Leia o seguinte excerto do texto. “O surgimento dessa lingu...
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Ano: 2026
Banca:
FUNCAMP
Órgão:
UNICAMP
Prova:
FUNCAMP - 2026 - UNICAMP - Profissional de Apoio Universitário/Professor em Educação Especial |
Q4403918
Português
Texto associado
A língua “secreta” dos mineiros da cidade de
Carlos Drummond
Criada no início do século 20 pelos trabalhadores das
minas de ferro de Itabira, a Guinlagem do Camaco
continua viva. O futuro, no entanto, é incerto com fim
próximo da exploração do minério na região.
Uma cidade, um poeta. O nome de Itabira é quase
indissociável de Carlos Drummond de Andrade. O escritor,
nascido em 1902, na cidade de 113 mil habitantes na
Região Central de Minas Gerais, revolucionou a língua
portuguesa ao virar de cabeça para baixo os formalismos
da poesia vigente até então. Mas o que pouca gente sabe
é que naquele mesmo local surgiu uma outra revolução
linguística: a Guinlagem do Camaco.
O surgimento dessa linguagem ‘secreta’ está diretamente
ligado ao contexto da exploração do minério na região.
Foi dentro das minas itabiranas, no começo do século
20, que os trabalhadores encontraram uma forma de se
comunicar sem serem entendidos pelos patrões, em grande
parte ingleses. Era também uma maneira de dar um troco
nos donos das minas, que falavam no idioma materno
quando não queriam ser compreendidos pelos empregados.
À primeira vista, as regras são simples. O princípio do
Camaco é inverter os fonemas das sílabas das palavras,
embaralhando os sons e tornando as frases praticamente
incompreensíveis para quem está de fora. “Sovê lafa
guinlagem”, por exemplo, é “Você fala linguagem?”.
“Guinlagem do Camaco” é “Linguagem do Macaco”. Assim,
famosa introdução do poema E agora, José, de Drummond,
viraria “E aroga, Sujé?”.
Mas nem tudo é lógica. Algumas palavras mais curtas se
transformam em vocábulos que fogem a essa regra. “Não”
vira “ônis”. “Qualquer”, “ualquiquelque”.
Essa é a magia da linguagem para o músico Rafael Formiga,
um falante do Camaco. “As palavras criam um sentido
dentro de um fonema pela inversão. E nos lugares onde
você vai falar, mesmo com alguma diferença, todo mundo
se entende. Tem uns detalhes muito ricos de linguagem e
ao mesmo tempo quem vê de fora não entende e fica meio
perdido, porque é normal que a gente procure regra”, diz
ele.
“Isso demonstra uma capacidade de construção e de
resistência incrível”, explica o historiador e museólogo Paulo
Assuero, também falante do Camaco. “Eram recém-libertos,
em grande parte analfabetos. E tinham que dar soluções
de como dizer as coisas que eles queriam sem que os
ingleses entendessem. Virou uma provocação, expandiu”,
complementa o professor, também residente em Itabira.
Das minas de ferro, o Camaco tomou as ruas. Virou a
língua que os filhos falavam para conversar entre si, sem
que os pais entendessem – ou a que os jovens usavam
para fazer piada com forasteiros.
[...]
A linguagem da resistência
Na casa de Mauro de Alvarenga, o Camaco já é uma
tradição. “Meus pais falavam quando não queriam ser
entendidos por mim e pelos meus irmãos – até que nós
aprendemos. Mas eles tinham aprendido com meu avô, que
era ferreiro e fazia peças para as locomotivas de mineração.
Ele trouxe o Camaco para dentro de casa e foi passando
de geração para geração”, conta.
Nas mãos do cineasta Breno Alvarenga, filho de Mauro,
a história da linguagem secreta da cidade de Drummond
acabou virando tema do documentário Camaco (2022),
premiado no Festival de Gramado nas categorias “Melhor
Curta Júri da Crítica” e “Melhor Montagem”. O filme
reconstrói o caráter de resistência da linguagem entre os
trabalhadores da mineração.
“O Camaco nasce de um contexto muito politizado, de muita
resistência. Funcionava também como forma de organizar
greves, pedir aumentos, sem que fossem boicotados desde
o começo”, explica Breno.
“Foi uma subcultura de sujeitos mais subalternizados,
marginalizados e que por isso demorou muito a ser
valorizado, porque a elite não via uma riqueza naquilo.
Os pobres se comunicavam, mas os poderosos não
entendiam. Isso é muito raro, porque geralmente a
linguagem aparta as pessoas e são geralmente os mais
ricos que conseguem acessar novas linguagens, não os
mais pobres. Ela começa dessa inversão”, ressalta o diretor
de cinema itabirano.
De acordo com o linguista e pesquisador Geuderson
Marchiori, que pesquisou o tema na sua dissertação de
mestrado pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP),
o Camaco pode ser considerado uma linguagem secreta ou
até mesmo um jargão técnico.
No entanto, segundo ele, que rastreou falantes até
a década de 1920, há uma função similar à de um
quilombo. “A linguagem possibilita a convergência dessas
populações minorizadas, que utilizam o Camaco como um
território de luta e resistência. Embora o senso comum
aponte o quilombo como um local de negros escravizados
em fuga, o quilombo é um local de reorganização, de
segurança, onde essas populações puderam se libertar da
exploração e se reorganizar para resistir”, complementa. [...]
CORRÊA, Fábio. A língua “secreta” dos mineiros da cidade de Carlos
Drummond. DW Brasil. 2 jun. 2026. Disponível em: https://www.
dw.com/pt-br/a-l%C3%ADngua-secreta-dos-mineiros-da-cidade-decarlos-drummond/a-77344661. Acesso em: 11 jun. 2026. [Fragmento]
Leia o seguinte excerto do texto.
“O surgimento dessa linguagem ‘secreta’ está diretamente ligado ao contexto da exploração do minério na região. Foi dentro das minas itabiranas, no começo do século 20, que os trabalhadores encontraram uma forma de se comunicar sem serem entendidos pelos patrões, em grande parte ingleses.”
Nesse excerto, a vírgula utilizada antes do trecho “em grande parte ingleses” tem como função:
“O surgimento dessa linguagem ‘secreta’ está diretamente ligado ao contexto da exploração do minério na região. Foi dentro das minas itabiranas, no começo do século 20, que os trabalhadores encontraram uma forma de se comunicar sem serem entendidos pelos patrões, em grande parte ingleses.”
Nesse excerto, a vírgula utilizada antes do trecho “em grande parte ingleses” tem como função: