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Q4113097 Português

Cuidado, os sabichões querem seu cérebro!


Sabichonismo é uma doença que explora e

agrava nossa insegurança com a língua


Sérgio Rodrigues



O sabichonismo linguístico é uma doença social oportunista que se aproveita da insegurança do falante médio, intimidado com a normatividade da língua, para convencê‑lo de que contraria regras em série — todas imaginárias.


Por exemplo: “É pleonasmo vicioso dizer que um filme é baseado em fatos reais. Todo fato é real; se não for real, não é fato!”, grita o sabichão. (Por alguma razão, sabichões gostam de gritar)


É mentira dele, claro: além de existir algo que se chama ênfase, o mundo sempre foi cheio de fatos falsos, para não mencionar os hipotéticos, os fictícios, os que dependem de fé etc.


Mesmo assim, é comum que o fato sabichão seja acolhido. O mecanismo psíquico que nos leva a encarar quem nos “corrige” como detentor de um saber superior é o mesmo que garante o sucesso internético de vídeos como “você bebeu água errado a vida inteira: aprenda”.


Sim, todo mundo sempre usou a expressão “dois pesos e duas medidas”, de impecáveis credenciais bíblicas. Não há nada nela, sob nenhum aspecto, que esteja errado: refere‑se a dois pesos (para a farinha) e duas medidas (para o tecido), artimanhas de comerciante desonesto. Aí vem o sabichão e, por saber pouco, anuncia na praça: “O certo é um peso e duas medidas!”.


O sabichonismo pode ser do tipo literalista, que eu chamo de podólatra da letra: “Não existe gol de bola parada, bola parada não entra”; “Risco de vida está errado, o certo é risco de morte”.


Também pode ter corte lógico‑matemático, encrencado com a dupla negativa do português: “Se você diz que não viu nada, então viu alguma coisa”. Pode ser purista, amalucado: “O certo é ab‑rupto”.


O único objetivo do sabichonismo é afirmar a posição de poder de quem o exerce. Embora seja muitas vezes diletante, seu caráter falsamente educativo faz com que assuma com frequência a forma de atividade profissional, caso em que provoca estragos maiores.


Como regra, sabichões exercem o sabichonismo por convicção. Estão convencidos da sabedoria de sua bobagem, que gostariam de ver abraçada por todos. No entanto, sobretudo nos casos em que a atividade produz ganho material, não se deve descartar a hipótese da má‑fé.


A fragilidade do organismo social de que o sabichonismo tira partido — a autoconfiança precária que, como povo, sentimos diante de uma língua que é nossa e ao mesmo tempo não é — acaba, sob seus ataques, por se agravar.


Quando nos deixamos convencer de que o certo é “esculpido em Carrara” — em vez de “cuspido e escarrado”, bela versão lusófona de uma ideia presente no inglês “spitting image” e em outras línguas —, podemos ter a sensação inebriante de que nada no mundo é o que parece.


Contentes de descobrir tal joia perdida do conhecimento universal — “O certo é quem tem boca vaia Roma, buuu!” —, saímos espalhando a boa nova.


E assim o sabichão cumpre o seu papel final, reprodutivo, que é o mesmo dos zumbis: comer o cérebro do maior número possível de pessoas para transformá‑las em sabichonas também.


Todo cuidado com ele!



FOLHA DE SÃO PAULO. Folha de S.Paulo,


Cotidiano, 1 maio 2025, p. A 41 (adaptado).

Com base na análise sintática e discursiva das frases a seguir, transcritas do texto I, assinale a alternativa correta.
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Gabarito: C

Fundamento decisivo: O critério decisivo é o valor discursivo dos parênteses: em “(Por alguma razão, sabichões gostam de gritar)”, o trecho interrompe a sequência expositiva e insere um comentário acessório do enunciador sobre o comportamento dos sabichões; por isso, tem natureza explicativa/comentadora, o que confirma a alternativa C.

Tema central: comentário parentético explicativo
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque, em “Risco de vida está errado”, “está errado” não é objeto direto. Esse trecho compõe o predicado da oração e atribui uma qualificação ao sujeito “Risco de vida”. Não há verbo transitivo direto pedindo objeto direto nessa estrutura.
B
Errada
Está errada porque, em “Todo cuidado com ele!”, “com ele” não funciona como adjunto adnominal. A expressão preposicionada liga-se ao nome “cuidado” completando-lhe o sentido, com valor de complemento nominal.
C
Certa
A alternativa C está correta porque o segmento “(Por alguma razão, sabichões gostam de gritar)” não integra a estrutura nuclear da frase anterior como termo sintático indispensável. Ele aparece entre parênteses para acrescentar uma observação lateral do autor, explicando e comentando, com tom próprio, o uso de “grita o sabichão”. O ponto decisivo aqui é discursivo-textual: trata-se de um comentário parentético explicativo do enunciador.
D
Errada
Está errada porque, em “Se você diz que não viu nada [...]”, a conjunção “se” introduz ideia de condição. Logo, a oração é subordinada adverbial condicional, e não comparativa.
Pegadinha da questão
A banca misturou análise sintática com análise discursiva: a correta depende de perceber o efeito parentético dos parênteses, enquanto as erradas tentam induzir confusões entre objeto direto e predicado, entre complemento nominal e adjunto adnominal, e entre oração condicional e comparativa.
Dica para questões semelhantes
  • Se houver parênteses, verifique primeiro se o trecho é comentário lateral do enunciador antes de tentar classificá-lo só pela sintaxe.
  • Em expressões com substantivo + termo preposicionado, distinga se o termo apenas caracteriza o nome ou se completa seu sentido.
  • Antes de chamar um trecho de objeto direto, confirme se o verbo realmente exige complemento verbal.
  • Na classificação de orações, observe o conectivo: “se” ativa valor de condição, não de comparação.

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