Segundo a autora, o que motiva a não existência, hoje, de um...
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Ano: 2021
Banca:
Máxima
Órgão:
Prefeitura de Lambari - MG
Provas:
Máxima - 2021 - Prefeitura de Lambari - MG - Auxiliar Administrativo
|
Máxima - 2021 - Prefeitura de Lambari - MG - Agente Administrativo |
Q4388105
Português
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Leia o texto de Rosely Sayão, colunista do jornal O Estado de S. Paulo
Um muro feito de ideias
Construímos uma sociedade que não admite aproximar as gerações
Rosely Sayão, O Estado de S. Paulo
14 de Fevereiro de 2021
Aniversário de um garoto de 10 anos. A comemoração acontece na
pequena sala do apartamento em que ele mora com a mãe. Para comer, há
bolo e alguns salgadinhos caseiros, para beber, refrigerante, suco e cerveja
para os adultos. Na sala, umas 20 pessoas, em pé. Calma! A cena ocorreu
antes da pandemia.
Cada convidado, ao chegar, oferece um presente ao aniversariante e
espera que ele abra. Nesse momento, crianças e adultos rodeiam o garoto
que celebra cada mimo com entusiasmo. Depois que todos chegaram, a mãe
coloca uma música – e mães, pais e filhos, alegres, dançam juntos. Onde eu
vi essa cena? Em um filme francês.
Aqui entre nós, dificilmente ela aconteceria. Eu mesma participei, há
um tempo, de uma festa de casamento, numa pequena cidade do sul. Mas lá
eu vi jovens convidando senhoras e senhores para dançar e não vi crianças
brincando com crianças.
As últimas festas de aniversário de crianças em que estive presente
foram bem mais grandiosas do que a do filme. A quantidade de comida doce
e salgada e de bebida era uma coisa impressionante. Os aniversariantes não
abriam os presentes recebidos, que eram colocados em um local próprio. Vi,
sim, crianças rodeando os embrulhos, curiosas para saber o que havia
dentro. Em duas dessas festas, os pais deixavam os filhos na porta e, como
combinado no convite, viriam busca-los em um determinado horário. Os
adultos ficavam em grupos só de adultos. E as crianças? Brincavam
conduzidas por monitores ou recreacionistas.
Aos poucos, fomos tornando uma situação essencialmente afetiva – a
celebração da vida uma pessoa querida – em um acontecimento impessoal e
marcado pela reunião de grupos etários semelhantes: adulto com adulto,
crianças com crianças. [...]
Aí está: construímos uma sociedade que evita o relacionamento
intergeracional. Crianças mais velhas não aprendem a cuidar das menores e
têm a sensação de que elas só atrapalham.
Há tempos, testemunhei uma cena em uma escola paulistana que tinha
organização totalmente diferente das que conhecemos. As crianças não
eram separadas por idade e todo o espaço da escola era compartilhado por
todos, dos bebês aos já com 6 anos. E as brincadeiras eram criadas pelas
próprias crianças.
Um grupo de meninos e meninas de mais ou menos 5 anos juntou-se
para jogar o que eles chamavam de futebol – e eis que chegou ao local uma
criança de 2 anos querendo jogar também. Sem saber como resolver a
situação, as crianças foram conversar com a mentora da escola e ouviram
dela que, se a criança menor não conseguia acompanhar as regras do jogo,
eles deveriam mudar as regras para que ela pudesse jogar.
[...] Já nós, adultos, preferimos, por exemplo, deixar os velhos com
outros velhos em atividades “próprias” da tal terceira idade, e separar, na
escola, as crianças por idade. Como disse, o educador Sir Ken Robinson,
será que o que há de mais importante para aproximar crianças com
interesses semelhantes é a data da fabricação delas?
Se queremos uma sociedade mais amigável para a convivência
intergeracional justa, cordial e solidária, precisamos repensar a maneira
como vivemos nosso cotidiano, como organizamos as escolas e os eventos
sociais que criamos.
(SAYÃO, Rosely – O Estado de S. Paulo)
Segundo a autora, o que motiva a não existência, hoje, de um relacionamento intergeracional é: