No texto, palavras como “consenso”, “flexibilidade”, “víncu...

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Q4276044 Português
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A unanimidade possível


A reunião começou às nove em ponto, o que, na empresa Horizonte Integrado, significava nove e vinte. Na sala envidraçada, oito pessoas se acomodaram diante de uma tela que exibia o título “Novo Modelo de Colaboração”. Ninguém sabia exatamente o que seria decidido, mas todos concordavam que a decisão já estava atrasada.

Renato, diretor de Estratégia, abriu os trabalhos:

— Precisamos construir um consenso que respeite a diversidade de perspectivas.

A frase foi recebida com acenos graves. Elisa, gerente de Recursos Humanos, anotou “consenso” em seu caderno. Para ela, a palavra significava convencer os demais de que o trabalho presencial deveria aumentar. Otávio, responsável pela área financeira, entendeu o contrário: consenso seria reduzir o espaço físico e, com ele, as despesas. Lúcia, da comunicação, imaginou uma campanha interna com fotografias de pessoas sorrindo ao redor de uma mesa. Bruno, do setor jurídico, preferiu não imaginar nada antes de conhecer os riscos.

— O modelo atual precisa ser flexibilizado — continuou Renato.

— Concordo plenamente — disse Elisa.

Ela pensava em horários mais rígidos, desde que fossem chamados de “faixas de integração”.

— Concordo também — afirmou Otávio.

Ele pensava em eliminar estações de trabalho fixas.

— Faz todo sentido — acrescentou Lúcia.

Ela já escolhera o slogan: “Mais liberdade para estarmos juntos”.

Bruno ergueu a mão:

— Quando falamos em flexibilidade, estamos tratando de presença, jornada, local de trabalho ou metas?

Renato sorriu com a serenidade de quem considera a precisão um obstáculo operacional.

— Estamos tratando de uma visão mais ampla.

Bruno anotou que a visão era ampla o bastante para não caber numa definição.

A discussão prosseguiu. Elisa defendeu “o fortalecimento dos vínculos”. Otávio apoiou, entendendo que vínculos fortalecidos diminuiriam pedidos de demissão. Lúcia apoiou também, imaginando vídeos de aniversários corporativos. Bruno perguntou se os vínculos incluíam obrigações adicionais. Renato respondeu que aquele era um tema para uma etapa posterior, o que, na empresa, designava o lugar onde as perguntas difíceis eram cuidadosamente guardadas.

Perto do meio-dia, surgiu a expressão “autonomia responsável”. Todos a receberam com entusiasmo.

Para Elisa, autonomia responsável significava liberdade para organizar o próprio trabalho, desde que o empregado estivesse disponível quando a liderança julgasse necessário. Para Otávio, significava entregar mais com menos recursos. Para Lúcia, era uma combinação perfeita de palavras positivas. Para Bruno, era uma fórmula que poderia significar qualquer coisa e, por isso mesmo, exigiria quinze páginas de regulamento.

— Então estamos alinhados — concluiu Renato.

Ninguém perguntou em relação a quê.

A ata registrou que o grupo aprovara, por unanimidade, um modelo híbrido, flexível, eficiente, humano e financeiramente sustentável. O documento não indicava quantos dias seriam presenciais, quem escolheria esses dias, como seriam avaliadas as metas nem o que aconteceria quando flexibilidade e controle apontassem para direções opostas.

Na manhã seguinte, cada setor comunicou a decisão à sua maneira.

Recursos Humanos anunciou três dias obrigatórios no escritório. O Financeiro informou que as mesas seriam compartilhadas e que parte do prédio seria devolvida. A Comunicação publicou: “Agora, cada pessoa poderá escolher onde produzir melhor”. O Jurídico enviou uma nota esclarecendo que nenhuma escolha estava autorizada até a publicação das regras.

Os funcionários, surpreendentemente, também concordaram. Alguns entenderam que poderiam trabalhar de casa. Outros concluíram que precisariam voltar ao escritório. Houve quem acreditasse que nada mudaria, hipótese que a experiência tornava bastante plausível.

Renato leu as mensagens e convocou nova reunião.

No convite, escreveu:

“Precisamos alinhar o entendimento sobre o alinhamento.”

Desta vez, todos compreenderam a urgência.

Cada um, naturalmente, compreendeu uma urgência diferente.


Fonte: Banca Elaboradora
No texto, palavras como “consenso”, “flexibilidade”, “vínculos”, “autonomia responsável” e “alinhamento” são retomadas por diferentes personagens. Assinale a alternativa correta sobre o efeito dessa recorrência.
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: B

Fundamento decisivo: A recorrência lexical mantém a continuidade temática, mas não assegura identidade de interpretação. O documento confirma a indeterminação operacional: “O documento não indicava quantos dias seriam presenciais, quem escolheria esses dias, como seriam avaliadas as metas nem o que aconteceria quando flexibilidade e controle apontassem para direções opostas.” Esse dado sustenta a distinção da alternativa B entre coesão lexical e consenso apenas aparente.

Tema central: Coesão lexical e consenso aparente
Análise das alternativas
A
Errada
A repetição não estabelece sinonímia entre as expressões nem garante entendimento comum. Elisa associa “consenso” ao aumento do trabalho presencial, enquanto Otávio o associa à redução do espaço físico e das despesas. O vocabulário compartilhado encobre conteúdos práticos divergentes.
B
Certa
A alternativa B distingue a continuidade das palavras da convergência de entendimento. As expressões retomadas conectam as falas, mas recebem conteúdos diferentes: Elisa entende “autonomia responsável” como liberdade condicionada à disponibilidade para a liderança; Otávio, como entregar mais com menos recursos; Lúcia, como uma combinação de palavras positivas. Como a ata também deixa indefinidas as condições de aplicação do modelo, a concordância ocorre sobre formulações gerais, não sobre decisões práticas compartilhadas.
C
Errada
As interpretações não são inteiramente desvinculadas: todas permanecem relacionadas ao debate sobre a organização do trabalho. O texto apresenta apropriações contextuais de expressões gerais, e essa diversidade de implicações práticas não basta para caracterizar homônimos perfeitos.
D
Errada
A repetição não elimina progressivamente a indeterminação. Ao final da reunião, a ata ainda não define os dias presenciais, quem os escolheria ou como as metas seriam avaliadas. A aprovação formal, portanto, não produz a definição operacional compartilhada afirmada pela alternativa.
E
Errada
O texto não demonstra desconhecimento de conceitos técnicos nem apresenta definições técnicas unívocas para as expressões. As divergências decorrem de interpretações orientadas por interesses setoriais e da ausência de especificação prática, como mostram os diferentes entendimentos de “autonomia responsável”.
Pegadinha da questão
Confundir o uso das mesmas palavras e a unanimidade registrada com acordo sobre sua aplicação: há coesão lexical, mas não entendimento operacional comum.
Dica para questões semelhantes
  • Compare o que cada personagem entende que uma expressão autoriza ou exige; palavras iguais podem sustentar decisões práticas diferentes.
  • Confira se a concordância anunciada vem acompanhada de condições concretas de aplicação, como responsáveis, prazos ou critérios definidos.
  • Não classifique interpretações diferentes como homonímia sem verificar se os sentidos são efetivamente desvinculados.

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Comentários

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Marquei a B, mas acho que a A também está correta

A) Incorreta. A repetição não estabelece sinonímia, pois “consenso”, “flexibilidade”, “vínculos”, “autonomia responsável” e “alinhamento” não são palavras sinônimas. Além disso, o texto demonstra justamente que os participantes atribuem conteúdos diferentes às mesmas expressões.

B) Correta. A retomada das mesmas palavras ao longo do texto produz coesão lexical e cria uma aparência de consenso. Entretanto, essas expressões são semanticamente vagas/indeterminadas, permitindo que cada personagem lhes atribua um conteúdo prático diferente. Assim, todos parecem concordar no plano das palavras, mas discordam quanto ao que elas significam concretamente.

C) Incorreta. Não se trata de homonímia perfeita. Homônimos perfeitos possuem a mesma grafia e pronúncia, mas significados diferentes e sem relação entre si, como “manga” (fruta) e “manga” (parte da camisa). No texto, os termos mantêm um sentido geral comum, mas, por sua vagueza ou indeterminação semântica, recebem interpretações diferentes conforme os interesses dos personagens.

D) Incorreta. A repetição não elimina a ambiguidade ou a indeterminação; ocorre justamente o contrário. Mesmo após a reunião, cada setor interpreta a decisão de maneira diferente, demonstrando que não houve definição concreta dos termos utilizados.

E)Incorreta. As palavras não apresentam sentido estritamente denotativo, pois as expressões utilizadas são vagas e cada participante as interpreta de maneira diferente. O conflito não decorre do desconhecimento de conceitos técnicos, mas justamente das diferentes interpretações atribuídas aos mesmos jargões corporativos.

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