão.



A vida secreta dos áudios: por que a gente ouve em 1,5x e responde “kkk” com seriedade.



Tem gente que escreve “bom dia” e segue a vida. E tem gente que aperta o microfone, inspira como quem vai narrar um documentário e manda: “Vou te explicar rapidinho”, sinal claro de que nada ali será rápido. A verdade é que o áudio virou uma espécie de bilhete falado, só que com um tempero de intimidade e um toque de suspense, porque nunca dá para saber se vem uma dúvida simples ou uma novela em capítulos, com participação especial do cachorro latindo e da panela de pressão opinando ao fundo.

Eu, que já fui uma pessoa que ouvia em velocidade normal, hoje sou um cidadão da era 1,5x. É um estilo de vida. Não é pressa, é sobrevivência. O áudio chega, eu já imagino a cena: alguém andando na rua, vento no microfone, passos dramáticos, e a frase clássica: “Você tá me ouvindo?”. Estou. Só não do jeito que você imaginou. Eu ouço em 1,5x com a mesma seriedade de quem lê um contrato. Às vezes, em 2x, quando aparece aquele “deixa eu contextualizar” que vem junto com quinze anos de história familiar e um resumo do clima na cidade.

E aí surge o grande dilema moral: como responder? Porque o áudio tem um peso. Um texto pode ser seco, mas o áudio tem sorriso, tem pausa, tem o “ééé…” que revela o pensamento chegando atrasado. Só que a gente, prático e moderno, devolve um “kkk” que, dependendo do momento, significa: “entendi”, “tô com você”, “vou responder depois”, “não sei o que dizer” e, em casos extremos, “só Deus na causa”. O “kkk” é o canivete suíço das relações humanas. Você abre e ele vira o que precisar.

No grupo de trabalho, então, o áudio ganha vida própria. Tem o colega que manda um áudio de quatro minutos para dizer que atrasou cinco. Tem o professor que, no intervalo, grava olhando para o pátio e, sem querer, dá aula de sociologia e de meteorologia ao mesmo tempo. Tem a pessoa que fala baixinho, como se estivesse dentro de uma biblioteca secreta, e você aumenta o volume só para ouvir junto o som da vida inteira do prédio. E tem aquele áudio perigoso, o do “posso te ligar?”. Esse é o áudio que não é áudio, é um aviso de tempestade.

Eu gosto de pensar que existe uma etiqueta invisível. Tipo: se é urgente, escreve. Se é longo, avisa. Se é confidencial, não manda no meio da feira. Mas a etiqueta do século é outra. A etiqueta é: manda, e quem recebe que se vire. E a gente se vira. A gente aprende a ler emoções em velocidade acelerada, como se o coração também tivesse um botão de ajuste. A gente identifica tristeza em 1,5x, alegria em 2x, e indignação até em 0,5x, que é quando você volta para entender exatamente onde a conversa desandou.

Naquele dia, eu estava prestes a responder um áudio enorme com o meu “kkk” diplomático, quando reparei num detalhe. A voz do áudio tinha um ritmo estranho, como se fosse uma versão ligeiramente mais rápida do que eu lembrava. Voltei para 1x. A voz ficou… conhecida demais. Voltei para 0,5x, só para garantir. E foi aí que eu ouvi, no fundo, bem baixinho, uma coisa que eu nunca esperaria ouvir no áudio de outra pessoa.

O clique do meu próprio microfone. E a minha própria voz, do mês passado, dizendo: “Vou te explicar rapidinho”.

Na hora, eu entendi o desfecho inesperado dessa era. Eu não estava só ouvindo áudios demais. Eu estava, discretamente, virando o tipo de pessoa que manda áudios demais. E, por um segundo, eu tive vontade de me responder com um “kkk” bem sério, em 2x, só para manter a tradição.

 

Fonte: Banca Examinadora

Considerando a organização global do texto, a estrutura predominante é:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: A organização global do texto é predominantemente dissertivo-narrativa: há encadeamento temporal, narrador em primeira pessoa, situação inicial, progressão de ações e desfecho, como em “Naquele dia, eu estava prestes a responder um áudio enorme com o meu “kkk” diplomático, quando reparei num detalhe. (...) E foi aí que eu ouvi (...) O clique do meu próprio microfone. E a minha própria voz, do mês passado, dizendo: “Vou te explicar rapidinho”. (...) Eu não estava só ouvindo áudios demais. Eu estava, discretamente, virando o tipo de pessoa que manda áudios demais.”; por isso, a alternativa D é a que corresponde à estrutura predominante.

Tema central: estrutura global do texto
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque o texto não tem finalidade predominante de orientar condutas do leitor. O trecho “se é urgente, escreve. Se é longo, avisa.” pode parecer normativo, mas a base indica que ele funciona como comentário irônico sobre uma suposta etiqueta, e não como estrutura injuntiva principal. O critério que exclui a alternativa é a finalidade discursiva global: o texto reflete e narra, não prescreve regras.
B
Errada
Está errada porque o texto não se limita a retratos estáticos. Há encadeamento temporal relevante e progressão de ações, especialmente no bloco final: “Naquele dia...”, “Voltei para 1x.”, “Voltei para 0,5x...”, “foi aí que eu ouvi...”. Isso caracteriza sequência narrativa com desfecho, o que inviabiliza classificá-lo como predominantemente descritivo.
D
Certa
A alternativa D está correta porque o texto não apenas comenta práticas comunicativas, como o uso de áudios e do “kkk”, mas também constrói um fio narrativo que culmina em revelação final. Há narrador em primeira pessoa, recorte temporal, ações sucessivas e desfecho, como em “Naquele dia...”, “Voltei para 1x.”, “Voltei para 0,5x...”, até a descoberta da própria voz. Ao mesmo tempo, o texto intercala reflexões e avaliações sobre comportamentos sociais, como em “Só que a gente, prático e moderno, devolve um “kkk”...”. Portanto, a predominância é de articulação entre sequência narrativa e comentário dissertivo.
C
Errada
Está errada porque o texto não apresenta tese formal desenvolvida em argumentos organizados em tópicos nem conclusão objetiva. A base é explícita ao apontar que a condução é cronística, subjetiva e narrativizada. As generalizações sobre os áudios existem, mas aparecem integradas à voz do narrador e ao episódio final, não em forma de dissertação formal.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre presença de reflexão e dissertação formal, e entre frases com forma de conselho e texto normativo. O que decide não é um trecho isolado, mas a organização global: comentários sobre o tema somados a uma narrativa em primeira pessoa com progressão temporal e desfecho.
Dica para questões semelhantes
  • Classifique pela estrutura predominante do texto inteiro, não por uma frase isolada que pareça regra, descrição ou opinião.
  • Procure sinais de narração: recorte temporal, ações em sequência, ponto de virada e desfecho.
  • Se houver comentários generalizantes e avaliações sobre o tema junto com um episódio narrado, considere estrutura híbrida, e não tipologia pura.
  • Não confunda reflexão subjetiva e cronística com dissertação formal; verifique se há tese explícita, argumentos organizados e conclusão objetiva.

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