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Q4113096 Português

Cuidado, os sabichões querem seu cérebro!


Sabichonismo é uma doença que explora e

agrava nossa insegurança com a língua


Sérgio Rodrigues



O sabichonismo linguístico é uma doença social oportunista que se aproveita da insegurança do falante médio, intimidado com a normatividade da língua, para convencê‑lo de que contraria regras em série — todas imaginárias.


Por exemplo: “É pleonasmo vicioso dizer que um filme é baseado em fatos reais. Todo fato é real; se não for real, não é fato!”, grita o sabichão. (Por alguma razão, sabichões gostam de gritar)


É mentira dele, claro: além de existir algo que se chama ênfase, o mundo sempre foi cheio de fatos falsos, para não mencionar os hipotéticos, os fictícios, os que dependem de fé etc.


Mesmo assim, é comum que o fato sabichão seja acolhido. O mecanismo psíquico que nos leva a encarar quem nos “corrige” como detentor de um saber superior é o mesmo que garante o sucesso internético de vídeos como “você bebeu água errado a vida inteira: aprenda”.


Sim, todo mundo sempre usou a expressão “dois pesos e duas medidas”, de impecáveis credenciais bíblicas. Não há nada nela, sob nenhum aspecto, que esteja errado: refere‑se a dois pesos (para a farinha) e duas medidas (para o tecido), artimanhas de comerciante desonesto. Aí vem o sabichão e, por saber pouco, anuncia na praça: “O certo é um peso e duas medidas!”.


O sabichonismo pode ser do tipo literalista, que eu chamo de podólatra da letra: “Não existe gol de bola parada, bola parada não entra”; “Risco de vida está errado, o certo é risco de morte”.


Também pode ter corte lógico‑matemático, encrencado com a dupla negativa do português: “Se você diz que não viu nada, então viu alguma coisa”. Pode ser purista, amalucado: “O certo é ab‑rupto”.


O único objetivo do sabichonismo é afirmar a posição de poder de quem o exerce. Embora seja muitas vezes diletante, seu caráter falsamente educativo faz com que assuma com frequência a forma de atividade profissional, caso em que provoca estragos maiores.


Como regra, sabichões exercem o sabichonismo por convicção. Estão convencidos da sabedoria de sua bobagem, que gostariam de ver abraçada por todos. No entanto, sobretudo nos casos em que a atividade produz ganho material, não se deve descartar a hipótese da má‑fé.


A fragilidade do organismo social de que o sabichonismo tira partido — a autoconfiança precária que, como povo, sentimos diante de uma língua que é nossa e ao mesmo tempo não é — acaba, sob seus ataques, por se agravar.


Quando nos deixamos convencer de que o certo é “esculpido em Carrara” — em vez de “cuspido e escarrado”, bela versão lusófona de uma ideia presente no inglês “spitting image” e em outras línguas —, podemos ter a sensação inebriante de que nada no mundo é o que parece.


Contentes de descobrir tal joia perdida do conhecimento universal — “O certo é quem tem boca vaia Roma, buuu!” —, saímos espalhando a boa nova.


E assim o sabichão cumpre o seu papel final, reprodutivo, que é o mesmo dos zumbis: comer o cérebro do maior número possível de pessoas para transformá‑las em sabichonas também.


Todo cuidado com ele!



FOLHA DE SÃO PAULO. Folha de S.Paulo,


Cotidiano, 1 maio 2025, p. A 41 (adaptado).

Releia o trecho do texto I a seguir.
“O mecanismo psíquico que nos leva a encarar quem nos corrige como detentor de um saber superior [...].”

Acerca do uso do pronome “nos” nas expressões “que nos leva” e “quem nos corrige”, é correto afirmar:
Alternativas

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Gabarito: B

Fundamento decisivo: No trecho “O mecanismo psíquico que nos leva a encarar quem nos corrige como detentor de um saber superior [...]”, o pronome oblíquo átono “nos” aparece antes dos verbos por próclise motivada por palavras atrativas, especialmente “que” e “quem”. Esse critério normativo torna correta a alternativa B.

Tema central: colocação pronominal
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque afirma que “nos” deveria vir posposto aos verbos, mas o trecho apresenta contexto regular de próclise. Em “que nos leva” e “quem nos corrige”, “que” e “quem” funcionam como palavras atrativas, o que legitima a anteposição do pronome. Portanto, não se pode dizer que a forma correta seria necessariamente posposta.
B
Certa
A alternativa B acerta porque identifica o fator gramatical que determina a posição de “nos” no trecho: a presença de “que” e “quem” antes dos verbos. Nessas construções, esses termos atraem o pronome oblíquo átono, justificando a próclise em “que nos leva” e “quem nos corrige”. Logo, o uso de “nos” antes dos verbos está adequado e decorre exatamente dessas palavras.
C
Errada
Está errada porque troca indevidamente “nos” por “nós”. O trecho exige pronome pessoal oblíquo átono como complemento verbal, e não pronome reto. A substituição alteraria a classe gramatical e a função sintática do termo, produzindo estrutura inadequada no contexto dado.
D
Errada
Está errada por dois motivos objetivos: primeiro, porque o uso de “nos” no trecho está adequado; segundo, porque é falsa a afirmação de que esse pronome só se usa antes do verbo no começo da frase. A próclise, aqui, decorre da atração exercida por “que” e “quem”, não de suposto início de frase.
Pegadinha da questão
A banca explora duas confusões reais: tomar a ênclise como regra geral obrigatória e confundir “nos” com “nós”, sem perceber que “que” e “quem” atraem o pronome oblíquo átono.
Dica para questões semelhantes
  • Verifique primeiro se há palavra atrativa antes do verbo; se houver, a próclise pode ser a colocação exigida.
  • Diferencie pronome oblíquo átono de pronome reto: “nos” não equivale a “nós”.
  • Não trate a ênclise como regra absoluta; a colocação pronominal depende da estrutura da frase.

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QUESTÃO 10

Gabarito: B) O emprego do pronome “nos” aparece antes dos verbos por causa das palavras “que” e “quem”.

Análise prática:

“que nos leva”

PRÓCLISE

O pronome “nos” aparece antes do verbo “leva” porque existe a palavra “que”, que é um termo atrativo.

“quem nos corrige”

PRÓCLISE

O pronome “nos” aparece antes do verbo “corrige” porque existe a palavra “quem”, que também atrai o pronome.

A) Incorreta. As regras gramaticais permitem e, nesse caso, determinam a posição antes do verbo.

C) Incorreta. “Nos” é pronome oblíquo. “Nós” é pronome pessoal do caso reto.

D) Incorreta. O pronome pode aparecer antes do verbo em várias situações, não apenas no início da frase.

RESPOSTA

[x] B — O emprego do pronome “nos” aparece antes dos verbos por causa das palavras “que” e “quem”.

Macete para a FUNDEP:

Palavra atrativa → pronome antes do verbo.

Alguns dos principais atrativos:

que, quem, não, nunca, jamais, ninguém, nada, talvez, quando, se, como.

Exemplo:

“Ele me chamou.”

“O aluno que me chamou...”

QUE atrai o ME.

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