Ver outras questões
Usar o filtro de questões
Ano: 2019
Banca:
CONTEMAX
Órgão:
Prefeitura de Serraria - PB
Provas:
CONTEMAX - 2019 - Prefeitura de Serraria - PB - Advogado
|
CONTEMAX - 2019 - Prefeitura de Serraria - PB - Fisioterapeuta |
CONTEMAX - 2019 - Prefeitura de Serraria - PB - Fonoaudiólogo |
CONTEMAX - 2019 - Prefeitura de Serraria - PB - Nutricionista |
CONTEMAX - 2019 - Prefeitura de Serraria - PB - Odontólogo |
CONTEMAX - 2019 - Prefeitura de Serraria - PB - Médico |
CONTEMAX - 2019 - Prefeitura de Serraria - PB - Orientador Educacional |
CONTEMAX - 2019 - Prefeitura de Serraria - PB - Médico Veterinário |
CONTEMAX - 2019 - Prefeitura de Serraria - PB - Pedagogo |
CONTEMAX - 2019 - Prefeitura de Serraria - PB - Psicólogo |
CONTEMAX - 2019 - Prefeitura de Serraria - PB - Supervisor Educacional |
CONTEMAX - 2019 - Prefeitura de Serraria - PB - Engenheiro Civil |
CONTEMAX - 2019 - Prefeitura de Serraria - PB - Assistente Social |
CONTEMAX - 2019 - Prefeitura de Serraria - PB - Educador Físico |
CONTEMAX - 2019 - Prefeitura de Serraria - PB - Enfermeiro |
Q4330374
Não definido
Texto associado
Palavras aladas
Silêncio era a coisa de que aquele rei mais gostava. E de que, a cada dia, mais parecia gostar.
Qualquer ruído, dizia, era faca em seus ouvidos.
Por isso, muito jovem ainda, mandou construir altíssimos muros ao redor do castelo. E logo, não
satisfeito, ordenou que por cima dos muros, e por cima das torres, por cima dos telhados e dos jardins,
passasse imensa redoma de vidro. (...)
Mas se os sons não podiam entrar, verdade é que também não podiam sair. Qualquer palavra dita,
qualquer espirro, soluço, canto, ficava vagando prisioneiro do castelo, sem que lhe fossem de valia fresta de
janela ou porta esquecida aberta. Pois se ainda era possível escapar às paredes, nada os libertava da redoma.
Aos poucos, tempo passando sem que ninguém lhe ouvisse os passos, palavras foram se acumulando
pelos cantos, frases serpentearam na superfície dos móveis, interjeições salpicaram as tapeçarias, um miado
de gato arranhou os corredores.
E tudo teria continuado assim, se um dia, no exato momento em que sua majestade recebia um
embaixador estrangeiro, não atravessasse a sala do trono uma frase desgarrada. Frase de cozinheiro que,
sobrepondo-se aos elogios reais, mandou o embaixador depenar, bem depressa, uma galinha.
Mais do que os ouvidos, a frase feriu o orgulho do rei. Furioso, deu ordens para que todos os sons
usados fossem recolhidos, e para sempre trancados no mais profundo calabouço.
Durante dias os cortesãos empenharam-se naquele novo esporte que os levava a sacudir cortinas e a
rastejar sob os móveis. A audição certeira abatia exclamações em pleno voo, algemava rimas, desentocava
cochichos. Uma condessa encheu um cesto com um cento de acentos. Um marquês de monóculo fez
montinhos de monossílabos. E houve até quem garantisse ter apanhado entre os dedos o delicado não de uma
donzela. Enfim, divertiram-se tanto, tão entusiasmados ficaram com a tarefa, que acabaram por instituir a
Temporada Anual de Caça à Palavra.
De temporada em temporada, esvaziava-se o castelo de seus sons, enchia-se o calabouço de
conversas. A tal ponto que o momento chegou em que ali não cabia mais sequer o quase silêncio de uma
vírgula. E o Mordomo Real viu-se obrigado a transferir secretamente parte dos sons para aposentos
esquecidos do primeiro andar.
Foi portanto por acaso que o rei passou frente a um desses cômodos. E passando ouviu um murmúrio,
rasgo de conversa. Pronto a reclamar, já a mão pousava na maçaneta, quando o calor daquela voz o reteve. E
inclinado à fechadura para melhor ouvir, o rei colheu as lavas, palavras, com que um jovem, de joelhos
talvez, derramava sua paixão aos pés da amada.
A lembrança daquelas palavras pareceu voltar ao rei de muito longe, atravessando o tempo, ardendo
novamente no peito. E em cada uma ele reconheceu com surpresa sua própria voz, sua jovem paixão. Era sua
aquela conversa de amor há tantos anos trancada. Fio da longa meada do passado, vinha agora envolvê-lo,
religá-lo a si mesmo, exigindo sair de calabouços. (...)
– Que se derrube a redoma! – lançou então o rei com todo o poder de seus pulmões. – Que se abatam
os muros!
E desta vez vai o grito por entre o estilhaçar, subindo, planando, pássaro-grito que no azul se afasta,
trazendo atrás de si em revoada frases, cantigas, epístolas, ditados, sonetos, epopeias, discursos e recados, e
ao longe – maritacas – um bando de risadas. Sons que no espaço se espalham levando ao mundo a vida do
castelo, e que, aos poucos, em liberdade se vão.
COLASANTI, Marina. Doze reis e a moça no labirinto do vento. São Paulo: Global.
Com relação aos elementos de coesão, foram
destacados pronomes, nas passagens abaixo retiradas
do texto, que assumem função anafórica; a
EXCEÇÃO, no entanto, encontra-se na alternativa: