No trecho em que o narrador menciona o som do clique do mic...

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Q3911922 Português

Leia o texto e responda à questão.



A vida secreta dos áudios: por que a gente ouve em 1,5x e responde “kkk” com seriedade.



Tem gente que escreve “bom dia” e segue a vida. E tem gente que aperta o microfone, inspira como quem vai narrar um documentário e manda: “Vou te explicar rapidinho”, sinal claro de que nada ali será rápido. A verdade é que o áudio virou uma espécie de bilhete falado, só que com um tempero de intimidade e um toque de suspense, porque nunca dá para saber se vem uma dúvida simples ou uma novela em capítulos, com participação especial do cachorro latindo e da panela de pressão opinando ao fundo.

Eu, que já fui uma pessoa que ouvia em velocidade normal, hoje sou um cidadão da era 1,5x. É um estilo de vida. Não é pressa, é sobrevivência. O áudio chega, eu já imagino a cena: alguém andando na rua, vento no microfone, passos dramáticos, e a frase clássica: “Você tá me ouvindo?”. Estou. Só não do jeito que você imaginou. Eu ouço em 1,5x com a mesma seriedade de quem lê um contrato. Às vezes, em 2x, quando aparece aquele “deixa eu contextualizar” que vem junto com quinze anos de história familiar e um resumo do clima na cidade.

E aí surge o grande dilema moral: como responder? Porque o áudio tem um peso. Um texto pode ser seco, mas o áudio tem sorriso, tem pausa, tem o “ééé…” que revela o pensamento chegando atrasado. Só que a gente, prático e moderno, devolve um “kkk” que, dependendo do momento, significa: “entendi”, “tô com você”, “vou responder depois”, “não sei o que dizer” e, em casos extremos, “só Deus na causa”. O “kkk” é o canivete suíço das relações humanas. Você abre e ele vira o que precisar.

No grupo de trabalho, então, o áudio ganha vida própria. Tem o colega que manda um áudio de quatro minutos para dizer que atrasou cinco. Tem o professor que, no intervalo, grava olhando para o pátio e, sem querer, dá aula de sociologia e de meteorologia ao mesmo tempo. Tem a pessoa que fala baixinho, como se estivesse dentro de uma biblioteca secreta, e você aumenta o volume só para ouvir junto o som da vida inteira do prédio. E tem aquele áudio perigoso, o do “posso te ligar?”. Esse é o áudio que não é áudio, é um aviso de tempestade.

Eu gosto de pensar que existe uma etiqueta invisível. Tipo: se é urgente, escreve. Se é longo, avisa. Se é confidencial, não manda no meio da feira. Mas a etiqueta do século é outra. A etiqueta é: manda, e quem recebe que se vire. E a gente se vira. A gente aprende a ler emoções em velocidade acelerada, como se o coração também tivesse um botão de ajuste. A gente identifica tristeza em 1,5x, alegria em 2x, e indignação até em 0,5x, que é quando você volta para entender exatamente onde a conversa desandou.

Naquele dia, eu estava prestes a responder um áudio enorme com o meu “kkk” diplomático, quando reparei num detalhe. A voz do áudio tinha um ritmo estranho, como se fosse uma versão ligeiramente mais rápida do que eu lembrava. Voltei para 1x. A voz ficou… conhecida demais. Voltei para 0,5x, só para garantir. E foi aí que eu ouvi, no fundo, bem baixinho, uma coisa que eu nunca esperaria ouvir no áudio de outra pessoa.

O clique do meu próprio microfone. E a minha própria voz, do mês passado, dizendo: “Vou te explicar rapidinho”.

Na hora, eu entendi o desfecho inesperado dessa era. Eu não estava só ouvindo áudios demais. Eu estava, discretamente, virando o tipo de pessoa que manda áudios demais. E, por um segundo, eu tive vontade de me responder com um “kkk” bem sério, em 2x, só para manter a tradição.

 

Fonte: Banca Examinadora

No trecho em que o narrador menciona o som do clique do microfone, esse som funciona, na classificação dos signos, como: 
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Gabarito: A

Fundamento decisivo: No trecho "E foi aí que eu ouvi, no fundo, bem baixinho, uma coisa que eu nunca esperaria ouvir no áudio de outra pessoa. O clique do meu próprio microfone.", o clique funciona como vestígio material do acionamento do microfone e, portanto, como relação causal com o início da gravação; por isso, classifica-se como índice, e não como ícone ou símbolo.

Tema central: classificação semiótica dos signos
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A está correta porque descreve exatamente a função do clique no trecho: ele não representa por semelhança nem por convenção abstrata, mas aponta para um fato ocorrido, o acionamento do microfone e o começo da gravação. É esse traço concreto que permite ao narrador inferir a origem do áudio, depois confirmada por "E a minha própria voz, do mês passado, dizendo: “Vou te explicar rapidinho”."
B
Errada
Está errada porque atribui ao clique valor de ícone com base em suposta semelhança visual com o microfone. O trecho não trabalha com forma visual nem com reprodução do objeto; trabalha com um sinal auditivo que denuncia uma ação efetivamente ocorrida. Falta, portanto, o critério de semelhança formal exigido para ícone.
C
Errada
Está errada porque trata o clique como símbolo de sentido fixo e convencional, mesmo fora da situação de gravação. A base afirma o contrário: no texto, o clique vale por sua ligação factual com o ato de gravar, dentro daquela situação concreta. Seu funcionamento ali não é o de convenção arbitrária estável, mas o de indício material.
D
Errada
Está errada por dois motivos específicos: repete indevidamente a classificação como ícone e ainda atribui ao clique a representação da ideia de urgência. O texto não constrói esse sentido. No desfecho, o clique serve como pista sonora que revela a verdadeira origem do áudio, não como substituto da ação nem como marca de urgência.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre associação contextual e semelhança formal: como o clique está ligado ao microfone, o candidato pode marcar ícone ou símbolo; porém, no trecho, seu valor não vem de parecer com o objeto nem de convenção fixa, mas de funcionar como indício concreto do início da gravação.
Dica para questões semelhantes
  • Primeiro identifique como o signo se liga ao referente no trecho: por causa/vestígio, por semelhança ou por convenção.
  • Se o elemento revela que um fato ocorreu, como pista material de uma ação, a tendência é ser índice.
  • Não classifique como ícone apenas porque o signo tem relação com o objeto; é preciso haver semelhança.
  • Não trate como símbolo um sinal que só faz sentido pela situação concreta narrada.

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