A relutância em sintetizar informações básicas (3º parágrafo...

Próximas questões
Com base no mesmo assunto
Q3884242 Português

Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto seguinte.



[Em busca da origem da desigualdade social]



    A pesquisa que culminou na escrita deste livro - O despertar de tudo - começou quase uma década atrás, basicamente como uma forma de brincadeira. No principio, nós nos lançamos a isso, cabe reconhecer, num espírito de ligeiro desvio das nossas responsabilidades acadêmicas mais "sérias". Acima de tudo, estávamos curiosos para ver como as novas evidėncias arqueológicas que se acumularam nas trés últimas décadas poderiam modificar nossas concepções dos primórdios da história humana, sobretudo os aspectos associados às discussões sobre as origens da desigualdade social.


    Não demorou, contudo, para se tornar óbvia a potencial relevância do que estávamos empreendendo, pois quase ninguém mais em nossas disciplinas parece dedicado a esse trabalho de síntese. Com frequência ficamos surpresos ao buscar em vão por livros que supúnhamos existir, mas que na verdade sequer haviam sido escritos -por exemplo, compêndios das cidades primitivas desprovidas de governos fortes, exercidos de cima para baixo, ou relatos de processos democráticos de tomada de decisão na Africa ou na América.


    No final, concluímos que essa relutância em sintetizar informações básicas não se devia apenasa uma reticência por parte de pesquisadores: tratava-se apenas da inexistência de uma linguagem apropriada para dar conta de determinadas estruturas sociais. Como, por exemplo, nos referirmos a uma "cidade desprovida de estruturas de governo de cima para baixo"?


    No momento, ainda não há um termo de aceitação geral. Nos arriscaríamos a chamar isso de "democracia"? Ou 'república"? Caberia dizer "cidade igualitária"? Mas isso implicaria o ônus de provar que a cidade era "de fato" igualitária - o que significaria, na prática, demonstrar que nenhum elemento de desigualdade estrutural estava presente em qualquer aspecto da vida de seus habitantes, incluindo grupos familiares e práticas religiosas. Dada a raridade, ou mesmo inexistência de tais evidências, seria inevitável a conclusão de que afinal essas cidades não tinham nada de igualitário. Trata-se, enfim, de considerar que a existência de civilizações originalmente não marcadas pela desigualdade social pode não ser mais do que um mito a ser desmontado.



(Adaptado de: GRAEBER, David, e WENGROW, David. O despertar de tudo. São Paulo: Companhia das Letras, 2022, p. 552) 

A relutância em sintetizar informações básicas (3º parágrafo) com que se depararam os autores do texto em sua pesquisa deveu-se, sobretudo, 
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Gabarito: C

Fundamento decisivo: O ponto decisivo é a causa explicitamente enunciada no texto para a "relutância em sintetizar informações básicas": "No final, concluímos que essa relutância em sintetizar informações básicas não se devia apenas a uma reticência por parte de pesquisadores: tratava-se apenas da inexistência de uma linguagem apropriada para dar conta de determinadas estruturas sociais. Como, por exemplo, nos referirmos a uma \"cidade desprovida de estruturas de governo de cima para baixo\"?\n\nNo momento, ainda não há um termo de aceitação geral." Como o comando pede justamente essa causa, a resposta correta é a alternativa C.

Tema central: causa da relutância
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa desloca o foco do texto. As "cidades desprovidas de governos fortes" aparecem como exemplo do objeto estudado, não como causa da relutância dos pesquisadores. O texto afirma que a causa estava na falta de linguagem adequada para descrevê-las.
B
Errada
O texto não diz que as bases sociais eram tão semelhantes que não podiam ser distinguidas. O problema apontado é outro: faltava terminologia apropriada para dar conta dessas estruturas sociais. A alternativa inventa uma homogeneidade social que o texto não afirma.
C
Certa
A alternativa C traduz com fidelidade o que o texto afirma de modo direto: a dificuldade não era material nem falta de interesse, mas a inexistência de linguagem apropriada e de termo consensual para descrever certas estruturas sociais. Quando o texto mostra a hesitação entre chamar de "democracia", "república" ou "cidade igualitária", ele confirma que o obstáculo era caracterizar e nomear com exatidão os fenômenos investigados.
D
Errada
Não há no texto qualquer menção a "penosas condições socioeconômicas" dos pesquisadores. Além disso, a referência aos "primórdios da história humana" diz respeito ao objeto da pesquisa, não às condições de trabalho de pesquisadores de qualquer época.
E
Errada
A alternativa atribui a relutância a limitação tecnológica, mas o texto não apresenta problema metodológico ou técnico. Ao contrário, menciona "novas evidências arqueológicas que se acumularam nas três últimas décadas". Portanto, a causa não era tecnologia rudimentar, e sim dificuldade conceitual e terminológica.
Pegadinha da questão
A banca explorou a confusão entre o objeto descrito no texto e a causa pedida no comando: as cidades sem governo forte são exemplo do fenômeno investigado, mas a relutância em sintetizar informações decorre da falta de linguagem e de termo de aceitação geral para nomeá-lo.
Dica para questões semelhantes
  • Quando o enunciado perguntar a causa de algo, procure no texto marcas explícitas de causalidade antes de interpretar.
  • Separe o objeto estudado da explicação sobre esse objeto: nem todo exemplo citado é a resposta do comando.
  • Em interpretação, uma boa alternativa costuma parafrasear com fidelidade o núcleo semântico do trecho decisivo, sem trocar problema conceitual por problema material.

Clique para visualizar este gabarito

Visualize o gabarito desta questão clicando no botão abaixo

Comentários

Veja os comentários dos nossos alunos

Gab C - à dificuldade de caracterizar e nomear com exatidão os fenômenos sociais investigados. 

Gabarito: Letra C

"tratava-se apenas da inexistência de uma linguagem apropriada para dar conta de determinadas estruturas sociais. Como, por exemplo, nos referirmos a uma "cidade desprovida de estruturas de governo de cima para baixo"?"

GAB C

Frequentemente, o avanço do conhecimento humano é travado não pela falta de dados, mas pela falta de conceitos. Se não temos uma palavra para algo, temos dificuldade em pensar sobre esse algo de forma organizada. Graeber e Wengrow argumentam que a academia ficou "travada" porque tentava encaixar cidades antigas em conceitos modernos (democracia/república) que não serviam bem, e a falta de um nome novo impedia que os pesquisadores unissem os dados existentes.

No texto: "Como, por exemplo, nos referirmos a uma 'cidade desprovida de estruturas de governo de cima para baixo'?" Essa pergunta retórica ilustra o "vazio" linguístico que gerava a relutância em escrever os livros de síntese.

BIZU CRISTÃO: “E o Senhor disse: Eis que o povo é um, e todos têm uma mesma língua; e isto é o que começam a fazer... vinde, desçamos e confundamos ali a sua língua, para que não entenda um a língua do outro.” Gênesis 11:6-7

O episódio da Torre de Babel nos mostra o poder da linguagem. Quando a língua foi confundida, a construção (a síntese do esforço humano) parou. No texto dos autores, acontece algo similar: a falta de uma "língua apropriada" impediu a construção do conhecimento sobre o passado. Sem uma linguagem comum e exata, os pesquisadores "não entendiam a língua um do outro" no campo das ideias, e a obra da síntese histórica ficou paralisada.

Clique para visualizar este comentário

Visualize os comentários desta questão clicando no botão abaixo