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Ano: 2018 Banca: IESES Órgão: CRM-SC Prova: IESES - 2018 - CRM-SC - Secretária Executiva |
Q2764349 Português

Leia o texto a seguir para responder as questões sobre seu conteúdo.

A moça em prantos

O poeta encontrou uma pedra no meio do caminho, nunca esqueceu dessa pedra, que lhe deu assunto para o seu poema mais conhecido. Não sendo poeta, encontrei não uma, mas infinitas pedras no meio do caminho, e não só no meio, mas no início e no fim de cada caminho. Não me renderam um único poema, nem mesmo uma modesta crônica.

Mas jamais esqueci a primeira moça que vi chorando. Eu devia ter seis ou sete anos, achava que só as crianças podiam e deviam chorar, tinham motivos bastante para isso, desde as fraldas molhadas nos primeiros meses de existência até a inexpugnável barreira dos “não pode”, que emparedam a infância e criam neuras para o resto da vida.

Um adulto chorando era incompreensível para mim, um acontecimento pasmoso, uma aberração da natureza, pois os adultos podiam tudo e tudo lhes é permitido. E a moça era um adulto, ao menos para mim, embora ela fosse realmente moça, aí pelos 15 anos ou pouco mais.

E chorava. Não abrindo o berreiro como as crianças, mas dolorosamente, e na certa misturando motivos.

Mesmo assim fiquei imaginando a causa do seu pranto. Faltara à escola e por isso ficara sem sobremesa? Fora proibida de brincar na calçada? Queria ganhar uma bicicleta e fora convencida a continuar com o insípido velocípede?

Vi muita gente chorando depois, homens feitos, mulheres maduras. Eu mesmo, quando levo meus trancos, repito o menino que ia para debaixo da mesa de jantar para poder chorar sem passar recibo da minha dor. Hoje, ficaria feio esconder-me debaixo das mesas, mas sei que é um bom lugar para isso. Melhor do que a cama, onde devemos fazer outras coisas. A moça que chorava não se escondera, chorava de mansinho, na verdade nem parecia estar chorando. Devia apenas estar muito triste porque misturava todos os motivos para a sua tristeza.

(Carlos Heitor Cony, Folha de São Paulo, 04/05/2003)

Em: “Ficaria feio esconder-me debaixo da cama,” o uso da ênclise se dá por quê:

Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: A

Fundamento decisivo: A ênclise ocorre em “esconder-me”, com pronome oblíquo átono posposto ao verbo no infinitivo impessoal “esconder”; por isso, o critério decisivo é a colocação pronominal com verbo no infinitivo impessoal.

Tema central: colocação pronominal
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A acerta porque identifica o verbo ao qual o pronome realmente se liga. No trecho, a ênclise não ocorre com “ficaria”, mas com “esconder”, na forma “esconder-me”. Como “esconder” está no infinitivo impessoal, é essa forma verbal que explica o uso da ênclise no caso apresentado.
B
Errada
Está errada por dois motivos objetivos: “ficaria” não está no futuro do presente, mas no futuro do pretérito; além disso, a ênclise do trecho não ocorre com esse verbo. O pronome está ligado a “esconder”, em “esconder-me”.
C
Errada
A alternativa traz uma informação verdadeira sobre “ficaria”, que realmente está no futuro do pretérito, mas isso não responde à pergunta. O motivo da ênclise deve ser buscado no verbo que hospeda o pronome, e esse verbo é “esconder”, não “ficaria”.
D
Errada
Está errada porque não há, antes de “esconder-me”, palavra de sentido negativo que imponha próclise. O trecho dado não apresenta elemento negativo atrativo; logo, essa justificativa não se aplica ao caso.
Pegadinha da questão
A banca induz o candidato a olhar para “ficaria”, mas a análise correta deve recair sobre “esconder-me”. A alternativa C explora exatamente isso: traz um dado verdadeiro sobre “ficaria”, porém irrelevante para explicar a ênclise.
Dica para questões semelhantes
  • Localize primeiro em que palavra a ênclise realmente ocorre; só depois identifique a forma verbal correspondente.
  • Não justifique a colocação pronominal com base em outro verbo da oração se o pronome não estiver ligado a ele.
  • Se houver mais de um verbo no trecho, verifique qual deles hospeda o pronome antes de analisar tempo verbal ou regra de atração.
  • Desconfie de alternativa que traz informação gramatical verdadeira, mas sobre elemento diferente daquele em que aparece o pronome.

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