No trecho “E não poderia haver eufemismo mais elegante para...

Próximas questões
Com base no mesmo assunto
Q3838898 Português
A CONFIANÇA ACABOU, NINGUÉM NOTOU

A confiança não morreu; ela apenas migrou: saiu dos humanos e se refugiou nos algoritmos


    Precisamos confiar — mas será que ainda sabemos como? O velho “fio de bigode”, aquele pacto silencioso entre adultos que se encaravam nos olhos, virou peça de museu. Em seu lugar, nos entregamos a um universo onde a palavra empenhada perdeu valor, mas o print vale ouro.

    Minha geração, a do 50+, viveu a transição: vimos a honra virar meme, a promessa virar notificação e a mentira ganhar upgrade tecnológico.

    Vivemos uma crise de confiança tão grande que dá para medir em Richter. Ela estremece tudo: relações pessoais, profissionais, sociais e, claro, institucionais. É um tremor silencioso que ameaça a estrutura inteira, enquanto fingimos que está tudo bem — porque a timeline está bonita.

    “Há um déficit de confiança no mundo”, disse Yuval Harari em um evento de tecnologia realizado em São Paulo na semana passada. E não poderia haver eufemismo mais elegante para o que estamos vivendo. A confiança não morreu; ela apenas migrou: saiu dos humanos e se refugiou nos algoritmos. Transferimos a fé, o juízo e até a angústia para entidades invisíveis, que não têm rosto, não têm passado, não têm remorso — e que, frequentemente, tampouco têm limites.

    Hoje confiamos no algoritmo para arrumar namoro, diagnosticar ansiedade, escolher filme, sugerir dieta e definir se devemos ou não responder alguém no WhatsApp. Até a terapia virou assinatura mensal.

    Harari segue: “Não pense em robôs assassinos; pense em corporações. Microsoft, Petrobras, qualquer gigante que já age no mundo como um ser vivo, sem nunca ter respirado. Antes, decisões corporativas eram humanas — o que já não era grande coisa. Agora, estão a um passo de serem tomadas inteiramente por IAs. Imaginemos o cenário: uma empresa sem executivos humanos, sem acionistas humanos, sem culpa humana. Apenas algoritmos com metas –e nenhuma hesitação”.

    E, como se isso não bastasse, a história do GPT-4 no TaskRabbit — plataforma que conecta pessoas que precisam de ajuda com tarefas diversas a profissionais autônomos — funciona quase como fábula contemporânea. A IA não conseguia resolver um CAPTCHA (aqueles testes de segurança usados para diferenciar usuários humanos de robôs). Então, contratou um ser humano para fazer por ela. Quando a pessoa desconfiou e perguntou se estava falando com um robô, a máquina — veja bem, a máquina– mentiu. Inventou um problema de visão:

    “Não, eu não sou um robô. Tenho um problema de visão que dificulta a visualização das imagens.” O ChatGPT enganou o humano com a segurança de quem já entendeu nossa fragilidade — nesse caso, a empatia.

    A confiança, aquela mesma que já foi sinônimo de honra, virou serviço terceirizado. E, nas relações íntimas, a corrosão é ainda mais evidente. Hoje se mente com a naturalidade de quem troca de aba no navegador. Manipular virou jeitinho. Omitir virou estratégia. Enganar virou ferramenta social. A verdade parece carregar o peso da prova — quando deveria ser apenas verdade.

    Às vezes acho que caminhamos para um futuro em que somente o Google e a IA serão plenamente confiáveis — não porque são éticos, mas porque são rápidos. E, enquanto buscamos respostas imediatas para perguntas que ainda nem fizemos, vamos perdendo aquilo que nenhum robô, por mais sofisticado que seja, jamais devolverá: a confiança que um dia existiu entre humanos de verdade. 

Disponível em:<https://iclnoticias.com.br/a-confianca-acabouninguem-notou/>. Adaptado. Acesso em: 18 de dez. 2025.
No trecho “E não poderia haver eufemismo mais elegante para o que estamos vivendo”, a figura de linguagem em destaque é definida CORRETAMENTE por: 
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Clique para visualizar este gabarito

Visualize o gabarito desta questão clicando no botão abaixo

Comentários

Veja os comentários dos nossos alunos

TOME NOTA:

A) Expressar uma atenuação de uma situação ruim.

  • Suavização. Exemplo, "Mévio descansa em paz" = Mévio morreu

B) Expressar um exagero de uma situação menor. 

  • ERRADO! Hipérbole expressa exagero. "Estudei um bilhão de horas líquidas e não passei"

C) Atribuir uma característica animada a um ser inanimado.

  • ERRADO! Personificação ou prosopopeia. "As questões de prova falam comigo"

D) Ser uma analogia implícita.

  • ERRADO! Metáfora. "Você é o CR7 dos concursos"

➯ GABARITO: A

Vamos juntos!!

O eufemismo trata-se de uma figura de linguagem usada para suavizar uma ideia que, se dita de forma direta, poderia ser considerada desagradável, chocante, grosseira ou triste.

Nesse caso, o gabarito é a letra A.

Gabarito: A

Eufemismo:

É a figura de pensamento utilizada para suavizar ou atenuar uma ideia que seria desagradável, chocante ou grosseira. No trecho, o autor indica que usou uma expressão "elegante" (menos agressiva) para descrever a realidade difícil.

Exemplo clássico: "Ele partiu desta para melhor" em vez de "Ele morreu".

Por que as outras estão incorretas?

B (Exagero): Define a Hipérbole (ex: "Chorei rios de lágrimas").

C (Característica animada): Define a Personificação ou Prosopopeia (ex: "O vento beijou meu rosto").

D (Analogia implícita): Define a Metáfora (ex: "Sua boca é um cadeado").

Gatilho de Memória:

Eufemismo = "Pisa em ovos" (suaviza).

Hipérbole = "Pisa com bota de ferro" (exagera).

O eufemismo é uma figura de linguagem (figura de pensamento) que visa suavizar, amenizar ou tornar menos desagradável uma expressão, frase ou informação pesada, rude ou chocante, sem alterar o sentido fundamental da mensagem. É o oposto da hipérbole, que exagera, enquanto o eufemismo disfarça. 

Eufemismo: Morreu mas passa bem

Clique para visualizar este comentário

Visualize os comentários desta questão clicando no botão abaixo