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Q4113094 Português

Cuidado, os sabichões querem seu cérebro!


Sabichonismo é uma doença que explora e

agrava nossa insegurança com a língua


Sérgio Rodrigues



O sabichonismo linguístico é uma doença social oportunista que se aproveita da insegurança do falante médio, intimidado com a normatividade da língua, para convencê‑lo de que contraria regras em série — todas imaginárias.


Por exemplo: “É pleonasmo vicioso dizer que um filme é baseado em fatos reais. Todo fato é real; se não for real, não é fato!”, grita o sabichão. (Por alguma razão, sabichões gostam de gritar)


É mentira dele, claro: além de existir algo que se chama ênfase, o mundo sempre foi cheio de fatos falsos, para não mencionar os hipotéticos, os fictícios, os que dependem de fé etc.


Mesmo assim, é comum que o fato sabichão seja acolhido. O mecanismo psíquico que nos leva a encarar quem nos “corrige” como detentor de um saber superior é o mesmo que garante o sucesso internético de vídeos como “você bebeu água errado a vida inteira: aprenda”.


Sim, todo mundo sempre usou a expressão “dois pesos e duas medidas”, de impecáveis credenciais bíblicas. Não há nada nela, sob nenhum aspecto, que esteja errado: refere‑se a dois pesos (para a farinha) e duas medidas (para o tecido), artimanhas de comerciante desonesto. Aí vem o sabichão e, por saber pouco, anuncia na praça: “O certo é um peso e duas medidas!”.


O sabichonismo pode ser do tipo literalista, que eu chamo de podólatra da letra: “Não existe gol de bola parada, bola parada não entra”; “Risco de vida está errado, o certo é risco de morte”.


Também pode ter corte lógico‑matemático, encrencado com a dupla negativa do português: “Se você diz que não viu nada, então viu alguma coisa”. Pode ser purista, amalucado: “O certo é ab‑rupto”.


O único objetivo do sabichonismo é afirmar a posição de poder de quem o exerce. Embora seja muitas vezes diletante, seu caráter falsamente educativo faz com que assuma com frequência a forma de atividade profissional, caso em que provoca estragos maiores.


Como regra, sabichões exercem o sabichonismo por convicção. Estão convencidos da sabedoria de sua bobagem, que gostariam de ver abraçada por todos. No entanto, sobretudo nos casos em que a atividade produz ganho material, não se deve descartar a hipótese da má‑fé.


A fragilidade do organismo social de que o sabichonismo tira partido — a autoconfiança precária que, como povo, sentimos diante de uma língua que é nossa e ao mesmo tempo não é — acaba, sob seus ataques, por se agravar.


Quando nos deixamos convencer de que o certo é “esculpido em Carrara” — em vez de “cuspido e escarrado”, bela versão lusófona de uma ideia presente no inglês “spitting image” e em outras línguas —, podemos ter a sensação inebriante de que nada no mundo é o que parece.


Contentes de descobrir tal joia perdida do conhecimento universal — “O certo é quem tem boca vaia Roma, buuu!” —, saímos espalhando a boa nova.


E assim o sabichão cumpre o seu papel final, reprodutivo, que é o mesmo dos zumbis: comer o cérebro do maior número possível de pessoas para transformá‑las em sabichonas também.


Todo cuidado com ele!



FOLHA DE SÃO PAULO. Folha de S.Paulo,


Cotidiano, 1 maio 2025, p. A 41 (adaptado).

De acordo com o autor, qual é a principal motivação por trás do comportamento dos “sabichões”?
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: A questão pede a motivação principal dos “sabichões”, e o texto a explicita de forma categórica: “O único objetivo do sabichonismo é afirmar a posição de poder de quem o exerce.” Como a expressão “O único objetivo” exclui outras finalidades centrais, a alternativa correta é a que aponta imposição de poder por falsa autoridade linguística.

Tema central: motivação dos sabichões
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque atribui ao sabichão intenção pedagógica legítima. O texto afirma que ele explora a insegurança do falante, convence-o de que infringe regras “todas imaginárias” e ainda qualifica a prática como de “caráter falsamente educativo”. Portanto, não há base para dizer que sua motivação principal seja contribuir para o ensino da norma-padrão.
B
Errada
Está errada porque supõe correção de erros reais e preservação da língua tradicional. O texto descreve o contrário: os sabichões inventam proibições e falsas correções para impor autoridade. Assim, a alternativa altera o valor semântico da conduta descrita, trocando uma prática de pseudo-saber por uma missão legítima de preservação linguística.
C
Errada
Está errada porque transforma falsas correções em “descobertas linguísticas valiosas”. O texto trata essas supostas descobertas como bobagens, falsas correções e mecanismo de reprodução do sabichonismo. A ideia de “espalhar a boa nova” aparece em contexto irônico e não autoriza leitura de impulso colaborativo ou de compartilhamento de conhecimento válido.
D
Certa
A alternativa D traduz fielmente a afirmação central do autor. O texto não apresenta o sabichonismo como ensino, colaboração ou preservação da língua, mas como exercício de poder sustentado por intimidação e pseudoautoridade. Isso se confirma tanto no trecho decisivo — “O único objetivo do sabichonismo é afirmar a posição de poder de quem o exerce.” — quanto nos apoios textuais que mostram o uso de regras “imaginárias” e de um caráter “falsamente educativo”.
Pegadinha da questão
A confusão real é trocar a motivação principal pelo disfarce da prática: como os sabichões “corrigem” e assumem aparência de ensino, o candidato pode marcar uma alternativa educativa; porém o texto desmascara isso ao dizer que o caráter é “falsamente educativo” e que “O único objetivo” é afirmar poder.
Dica para questões semelhantes
  • Se a pergunta pede finalidade principal, procure no texto formulações categóricas, como “o único objetivo”, porque elas definem a resposta e excluem concorrentes.
  • Não confunda aparência discursiva com intenção real: aqui, o ato de “corrigir” não prova finalidade educativa, porque o texto o qualifica como falsa autoridade.
  • Elimine alternativas que troquem crítica do autor por valorização da conduta descrita, especialmente quando o texto fala em regras “imaginárias” e pseudo-saber.

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QUESTÃO 8

Gabarito: D) A intenção de impor uma posição de poder por meio de uma falsa autoridade linguística.

Análise prática:

“A intenção de impor uma posição de poder...”

CORRETA

O próprio texto afirma que o objetivo do sabichonismo é afirmar uma posição de poder de quem o pratica. O “sabichão” utiliza uma suposta autoridade sobre a língua para se colocar acima dos outros.

A) Incorreta. O objetivo principal não é ensinar a norma-padrão.

B) Incorreta. A preocupação não é preservar a língua, mas exercer uma posição de superioridade.

C) Incorreta. Não há intenção principal de compartilhar descobertas linguísticas.

RESPOSTA

[x] D — A intenção de impor uma posição de poder por meio de uma falsa autoridade linguística.

Macete para a FUNDEP:

Quando aparecer no texto:

sabichonismo → poder → superioridade → falsa autoridade

A ideia principal é imposição de poder, e não ensino da língua.

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