No trecho “Foi quando ela sentiu uma coisa pelas costas nuas...

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Q3615822 Português

Texto para responder à questão.


Taquicardia a dois


    Estava minha amiga falando comigo ao telefone. Eis senão quando entra-lhe pela sala adentro um passarinho. Minha amiga reconheceu: era um sabiá. Minha amiga ficou surpresa. Era preciso que ele achasse o caminho da janela para ir embora e escapar da prisão da sala. Depois de esvoaçar muito, pousou num quadro acima da cabeça de minha amiga, que continuou o telefonema, porém mais atenta ao sabiá do que às palavras.

    Foi quando ela sentiu uma coisa pelas costas nuas – era verão, o vestido não tinha costas: o sabiá tinha-se aninhado nela e parecia estar muito bem. E preciso dizer que minha amiga tem uma voz muito suave. Ela sabia que qualquer movimento súbito seu, e o sabiá se assustaria quase mortalmente. Desligou o telefone.

    Também é preciso dizer que minha amiga tem mão e jeito leves, é capaz de segurar a corola de uma flor sem fazê-la murchar. Foi com seu jeito leve que pegou no sabiá, que se deixou pegar.

    E lá ficou de sabiá na mão. O coraçãozinho do sabiá batia em louca taquicardia. E o pior é que minha amiga estava toda taquicárdica. Ali, pois, ficaram os dois tremendo por dentro: a amiga sentindo o próprio coração palpitar depressa e na mão sentindo o bater apressadinho e desordenado do sabiá.

    Então ela se levantou devagar para não assustar o que estava vivo na sua mão. Chegou junto da janela. O sabiá compreendeu. Minha amiga espalmou a mão, onde o sabiá permaneceu por uns instantes. E de súbito deu uma voada lindíssima de tanta liberdade.


(LISPECTOR, Clarice. Portal da crônica Brasileira. Disponível em: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/. Acesso em: julho de 2025. Adaptado.) 

No trecho “Foi quando ela sentiu uma coisa pelas costas nuas – era verão o vestido não tinha costas [...]” (2º§), o travessão foi utilizado para destacar: 
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: No trecho "Foi quando ela sentiu uma coisa pelas costas nuas – era verão, o vestido não tinha costas", o travessão introduz um segmento explicativo intercalado, com realce expressivo, que esclarece a informação anterior e sustenta a leitura da alternativa correta.

Tema central: Uso expressivo do travessão
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque o segmento após o travessão não é aposto em sentido sintático estrito. O critério decisivo é que se trata de uma intercalação explicativa com realce discursivo, e não de uma relação de equivalência nominal típica do aposto; "era verão, o vestido não tinha costas" apenas esclarece a circunstância de "costas nuas".
B
Errada
Está errada porque não há citação. O trecho após o travessão não reproduz fala, pensamento textualizado nem enunciado de outra fonte; ele integra o próprio relato do narrador como explicação intercalada.
C
Certa
A alternativa C está correta porque o trecho após o travessão — "era verão, o vestido não tinha costas" — não apenas continua a frase: ele explica a informação anterior, "pelas costas nuas", e recebe relevo discursivo. O valor decisivo do sinal, aqui, é introduzir essa explicação com ênfase, o que corresponde ao destaque enfático da parte final do enunciado.
D
Errada
Está errada porque reduz a função do travessão a uma separação mecânica entre duas partes. Embora haja divisão gráfica, a questão pede o que o travessão foi utilizado para destacar, e o ponto decisivo é o realce semântico-discursivo da explicação final.
Pegadinha da questão
A banca explora três confusões reais: tomar todo trecho explicativo por aposto, associar automaticamente travessão a fala ou citação e aceitar uma descrição apenas gráfica da pontuação sem identificar sua função expressiva no contexto.
Dica para questões semelhantes
  • Quando o travessão aparece no interior do período, verifique se ele introduz explicação, comentário ou intercalação, e não apenas fala de personagem.
  • Diferencie aposto de explicação discursiva: aposto renomeia um termo; segmento intercalado pode apenas esclarecer uma informação anterior.
  • Se a questão perguntar a função da pontuação, não pare na divisão visual: identifique a relação de sentido entre o trecho anterior e o posterior.
  • Em alternativas amplas, escolha a que melhor capture o efeito real do sinal no contexto, mesmo que a formulação não seja a mais técnica.

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Comentários

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GABARITO C

Nesse contexto, o travessão não separa uma explicação gramatical tradicional nem uma citação, mas sim destaca a explicação ou comentário que complementa a frase anterior, dando ênfase à informação final: que o vestido não tinha costas, explicando a sensação da personagem.

------- x -------

Por outro lado, vale destacar que, o travessão é usado para destacar um aposto quando tem função de acrescentar uma informação explicativa ou detalhamento sobre um substantivo ou termo anterior.

Exemplo:

“Maria – a filha mais velha de Dona Lúcia – chegou cedo.”

Aqui, “a filha mais velha de Dona Lúcia” é um aposto, e o travessão o destaca dentro da frase.

Já o uso do travessão na citação indica fala de personagens, pensamentos ou citações diretas.

Exemplo:

— Não sei se vou conseguir terminar a prova — disse João.

Aqui, o travessão marca o início da fala do personagem.

O travessão (—) é um sinal de pontuação muito versátil na língua portuguesa. Ele pode ser usado para diversos fins, dependendo do contexto. Aqui estão os principais usos:

✍️ 1. Marcar a fala de personagens em diálogos

É muito comum em textos narrativos.

Exemplo: — Você vem comigo? — perguntou João.

2. Destacar intervenções do narrador

Pode substituir os parênteses ou a vírgula para inserir comentários ou explicações.

Exemplo: O menino — que mal sabia ler — conseguiu decifrar a carta.

3. Enfatizar ou isolar expressões

Dá ênfase a uma informação ou quebra o ritmo da frase.

Exemplo: Ela só queria uma coisa — paz.

4. Substituir os dois-pontos antes de uma explicação ou enumeração

Especialmente quando se quer dar mais impacto.

Exemplo: Ele só tinha um objetivo — vencer.

5. Indicar interrupção ou mudança brusca no discurso

Muito usado em textos literários ou dramáticos.

Exemplo: Se você não fizer isso, eu juro que — Ah, esquece!

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