Em “Você já se acostumou com a biometria facial?”, a palavr...

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Q3907753 Português
Você já se acostumou com a biometria facial?


    Essa semana fiz o cadastro de biometria facial para entrar na minha própria casa. Não preciso mais de chave, nem de senha, nem chamar o porteiro. Só meu rosto. Eu olho para a câmera e a porta se abre, como mágica – ou como num desses filmes futuristas. Ainda não me acostumei: sempre sorrio e digo “obrigada”. Não sei se por educação ou por medo de que a máquina fique ofendida e me deixe do lado de fora.

    Fiquei pensando no porteiro. Ele, que por tanto tempo foi o guardião das entradas e saídas, agora é coadjuvante de um sistema que reconhece rostos, mas não reconhece pessoas. Por trás dessa eficiência tecnológica, há uma cadeia de mudanças invisíveis: empregos que desaparecem, funções que se tornam obsoletas. (...)

    No fim de semana, fui ao clube. “Senhorita, pode encostar o carro? Vamos cadastrar sua biometria facial.” Lá estava eu de novo, frente à câmera. E, de presente, também me pediram o dedo – da mão esquerda, claro, que sai da janela do motorista. A vida virou uma sucessão de pequenos cadastros. Agora, na próxima visita, basta olhar, encostar o dedo e, como num passe de mágica, a cancela vai se abrir. Não faço mais carteirinhas: faço biometrias. Mas cada dado entregue é um voto de confiança cega – nem sempre consciente – em sistemas nem sempre transparentes.

    Vejo trabalhadores registrando seus próprios desaparecimentos em vídeos tristes. Uma funcionária de supermercado, diante de caixas de autoatendimento, desabafou: “Aos pouquinhos eu vou perdendo meu emprego”. Disse com a voz baixa, como quem já sabe o desfecho. Eu mesma ainda não me acostumei. Continuo sorrindo para a câmera e dizendo  “obrigada”, talvez como lembrete de que, no fim das contas, ainda sou humana.


AZENHA, Isabele. Você já se acostumou com a biometria
facial? Ciência e Tecnologia. Disponível em
<https://agenciadenoticias.uniceub.br/ciencia-etecnologia/cronica-voce-ja-se-acostumou-com-abiometria-facial/>.
Em “Você se acostumou com a biometria facial?”, a palavra destacada tem natureza: 
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: A

Fundamento decisivo: No enunciado “Você já se acostumou com a biometria facial?”, “já” é palavra invariável que modifica o verbo “se acostumou” e tem valor adverbial de tempo/aspecto, indicando a realização da ação até o momento da fala. Esse sentido não corresponde a “ainda” no contexto, o que confirma a alternativa A.

Tema central: advérbio de tempo
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A está correta porque classifica “já” como advérbio e identifica corretamente seu valor de tempo/aspecto no enunciado interrogativo. No trecho, “já” incide sobre a ação de “se acostumou” e pergunta se essa ação se realizou até agora. Também acerta ao dizer que seu sentido é diferente de “ainda”, pois a troca não preserva o valor semântico do enunciado, como o texto confirma ao usar “Ainda não me acostumei” e “Eu mesma ainda não me acostumei.”
B
Errada
A alternativa erra ao afirmar que “já” tem o mesmo sentido de “ainda”. Embora ambos atuem no eixo temporal, não são equivalentes aqui. Em “Você já se acostumou...?”, há ideia de consumação até o presente; em “ainda”, o texto marca não consumação ou continuidade, como em “Ainda não me acostumei”.
C
Errada
A classificação de “já” como advérbio está correta, mas o valor semântico atribuído está errado: ele não expressa modo, e sim tempo/aspecto. Além disso, a alternativa repete o erro de dizer que tem o mesmo sentido de “ainda”, o que o texto desmente.
D
Errada
A alternativa é eliminada por erro de classe gramatical e de valor semântico. “Já” não é pronome; é advérbio. Também não expressa modo. O fato de “já” ter sentido diferente de “ainda” não salva a opção, porque os pontos decisivos da questão são justamente a natureza morfológica e o valor temporal/aspectual.
E
Errada
A alternativa erra em todos os pontos relevantes: “já” não é pronome, não expressa finalidade e não equivale a “agora” nesse enunciado. Seu funcionamento no trecho é adverbial e temporal/aspectual, ligado à realização da ação de acostumar-se até o momento presente.
Pegadinha da questão
A banca explora duas confusões reais: reconhecer que “já” pertence ao campo temporal, mas errar sua classe ou sua circunstância, e tratar “já” e “ainda” como sinônimos apenas porque ambos se relacionam ao tempo.
Dica para questões semelhantes
  • Primeiro identifique que palavra o termo modifica; se incide sobre o verbo e é invariável, a análise morfológica precisa considerar o valor adverbial.
  • Não confunda pertencer ao mesmo campo semântico com ter o mesmo sentido: “já” e “ainda” podem ser temporais sem serem equivalentes.
  • Use o próprio texto como teste de sentido contextual; aqui, “Ainda não me acostumei” ajuda a provar a diferença semântica em relação a “já”.

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