Quando chega o recesso de meio de ano das
atividades didáticas, sou atraído para leituras que,
preferencialmente, afastem-se do pensar profissional
diário que aguçam meu gosto pela tentativa de
posicionar a engenharia na vida do planeta, não como
mera realizadora de obras, mas como agente
colaborador na sua preservação. Fico folheando os
jornais e olhando estantes de livrarias, hábitos
considerados antiquados, em busca de possíveis
leituras agradáveis. Sigo conselhos de amigos, desde
que não indiquem livros de autoajuda, e gosto de ouvilos comentando e debatendo as ideias.
Nessa lida, encontrei “A consciência das palavras”,
coleção de escritos de Elias Canetti (1905-1994),
romancista e ensaísta búlgaro-britânico, Prêmio Nobel
de Literatura em 1981. Fui atraído pelo título, pois uma
de minhas preocupações é sobre a influência da
inteligência artificial (IA) na produção intelectual
contemporânea. Não tenho dúvidas sobre a boa ajuda
que esses métodos podem dar na produção de textos,
aulas e planos de trabalho. Entretanto, acredito nisso
como atividade auxiliar e colaborativa, uma vez que as
palavras e ideias que provêm da atividade consciente
carregam criatividade e sensibilidade, atributos
aparentemente subjetivos, talvez não atingíveis in
silico.
A obra, datada de 1974, traz no preâmbulo a ideia da
interpenetração entre o público e o privado, com
algumas consequências sociais preocupantes. Hoje,
50 anos depois, vivenciamos a proliferação de redes
sociais, dotadas de algoritmos, com grande risco à
integridade e à privacidade dos indivíduos. Os
benefícios do grande desenvolvimento tecnológico e
computacional são inegáveis. O lado ruim, como
adverte Canetti, é a conquista rápida desses meios por
inimigos do planeta com propagação de boatos e de
ideias deletérias de grande alcance.
Ao longo do livro, Canetti apresenta uma sequência
de ensaios sobre importantes figuras da história, entre
elas Kafka, Confúcio, Tolstói e Büchner, começando
pelo escritor austríaco Hermann Broch (1886-1951),
considerado um dos principais modernistas de todos
os tempos. Canetti identifica em Broch o que denomina
memória respiratória, enaltecendo que a vida diária é
feita de uma mistura de respirações em um ar que é
nosso último bem comum, que cabe a todos
indistintamente. Essa reflexão parece fundamental
para a sociedade, convidando-a a uma importante
discussão sobre os problemas ambientais que nos
cercam. Até o momento, não havia me dado conta do
fato de que quem polui invade e prejudica um bem
público, isto é, aquilo que pertence a todos.
Em capítulo seguinte, o dramaturgo Karl Kraus
(1874-1936), considerado satirista e panfletário, é
evocado. Fundador e único redator da revista Die
Fackel (A Tocha), Kraus era crítico ferrenho da moral
burguesa da época. Canetti descreve uma palestra de
Kraus realizada em Viena, em 1924, ressaltando o
espírito arrebatador do orador, levando a audiência ao
êxtase por meio de uma impiedosa perseguição aos
desafetos expressa nos discursos. Considerado como
o mago furioso, ao combinar literalidade e indignação,
Kraus criava importante sinergia entre suas emoções
e as da plateia. Fico imaginando como os algoritmos e
redes sociais de hoje criaram e multiplicaram esse
estilo de oratória, para o bem e para o mal.
Passando por uma análise bastante aguda e
interessante da obra de Franz Kafka (1883-1924),
chego ao capítulo sobre Confúcio (552 a.C.-489 a.C.)
e aprendo que hesitação e reflexão precedem e
acompanham boas respostas a questões relevantes,
divergindo da busca por rapidez e de terceirização de
raciocínio para as máquinas. Para Confúcio, a
felicidade sem fim está na busca pelo conhecimento,
não admitindo o ser humano como ferramenta,
ressaltando a memória dos mortos para a
consolidação de caminhos para o entendimento da
natureza.
Em capítulo seguinte, Canetti apresenta aspectos da
vida privada do autor de “Guerra e paz”, o consagrado
escritor russo Leon Tolstói (1828-1910). Ressaltando
que Tolstói jamais despreza um pensamento, uma
experiência ou uma observação, Canetti relata ser ele
proprietário de terras que, contra a vontade da família,
divide-as para evitar conflitos e desejos que
eventualmente pudessem causar.
Segue-se uma descrição dos diários do médico
japonês Michihiko Hachiya (1903-1980), sobrevivente
do bombardeio atômico de Hiroshima em agosto de
1945, publicados como “Diário de Hiroshima”, em
1955. Canetti escreve que não há nesse diário
qualquer traço falso ou de vaidade e sim uma busca de
explicar aquilo que, naquele momento, era
inexplicável. Em meio aos mortos e feridos, Michihiko
procura coletar peça por peça do ocorrido,
transformando hipóteses em teorias a serem
comprovadas.
Vou parar minha viagem por aqui. Pensando se nós,
profissionais das áreas tecnológicas, estamos
preocupados com a qualidade das palavras e dos
pensamentos provenientes dos programas de IA e dos
grupos hegemônicos que a manipulam. Além disso, se
o ar respirável vai continuar a ser atacado e se a
indústria da guerra continuará desprezando a vida,
indiscriminadamente.
Disponível em: https://jornal.usp.br/articulistas/jose-roberto-castilhopiqueira/ia-e-meio-ambiente-em-elias-c anetti/. Acesso em: 03 out.
de 2025.
Tendo em vista a análise de alguns dos elementos
linguísticos presentes no trecho “Além disso, se o
ar respirável vai continuar a ser atacado e se a
indústria da guerra continuará desprezando a vida,
indiscriminadamente.”, assinale a alternativa
correta.
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
Treine mais com um simulado focado no seu concurso. Criar simulado
teste
Parabéns! Você acertou!
Está mandando bem! Treine mais em um simulado completo. Criar simulado