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Em “Ficou parado, humildemente parado”, a palavra “humildem...

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Q4232149 Português

O momento vazio


    Então tudo ficou vazio. Não, não é isto, era mesmo muito mais grave ainda: tudo era vazio; apenas o que aconteceu foi que a dolorosa, a insuportável consciência disso ficou tão nítida que paralisou o homem. Nenhum sentido em seu trabalho nem em sua vida; nenhum sentido nos louvores nem nas censuras. A máscara que os outros lhe haviam posto, ou que lentamente, ao sabor das circunstâncias, ele se tinha composto para os outros, lhe pareceu de repente uma coisa tão falsa, tão vã; mas quando quis saber qual era sua verdadeira face, qual era sua própria verdade, não encontrou mais nada.

    Compreendeu que aquela máscara era, ou ficara sendo, sua única verdade, embora ela própria fosse falsa; se a sua própria vida era uma contrafação, a máscara era legítima. Vivera antes talvez com uma noção vaga, quase inconsciente, de que havia em si mesmo duas pessoas - uma era aquela de uso diário, a outra era a autêntica. Foi naquele instante que teve a intuição de que a autêntica não existia, ou existia tão misturada com a outra que não era mais possível separar: perdera-se, gastara-se em antigas lutas, em antigas paixões, no longo hábito de viver.

    Um homem se recolhe, está só, em um quarto fechado, diante do espelho. Então acende todas as luzes e se olha bem ao espelho. Então procura retirar a máscara. E descobre que ela já aderiu ao seu rosto, que ela é seu próprio rosto - descobre que não há máscara, ou que não há rosto verdadeiro. O tecido é todo um, tudo se trança na mesma trama, o que foi vindo de fora, e o que foi vindo de dentro. Então ele apaga as luzes e procura pensar, procura sentir alguma coisa de si mesmo, um motivo para viver ou para morrer; e sente o grande vazio.

    “Sem chorar nem rir; nem rir nem chorar”, como em um esquecido brinquedo infantil. Poderia ir até a vitrola, pôr um disco; a música tem um poder mecânico sobre a alma, um poder ao mesmo tempo profundo e leviano. Mas ficou parado, como um ferido que se sente incômodo e insone em seu leito, mas procura não mover o corpo para evitar sentir uma dor; como alguém que procura se instalar no próprio desconforto e no próprio tédio. Ficou parado, humildemente parado.

    Foi então que o telefone bateu.


BRAGA, R. O momento vazio. In: DIDIER, C. (Org.) Os moços cantam & outras crônicas sobre a música. Rio de Janeiro, Autêntica Editora, 2016, p. 140-141. Disponível em <https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/15004/omomento-vazio>.

Em “Ficou parado, humildemente parado”, a palavra “humildemente” denota uma circunstância de:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: B

Fundamento decisivo: No trecho “Ficou parado, humildemente parado.”, o advérbio “humildemente” recai sobre “ficou parado” e, no contexto, expressa a maneira como o sujeito permaneceu; por isso, o valor circunstancial decisivo é de modo, o que confirma a alternativa B.

Tema central: valor circunstancial do advérbio
Análise das alternativas
A
Errada
Incorreta porque “humildemente” não indica quando o fato ocorreu. Não há valor temporal no termo; ele não responde a “quando?”, mas a “como ficou parado?”.
B
Certa
A alternativa B está correta porque “humildemente” funciona como advérbio e, nesse trecho, qualifica o predicado “ficou parado”, informando como o sujeito permaneceu. O próprio contexto reforça esse valor modal: “Mas ficou parado, como um ferido que se sente incômodo e insone em seu leito, mas procura não mover o corpo para evitar sentir uma dor; como alguém que procura se instalar no próprio desconforto e no próprio tédio.” Trata-se, portanto, de circunstância de modo, não de outra natureza.
C
Errada
Incorreta porque o advérbio não informa lugar. O texto traz marcas locativas em outros pontos, como “em seu leito” e “em um quarto fechado”, mas “humildemente” não responde a “onde?”; ele caracteriza o modo da permanência.
D
Errada
Incorreta porque “humildemente” não expressa incerteza, possibilidade ou hesitação. Não há marca dubitativa no termo; o abatimento emocional do personagem não transforma o advérbio em indicador de dúvida.
E
Errada
Incorreta porque “humildemente” não nega o conteúdo verbal. Valor de negação exigiria elemento negativo, como “não”, “nunca” ou “jamais”, o que não ocorre no trecho.
Pegadinha da questão
A banca explora a diferença entre identificar a classe do termo e identificar seu valor semântico no contexto. Como o enunciado pede o que a palavra “denota”, a decisão depende de reconhecer que “humildemente” responde a “como ficou parado?”, e não de projetar no advérbio o tom melancólico do texto.
Dica para questões semelhantes
  • Quando a questão pedir a circunstância expressa por um advérbio, ligue o termo diretamente ao verbo ou predicado e teste a pergunta semântica adequada: aqui, “como ficou parado?”.
  • Não confunda o clima emocional do texto com o valor gramatical do advérbio: abatimento, crise ou vazio existencial não equivalem a dúvida ou negação.
  • Nem todo advérbio em -mente deve ser classificado automaticamente; confirme no contexto se ele marca modo, tempo, lugar ou outro valor.

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