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Q2779633 Português

A CASA MATERNA


Há, desde a entrada, um sentimento de tempo na casa materna. As grades do portão têm uma velha ferrugem e o trinco se oculta num lugar que só a mão filial conhece. O jardim pequeno parece mais verde e úmido que os demais, com suas palmas, tinhorões e samambaias que a mão filial, fiel a um gesto de infância, desfolha ao longo da haste.

É sempre quieta a casa materna, mesmo aos domingos, quando as mãos filiais se pousam sobre a mesa farta do almoço, repetindo uma antiga imagem. Há um tradicional silêncio em suas salas e um dorido repouso em suas poltronas. O assoalho encerado, sobre o qual ainda escorrega o fantasma da cachorrinha preta, guarda as mesmas manchas e o mesmo taco solto de outras primaveras. As coisas vivem como em prece, nos mesmos lugares onde as situaram as mãos maternas quando eram moças e lisas. Rostos irmãos se olham dos porta-retratos, a se amarem e compreenderem mudamente. O piano fechado, com uma longa tira de flanela sobre as teclas, repete ainda passadas valsas, de quando as mãos maternas careciam sonhar.

A casa materna é o espelho de outras, em pequenas coisas que o olhar filial admirava ao tempo em que tudo era belo: o licoreiro magro, a bandeja triste, o absurdo bibelô. E tem um corredor à escuta, de cujo teto à noite pende uma luz morta, com negras aberturas para quartos cheios de sombra. Na estante junto à escada há um Tesouro da juventude com o dorso puído de tato e de tempo. Foi ali que o olhar filial primeiro viu a forma gráfica de algo que passaria a ser para ele a forma suprema da beleza: o verso.

Na escada há o degrau que estala e anuncia aos ouvidos maternos a presença dos passos filiais. Pois a casa materna se divide em dois mundos: o térreo, onde se processa a vida presente, e o de cima, onde vive a memória. Embaixo há sempre coisas fabulosas na geladeira e no armário da copa: roquefort amassado, ovos frescos, mangas-espadas, untuosas compotas, bolos de chocolate, biscoitos de araruta – pois não há lugar mais propício do que a casa materna para uma boa ceia noturna. E porque é uma casa velha, há sempre uma barata que aparece e é morta com uma repugnância que vem de longe. Em cima ficam os guardados antigos, os livros que lembram a infância, o pequeno oratório em frente ao qual ninguém, a não ser a figura materna sabe por que, queima às vezes uma vela votiva. E a cama onde a figura paterna repousava de sua agitação diurna. Hoje, vazia.

A imagem paterna persiste no interior da casa materna. Seu violão dorme encostado junto à vitrola. Seu corpo como que se marca ainda na velha poltrona da sala e como que se pode ouvir ainda o brando ronco de sua sesta dominical. Ausente para sempre da casa materna, a figura paterna parece mergulhá-la docemente na eternidade, enquanto as mãos maternas se fazem mais lentas e as mãos filiais mais unidas em torno à grande mesa, onde já agora vibram também vozes infantis.


(Vinícius de Moraes)

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Comentário de Gabarito – Interpretação de Texto

Tema central: Interpretação de texto com foco na identificação do narrador e na análise do ponto de vista narrativo.

No texto “A Casa Materna”, de Vinícius de Moraes, o termo “olhar filial” é um elemento-chave para compreender de quem parte a narração e qual é seu sentimento central. O adjetivo “filial” refere-se àquilo que pertence ou é relativo ao filho/a filha (do latim filius = filho). Assim, o “olhar filial” indica o olhar de quem é filho em relação à casa da mãe, um olhar afetuoso, nostálgico e pessoal.

Pela norma-padrão da Língua Portuguesa e conforme autores renomados, como Evanildo Bechara e Cunha & Cintra, o narrador é a instância do texto que relata e observa os acontecimentos. Nesta narrativa, tudo é descrito segundo a percepção de “quem foi filho” naquela casa — ou seja, o próprio narrador. Ele repete memórias, fala das sensações (“a mão filial”, “as mãos filiais se pousam sobre a mesa”), revelando um elo afetivo e direto.

Alternativa correta:

A) Ao narrador.
Justifica-se porque “olhar filial” indica que o narrador é quem observa e sente a casa como filho, sendo este o ponto de vista predominante em todo o texto.

Análise das alternativas incorretas:

B) “A uma pessoa na porta da casa”: Incorreta, pois o texto nunca localiza o “olhar filial” fisicamente na porta. O olhar é metafórico, não literal.

C) “A alguém que esteja negociando essa casa”: Incorreta, não há qualquer referência a negociação ou venda. O olhar é de lembrança e afeto.

D) “A um espírito de alguém que viveu nessa casa”: Incorreta, pois o olhar não pertence a um espírito. Trata-se da lembrança viva e presente do narrador-filho.

Dica de prova: Sempre observe expressões afetivas ou adjetivos relacionais ("filial", "materna", etc.) e relacione-os ao narrador, pois costumam indicar o ponto de vista da narração.

Portanto, a resposta correta é a letra A.

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