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Q2068309 Português
A pipoca

A culinária me fascina. De vez em quando eu até me até atrevo a cozinhar. Mas o fato é que sou mais competente com as palavras do que com as panelas. (...)

Sabedor das minhas limitações e competências, nunca escrevi como chefe. Escrevi como filósofo, poeta, psicanalista e teólogo — porque a culinária estimula todas essas funções do pensamento.

As comidas, para mim, são entidades oníricas.

Provocam a minha capacidade de sonhar. Nunca imaginei, entretanto, que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu. (...)

A pipoca é um milho mirrado, subdesenvolvido.

Fosse eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos graúdos aparecessem aquelas espigas nanicas, eu ficaria bravo e trataria de me livrar delas. Pois o fato é que, sob o ponto de vista de tamanho, os milhos da pipoca não podem competir com os milhos normais. Não sei como isso aconteceu, mas o fato é que houve alguém que teve a ideia de debulhar as espigas e colocá-las numa panela sobre o fogo, esperando que assim os grãos amolecessem e pudessem ser comidos. (...)

Repentinamente os grãos começaram a estourar, saltavam da panela com uma enorme barulheira. Mas o extraordinário era o que acontecia com eles: os grãos duros quebradentes se transformavam em flores brancas e macias que até as crianças podiam comer. O estouro das pipocas se transformou, então, de uma simples operação culinária, em uma festa, brincadeira, molecagem, para os risos de todos, especialmente as crianças. É muito divertido ver o estouro das pipocas! (...)

É que a transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação porque devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos nós: duros, quebradentes, impróprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa — voltar a ser crianças! Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo.

Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre.

Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. (...)

O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão — sofrimentos cujas causas ignoramos. (...)

Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. (...) A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: PUF!! — e ela aparece como outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante. (...)

Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. Falando sobre os piruás com os paulistas, descobri que eles ignoram o que seja. Alguns, inclusive, acharam que era gozação minha, que piruá é palavra inexistente. Cheguei a ser forçado a me valer do Aurélio para confirmar o meu conhecimento da língua. Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar.

Meu amigo William, extraordinário professor pesquisador da Unicamp, especializou-se em milhos, e desvendou cientificamente o assombro do estouro da pipoca. Com certeza ele tem uma explicação científica para os piruás. Mas, no mundo da poesia, as explicações científicas não valem. (...)

Piruás são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem. (...) A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo da panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo.

Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira...

ALVES, Rubem. A pipoca. In:_____. O amor que acende a luaCampinas, SP: Papirus, 1999.
Quando o narrador declara “As comidas, para mim, são entidades oníricas.”, ele quer dizer, em relação ao termo destacado, que as comidas são entidades que têm a ver com: 
Alternativas

Gabarito comentado

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Tema central da questão: Semântica – Interpretação de vocabulário no contexto. O foco é a compreensão do termo “oníricas” dentro do texto, fundamental para resolver questões de interpretação em provas de concursos.

Análise da frase e fundamento semântico:

Ao dizer que “as comidas, para mim, são entidades oníricas”, o autor utiliza um adjetivo que, pela definição da norma-padrão (BECHARA, Evanildo), significa: “relativo a sonhos; pertencente ao mundo dos sonhos”. Ou seja, onírico(a) trata-se do que é próprio dos sonhos. É necessário buscar o sentido da palavra no contexto, recurso comum em provas que avaliando interpretação e vocabulário.

Alternativa correta: A) Sonho.

A palavra oníricas está diretamente ligada a “sonhos”. Assim, o narrador expressa que comidas, para ele, são carregadas de fantasia, imaginação, pensamentos próprios dos sonhos – um sentido metafórico reconhecido pelas principais gramáticas (CUNHA & CINTRA) e dicionários tradicionais.

Análise das alternativas incorretas:

  • B) Metafísica: Relaciona-se à filosofia e à natureza da existência, não ao sonho.
  • C) Misantropia: Significa aversão à humanidade, não tem relação com sonhos.
  • D) Utopia: Diz respeito a um lugar ideal e imaginário, porém não é sinônimo de ‘onírico’; é um conceito filosófico-social.
  • E) Quiromancia: Trata-se da prática de ler as linhas das mãos para prever o futuro, sem relação semântica com “sonho”.

Estratégia para provas: Atenção especial ao significado dos adjetivos, sobretudo quando aparecem em construções metafóricas. Em casos de dúvida, observe sempre o contexto da frase e, se possível, relacione a palavra à sua origem etimológica ou sentido mais consagrado nos dicionários.

Resumo da explicação: O termo “oníricas” significa ‘relativas a sonhos’. Por isso, a resposta correta é a letra A. As demais não trazem relação com o sentido pedido.

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Comentários

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Gab.: A

"Onírico é um adjetivo masculino da língua portuguesa e está relacionado ou faz referência aos sonhos, às fantasias e ao que não pertence ao chamado "mundo real". A palavra tem sua origem etimológica a partir do grego óneiros, que quer dizer literalmente sonho."

É só voltar no texto, moçada.

Só é ler o contexto que mata fácil.

Onírico é um adjetivo masculino da língua portuguesa e está relacionado ou faz referência aos sonhos, às fantasias e ao que não pertence ao chamado "mundo real". A palavra tem sua origem etimológica a partir do grego óneiros, que quer dizer literalmente "sonho".

Grupo destinado ao compartilhamento de provas e informações sobre concursos na área de Segurança e Saúde do Trabalho. Segue link do Telegram:

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Eu já de cara eliminei sonho e utopia kkkkk.

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