Considere as seguintes afirmações: I. No primeiro pará...
Nossas qualidades naturais são, já por si, virtuosas? Pessoas de temperamento calmo e índole generosa, por exemplo, podem ser vistas como gente indiscutivelmente meritória? Mulheres e homens bem intencionados devem ser julgados apenas com base em suas boas intenções? Tais perguntas nos levam a um complicado centro de discussão: haverá algum valor moral nas ações que se executam com naturalidade, sem o enfrentamento de qualquer obstáculo, ou o que é natural não encerra virtude alguma, já que não encontra qualquer adversidade?
Há quem defenda a tese de que somente há virtude numa ação benigna cujo desempenho implica algum sacrifício do sujeito. A virtude estaria, assim, não na natureza do indivíduo, mas na sua firme disposição para sacrificar-se em benefício de um outro ser ou de um ideal. O sacrifício indicaria o desprendimento moral, o ato desinteressado, a disposição para pagar um preço pela escolha feita: eu me disponho a passar fome para que essa criança se alimente; eu deixo de usufruir um prazer para que o outro possa experimentá-lo.
Nessa questão, valores éticos e valores religiosos podem até mesmo se confundir. A palavra sacrifício tem o sagrado na raiz; mas não é preciso ser religioso para se provar a capacidade de renúncia. Quanto ao preço a pagar, não há dúvida: sempre reconheceremos mais mérito em quem foi capaz de agir passando por cima de seu próprio interesse do que naquele que agiu sem ter que enfrentar qualquer ônus em sua decisão.
(TRANCOSO, Doroteu. Inédito)
Considere as seguintes afirmações:
I. No primeiro parágrafo, o conceito de adversidade está empregado para caracterizar situações em que não há necessidade de sacrifício.
II. No segundo parágrafo, deve-se entender por ação benigna aquela que implica, necessariamente, o sacrifício de quem a executa.
III. No terceiro parágrafo, reafirma-se a tese de que os sacrifícios pessoais são inerentes às ações autenticamente virtuosas.
Em relação ao texto, está correto APENAS o que se afirma em
Gabarito comentado
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Gabarito: C
Fundamento decisivo: O critério decisivo é a progressão argumentativa entre os parágrafos e o sentido contextual dos termos-chave: “Há quem defenda a tese de que somente há virtude numa ação benigna cujo desempenho implica algum sacrifício do sujeito. (...) sempre reconheceremos mais mérito em quem foi capaz de agir passando por cima de seu próprio interesse do que naquele que agiu sem ter que enfrentar qualquer ônus em sua decisão.” Esse encadeamento mostra que o 3º parágrafo reafirma a associação entre virtude autêntica e sacrifício pessoal, o que valida III; ao mesmo tempo, impede ler “adversidade” como ausência de sacrifício e impede transformar “ação benigna” em definição necessária de ação sacrificial.
- Separe a qualidade da ação da condição que o texto impõe para atribuir maior mérito a ela.
- Quando o texto trouxer “há quem defenda”, leia o trecho como tese em debate, não como definição absoluta.
- Verifique o sentido do termo no próprio encadeamento textual; aqui, “adversidade” é obstáculo presente, não ausência de sacrifício.
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