Foi na França, durante a Segunda Grande Guerra: um
jovem tinha um cachorro que todos os dias, pontualmente, ia esperá-lo voltar do trabalho. Postava-se na
esquina, um pouco antes das seis da tarde. Assim que
via o dono, ia correndo ao seu encontro e na maior
alegria acompanhava-o com seu passinho saltitante
de volta à casa. A vila inteira já conhecia o cachorro e as pessoas que passavam faziam-lhe festinhas e
ele correspondia, chegava até a correr todo animado
atrás dos mais íntimos. Para logo voltar atento ao seu
posto e ali ficar sentado até o momento em que seu
dono apontava lá longe.
Mas eu avisei que o tempo era de guerra, o jovem foi
convocado. Pensa que o cachorro deixou de esperá-lo?
Continuou a ir diariamente até a esquina, fixo o olhar
naquele único ponto, a orelha em pé, atenta ao menor ruído que pudesse indicar a presença do dono
bem-amado. Assim que anoitecia, ele voltava para
casa e levava sua vida normal de cachorro, até chegar o dia seguinte. Então, disciplinadamente, como
se tivesse um relógio preso à pata, voltava ao posto
de espera. O jovem morreu num bombardeio, mas
no pequeno coração do cachorro não morreu a esperança. Quiseram prendê-lo, distraí-lo. Tudo em vão.
Quando ia chegando àquela hora ele disparava para
o compromisso assumido, todos os dias.
* Escritora paulista, contista e romancista, pertencente à terceira geração
modernista brasileira.
Disponível em: https://contobrasileiro.com.br/a-disciplina-do-amor-conto-de-lygia-fagundes-telles/#google_vignette Acesso em: 03 mar 2026.
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