De mover carros para mover água: o próximo
século do desenho urbano
Assim como fizemos para acomodar os automóveis,
podemos redesenhar as cidades para lidar de forma
mais inteligente com a chuva
Pedro Henrique de Christo e Alexandros Washburn
Nos últimos cem anos, desenhamos nossas cidades
para mover carros. Alargamos ruas, construímos
estradas e remodelamos bairros para acomodar
automóveis. Por qualquer medida, nós conseguimos.
A cidade moderna é otimizada para veículos,
comumente ao custo das pessoas que vivem nela.
Entretanto, os próximos cem anos devem focar algo
muito mais urgente: mover água.
A crise climática está remodelando nossas cidades,
trazendo tempestades mais intensas, aumento do nível
do mar e ondas de calor. A volatilidade hidroclimática
tem levado ao aumento de enchentes relâmpagos,
secas prolongadas e incêndios, a chamada "chicotada
climática". Porto Alegre passou por uma das piores
secas do mundo em 2023 e, em seguida, por
enchentes devastadoras em 2024. [...]
No Brasil, a frequência de eventos climáticos
extremos vem subindo dramaticamente. Entre 2014 e
2023, grandes enchentes aumentaram de 182 para
314 e secas de 92 para 406 se comparadas à década
anterior. São Paulo exemplifica essa tendência com
sua seca severa de 2014-15 seguida por enchentes
relâmpagos que se intensificaram no último verão.
Estas são todas crises d’água, o elemento mais
fundamental para a cidade e sua população. [...]
Ainda assim, nossa infraestrutura urbana se
mantém presa numa mentalidade do século 20,
tratando a água como uma inconveniência – em vez de
uma força fundamental que deve ser gerida com o
mesmo nível de planejamento e investimento que o
automóvel já demandou.
A tarefa não é fácil, mas não é mais difícil do que
nós realizamos no último século. A transformação das
cidades para os carros requisitou feitos de engenharia
massivos: rodovias elevadas, túneis subterrâneos,
estruturas vastas de estacionamento, monitoramento
do tráfego da malha urbana e um sistema de comando
e controle – o semáforo. Se fizemos tudo isso,
podemos redesenhar nossos territórios urbanos para
lidar inteligentemente com a água.
Em vez de ruas desenhadas para carros,
precisamos de vias e superfícies que absorvam,
canalizem e armazenem água. Em vez de vastos
espaços de asfalto impermeável, precisamos de
parques grandes e pequenos. É o que chamamos de
infraestrutura verde: biovales, pavimentos permeáveis
e espaços públicos alagáveis acoplados a sistemas de
dados para controlá-los. Não podemos tratar a chuva
como um incômodo, mas sim aproveitá-la para reúso
como uma parte integral do que chamamos de
urbanismo climático. [...]
Essa mudança não só nos protegerá de desastres
climáticos: também fará nossas cidades mais
habitáveis. Ruas desenhadas para água tendem a ser
mais frescas, verdes e amigáveis ao pedestre.
Vizinhanças desenhadas ao redor do fluxo natural da
água podem reduzir ilhas de calor, melhorar a
qualidade do ar e criar novos espaços públicos.
A cidade centrada no carro é congestionada e
barulhenta; a cidade centrada na água será resiliente
e agradável. Passamos um século remodelando
nossas cidades para os automóveis. Agora,
precisamos do mesmo nível de ambição e urgência
para remodelá-las para a água. Nosso futuro depende
disso.
Adaptado de: https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2025/06/demover-carros-para-mover-agua-o-proximo-seculo-do-desenhourbano.shtml. Acesso em: 03 jul. 2025.
1
Assinale a alternativa que NÃO apresenta um sinônimo para a palavra “semáforo”, presente no quinto parágrafo do Texto 2.
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
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