Considere as seguintes afirmações: I. No primeiro pará...

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Ano: 2013 Banca: FCC Órgão: MPC-MS Prova: FCC - 2013 - MPC-MS - Analista de Contas |
Q465558 Português
O preço da virtude

Nossas qualidades naturais são, já por si, virtuosas? Pessoas de temperamento calmo e índole generosa, por exemplo, podem ser vistas como gente indiscutivelmente meritória? Mulheres e homens bem intencionados devem ser julgados apenas com base em suas boas intenções? Tais perguntas nos levam a um complicado centro de discussão: haverá algum valor moral nas ações que se executam com naturalidade, sem o enfrentamento de qualquer obstáculo, ou o que é natural não encerra virtude alguma, já que não encontra qualquer adversidade?

Há quem defenda a tese de que somente há virtude numa ação benigna cujo desempenho implica algum sacrifício do sujeito. A virtude estaria, assim, não na natureza do indivíduo, mas na sua firme disposição para sacrificar-se em benefício de um outro ser ou de um ideal. O sacrifício indicaria o desprendimento moral, o ato desinteressado, a disposição para pagar um preço pela escolha feita: eu me disponho a passar fome para que essa criança se alimente; eu deixo de usufruir um prazer para que o outro possa experimentá-lo.

Nessa questão, valores éticos e valores religiosos podem até mesmo se confundir. A palavra sacrifício tem o sagrado na raiz; mas não é preciso ser religioso para se provar a capacidade de renúncia. Quanto ao preço a pagar, não há dúvida: sempre reconheceremos mais mérito em quem foi capaz de agir passando por cima de seu próprio interesse do que naquele que agiu sem ter que enfrentar qualquer ônus em sua decisão.

(TRANCOSO, Doroteu. Inédito)

Considere as seguintes afirmações:



I. No primeiro parágrafo, o conceito de adversidade está empregado para caracterizar situações em que não há necessidade de sacrifício.



II. No segundo parágrafo, deve-se entender por ação benigna aquela que implica, necessariamente, o sacrifício de quem a executa.



III. No terceiro parágrafo, reafirma-se a tese de que os sacrifícios pessoais são inerentes às ações autenticamente virtuosas.



Em relação ao texto, está correto APENAS o que se afirma em

Alternativas

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a progressão argumentativa entre os parágrafos e o sentido contextual dos termos-chave: “Há quem defenda a tese de que somente há virtude numa ação benigna cujo desempenho implica algum sacrifício do sujeito. (...) sempre reconheceremos mais mérito em quem foi capaz de agir passando por cima de seu próprio interesse do que naquele que agiu sem ter que enfrentar qualquer ônus em sua decisão.” Esse encadeamento mostra que o 3º parágrafo reafirma a associação entre virtude autêntica e sacrifício pessoal, o que valida III; ao mesmo tempo, impede ler “adversidade” como ausência de sacrifício e impede transformar “ação benigna” em definição necessária de ação sacrificial.

Tema central: virtude e sacrifício
Análise das alternativas
A
Errada
Incorreta porque depende da afirmação I, e I inverte o sentido de “adversidade”. No 1º parágrafo, o termo aparece ligado a “obstáculo” no trecho “sem o enfrentamento de qualquer obstáculo” e “não encontra qualquer adversidade”. Logo, “adversidade” nomeia a dificuldade cuja ausência marca a ação natural; não caracteriza situações em que não há necessidade de sacrifício.
B
Errada
Incorreta porque depende da afirmação II, e II transforma em definição necessária o que o texto apresenta como condição debatida para a virtude. Em “somente há virtude numa ação benigna cujo desempenho implica algum sacrifício do sujeito”, “benigna” qualifica a ação como benéfica, enquanto a oração relativa restringe o tipo de ação benigna em que haveria virtude, segundo a tese citada. O texto não afirma que ação benigna seja, necessariamente, ação sacrificial.
C
Certa
A alternativa C está correta porque a afirmação III corresponde exatamente ao movimento do texto no 3º parágrafo: o autor retoma a tese apresentada antes e reforça que há maior mérito moral em agir com renúncia, isto é, “passando por cima de seu próprio interesse”, do que em agir “sem ter que enfrentar qualquer ônus em sua decisão”. Portanto, o fecho do texto reafirma a ideia de que ações autenticamente virtuosas se associam a sacrifício pessoal.
D
Errada
Incorreta porque reúne I e II, ambas erradas por motivos distintos. I erra o valor semântico de “adversidade”, que no texto corresponde ao obstáculo enfrentado, não à ausência de sacrifício. II erra ao converter uma formulação argumentativa introduzida por “Há quem defenda a tese de que” em definição absoluta de “ação benigna”.
E
Errada
Incorreta porque, embora III esteja correta, II está errada. A banca exige correção simultânea dos dois enunciados combinados, e o texto não autoriza entender “ação benigna” como ação que implica necessariamente sacrifício de quem a executa.
Pegadinha da questão
A confusão real está em tomar expressões próximas do mesmo campo semântico como equivalentes: a banca explora a inversão do sentido de “adversidade” e a leitura indevida de “ação benigna cujo desempenho implica algum sacrifício” como se “benigna” significasse “sacrificial”.
Dica para questões semelhantes
  • Separe a qualidade da ação da condição que o texto impõe para atribuir maior mérito a ela.
  • Quando o texto trouxer “há quem defenda”, leia o trecho como tese em debate, não como definição absoluta.
  • Verifique o sentido do termo no próprio encadeamento textual; aqui, “adversidade” é obstáculo presente, não ausência de sacrifício.

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