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Q3615084 Português

O conde e o passarinho


    Rubem Braga é, sabidamente, um conhecedor de passarinhos. Suas crônicas alegram-se e se entristecem com frequência de nomes de pássaros nacionais que eu só conheço de ouvir dizer – o que me dá um certo complexo de inferioridade. Já andei, certa vez, planejando estudar ornitologia por causa disto, e lembro-me de que na viagem que fiz com ele à sua Cachoeiro do Itapemirim, quando da homenagem que lhe prestou a cidade, foi com um sentimento de gula que recebi o maravilhoso disco de pios artificiais de passarinhos, feito pela família Coelho, que disso criou uma pequena indústria local. Tais projetos nunca foram adiante, como vários outros, entre os quais um de estudar carpintaria: e este, inclusive, concertado com o próprio Rubem – e que resultou em arrancarmos, ato contínuo, a porta da garagem da minha antiga casa, sairmos meia hora depois para matar o calor com uma cerveja gelada, e nunca mais voltarmos à dita porta, que se quedou jazente por dias a fio, vítima de nossa impostura.

    O Braga conhece bem sua passarada, isso ninguém lhe tira. O que não impede, porém, que tenha dado um “baixo” ornitológico que merece registro, segundo me conta minha irmã Lygia, testemunha ocular do mesmo. Pois o que se deduz da história é que o Braga pode conhecer muito bem tico-tico, curió, sanhaço, cardeal, tiê-sangue, sabiá, gaturamo, cambaxirra e até mesmo vira-bosta – mas em matéria de canário trata-se de um otário completo e acabado. Dito o quê, passemos à narrativa.

    Parece que o Braga vinha um dia assim muito bem pela Cinelândia, quando topou com um vendedor de passarinhos oferecendo a preço de ocasião um casal de canários dentro de uma gaiola cuja bossinha era ser dividida por uma separação levadiça em dois compartimentos, um para o macho, outro para a fêmea. A gracinha era abrir a portinhola do macho, deixá-lo fugir e depois vê-lo voltar docemente, no pio da fêmea.

    O Braguinha, que além de gostar de pássaros não é tolo, assistiu com o maior interesse a mais essa demonstração, entregou o dinheiro, meteu a gaiola debaixo do braço e tocou-se para o Leblon, sequioso de mostrar seu novo brinco ao aborígine. E deu-lhe a sorte de encontrar minha irmã Lygia, que além de ser uma esplêndida assistência para demonstrações desse teor, é pessoa mais de se apiedar que de caçoar da desdita alheia.

    O Braga colocou a gaiola em posição, abriu a porta e lá se foi o canarinho pelo azul afora, em lindas evoluções. A fêmea, como previsto, abriu o bico, e o canário, ao ouvi-la, fez direitinho como mandava o figurino: voltou e posou junto à porta aberta. Mas o divórcio entrou? Nem o canário. O bichinho ficou prudentemente à porta, mas entrar dentro mesmo da gaiola que é bom... ahn-ahn. O Braga animou a ave canora com milhões de piu-pius, fez-lhe mentalmente enérgicas perorações contra a sua calhordice – tudo isso, conta minha irmã Lygia, com olhos onde se começava a notar uma certa apreensão. O canário, nada.

    Quem sabe, ponderou minha irmã, um elemento verde qualquer colocado junto à porta, uma folha de alface, por exemplo, não animaria o bichinho? Foi trazida a folha de alface e colocada junto à porta. Durante essa operação, o canário levantou voo, e a canarinha, aproveitando-se da ocupação dos dois, fez força com o biquinho e acabou por erguer a portinhola da separação; dali para o Jardim Botânico, não teve nem graça.

    Diz minha irmã que o Braga ficou triste, triste. E como a esperança é a última que morre, antes de ir embora ainda ajeitou a gaiolinha para uma espera: quem sabe os pilantras não voltariam à noite...

    Canário, hein Braguinha?...


(DE MORAES, Vinicius. Para viver um grande amor. Organização de Eucanaã Ferraz. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 81-83. Crônica publicada, originalmente, no jornal “A noite”, de 02/04/1956. Adaptado.)

Considerando os trechos extraídos da crônica, assinale aquele cujo sentido expresso pelo termo em destaque é INCORRETAMENTE indicado. 
Alternativas

Gabarito comentado

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Tema central: Interpretação de texto e semântica. A questão avalia sua habilidade de compreender o significado de termos diminutivos no contexto e identificar se o sentido atribuído nas alternativas está de acordo com o que expressa o texto. Para isso, precisamos analisar o uso real dos termos em cada trecho.

Justificativa da alternativa CORRETA (D):

No trecho “bichinho”, a palavra funciona como um diminutivo afetivo, sugerindo carinho e ternura em relação ao pássaro. Não há nenhum traço de ironia na fala da personagem ou na narradora: “Quem sabe [...] uma folha de alface, por exemplo, não animaria o bichinho?” O emprego do termo se alinha ao uso consagrado da língua portuguesa, conforme destaca Evanildo Bechara em suas gramáticas, onde o diminutivo não serve só para tamanho, mas também expressa afeto, familiaridade. Assim, atribuir o sentido de “ironia” a “bichinho” está INCORRETO.

Análise das alternativas INCORRETAS:

A) “Braguinha” – afeto.
O diminutivo do nome próprio é amplamente usado para demonstrar carinho e proximidade. No texto, revela a relação afetuosa do narrador com Rubem Braga. A análise está correta.

B) “biquinho” – delicadeza.
“Biquinho” remete ao pequeno bico da ave, e a ação de erguer a portinhola ressalta a delicadeza do animal. É um emprego comum da forma diminutiva para indicar leveza ou pequenez, conforme ensinam Celso Cunha & Lindley Cintra.

C) “gracinha” – diversão.
O texto usa “gracinha” para descrever um truque divertido realizado pelo pássaro (“abrir a portinhola do macho…”). No contexto, o termo realmente denota “diversão”.

Destaques e Estratégias:

Fique atento: Questões semânticas desse tipo exigem atenção ao contexto. Muitas vezes, o diminutivo carrega mais de um sentido (tamanho, afeto, ironia). Só o contexto indica qual predomina.
Dica: Sempre relacione a palavra ao tom do texto: há humor, carinho, desprezo ou ironia? Observe como o narrador se refere aos personagens e objetos para garantir a interpretação adequada.

Conclusão: A alternativa D é a correta, pois o termo “bichinho”, no trecho, transmite afeto — e não ironia.

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