Na visão de Sérgio Buarque de Holanda, o historiador deve v...
Sérgio Buarque de Holanda
Para Sérgio Buarque de Holanda a principal tarefa do
historiador consistia em estudar possibilidades de mudança
social. Entretanto, conceitos herdados e intelectualismos
abstratos impediam a sensibilidade para com o processo do
devir. Raramente o que se afigurava como predominante na
historiografia brasileira apontava um caminho profícuo para o
historiador preocupado em estudar mudanças. Os caminhos
institucionalizados escondiam os figurantes mudos e sua fala.
Tanto as fontes quanto a própria historiografia falavam a
linguagem do poder, e sempre imbuídas da ideologia dos
interesses estabelecidos. Desvendar ideologias implica para o
historiador um cuidadoso percurso interpretativo voltado para
indícios tênues e nuanças sutis. Pormenores significativos
apontavam caminhos imperceptíveis, o fragmentário, o não-
determinante, o secundário. Destes proviriam as pistas que
indicariam o caminho da interpretação da mudança, do
processo do vir a ser dos figurantes mudos em processo de
forjar estratégias de sobrevivência.
Era engajado o seu modo de escrever história. Como
historiador quis elaborar formas de apreensão do mutável, do
transitório e de processos ainda incipientes no vir a ser da
sociedade brasileira. Enfatizava o provisório, a diversidade, a
fim de documentar novos sujeitos eventualmente participantes
da história.
Para chegar a escrever uma história verdadeiramente
engajada deveria o historiador partir do estudo da urdidura dos
pormenores para chegar a uma visão de conjunto de sociabi-
lidades, experiências de vida, que por sua vez traduzissem
necessidades sociais. Aderir à pluralidade se lhe afigurava
como uma condição essencial para este sondar das possibili-
dades de emergência de novos fatores de mudança social.
Tratava-se, na historiografia, de aceitar o provisório como ne-
cessário. Caberia ao historiador o desafio de discernir e de
apreender, juntamente com valores ideológicos preexistentes,
as possibilidades de coexistência de valores e necessidades
sociais diversas que conviviam entre si no processo de
formação da sociedade brasileira sem uma necessária
coerência.
(Fragmento adaptado de Maria Odila Leite da Silva Dias, Sérgio
Buarque de Holanda e o Brasil. São Paulo, Perseu Abramo,
1998, pp.15-17)
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Gabarito: B
Fundamento decisivo: O comando "deve valorizar" deve ser respondido pelo núcleo textual que associa a prática do historiador a "indícios tênues e nuanças sutis" e a "pormenores significativos", "o fragmentário, o não-determinante, o secundário". Como o texto afirma que "Destes proviriam as pistas que indicariam o caminho da interpretação da mudança", a alternativa correta é a que retoma essa valorização do fragmentário em oposição à historiografia tradicional criticada no texto.
- Localize no texto as palavras que respondem diretamente ao verbo do comando; aqui, "deve valorizar" é resolvido pelo campo semântico de "indícios", "pormenores" e "fragmentário".
- Verifique se a alternativa mantém ou inverte a oposição construída pelo texto; nesta questão, a proposta de Sérgio Buarque se opõe à historiografia tradicional.
- Desconfie de alternativas que aproveitam um termo do texto, mas alteram a relação principal de sentido, como trocar processo por resultado ou oposição por convergência.
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Pormenores significativos apontavam caminhos imperceptíveis, o fragmentário, o não determinante, o secundário. Destes proviriam as pistas que indicariam o caminho da interpretação da mudança, do processo do vir a ser dos figurantes mudos em processo de forjar estratégias de sobrevivência.
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