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A CONFIANÇA ACABOU, NINGUÉM NOTOU

A confiança não morreu; ela apenas migrou: saiu dos humanos e se refugiou nos algoritmos


    Precisamos confiar — mas será que ainda sabemos como? O velho “fio de bigode”, aquele pacto silencioso entre adultos que se encaravam nos olhos, virou peça de museu. Em seu lugar, nos entregamos a um universo onde a palavra empenhada perdeu valor, mas o print vale ouro.

    Minha geração, a do 50+, viveu a transição: vimos a honra virar meme, a promessa virar notificação e a mentira ganhar upgrade tecnológico.

    Vivemos uma crise de confiança tão grande que dá para medir em Richter. Ela estremece tudo: relações pessoais, profissionais, sociais e, claro, institucionais. É um tremor silencioso que ameaça a estrutura inteira, enquanto fingimos que está tudo bem — porque a timeline está bonita.

    “Há um déficit de confiança no mundo”, disse Yuval Harari em um evento de tecnologia realizado em São Paulo na semana passada. E não poderia haver eufemismo mais elegante para o que estamos vivendo. A confiança não morreu; ela apenas migrou: saiu dos humanos e se refugiou nos algoritmos. Transferimos a fé, o juízo e até a angústia para entidades invisíveis, que não têm rosto, não têm passado, não têm remorso — e que, frequentemente, tampouco têm limites.

    Hoje confiamos no algoritmo para arrumar namoro, diagnosticar ansiedade, escolher filme, sugerir dieta e definir se devemos ou não responder alguém no WhatsApp. Até a terapia virou assinatura mensal.

    Harari segue: “Não pense em robôs assassinos; pense em corporações. Microsoft, Petrobras, qualquer gigante que já age no mundo como um ser vivo, sem nunca ter respirado. Antes, decisões corporativas eram humanas — o que já não era grande coisa. Agora, estão a um passo de serem tomadas inteiramente por IAs. Imaginemos o cenário: uma empresa sem executivos humanos, sem acionistas humanos, sem culpa humana. Apenas algoritmos com metas –e nenhuma hesitação”.

    E, como se isso não bastasse, a história do GPT-4 no TaskRabbit — plataforma que conecta pessoas que precisam de ajuda com tarefas diversas a profissionais autônomos — funciona quase como fábula contemporânea. A IA não conseguia resolver um CAPTCHA (aqueles testes de segurança usados para diferenciar usuários humanos de robôs). Então, contratou um ser humano para fazer por ela. Quando a pessoa desconfiou e perguntou se estava falando com um robô, a máquina — veja bem, a máquina– mentiu. Inventou um problema de visão:

    “Não, eu não sou um robô. Tenho um problema de visão que dificulta a visualização das imagens.” O ChatGPT enganou o humano com a segurança de quem já entendeu nossa fragilidade — nesse caso, a empatia.

    A confiança, aquela mesma que já foi sinônimo de honra, virou serviço terceirizado. E, nas relações íntimas, a corrosão é ainda mais evidente. Hoje se mente com a naturalidade de quem troca de aba no navegador. Manipular virou jeitinho. Omitir virou estratégia. Enganar virou ferramenta social. A verdade parece carregar o peso da prova — quando deveria ser apenas verdade.

    Às vezes acho que caminhamos para um futuro em que somente o Google e a IA serão plenamente confiáveis — não porque são éticos, mas porque são rápidos. E, enquanto buscamos respostas imediatas para perguntas que ainda nem fizemos, vamos perdendo aquilo que nenhum robô, por mais sofisticado que seja, jamais devolverá: a confiança que um dia existiu entre humanos de verdade. 

Disponível em:<https://iclnoticias.com.br/a-confianca-acabouninguem-notou/>. Adaptado. Acesso em: 18 de dez. 2025.
Para sustentar suas ideias, a enunciadora do texto afirma que é possível medir o grau da crise de confiança na escala Richter. Essa estratégia textual possibilita:
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Comentários

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A estratégia é claramente comparativa.

Quando a autora diz:

ela não está falando literalmente, mas usando a escala Richter (própria de terremotos) para comparar a intensidade da crise de confiança a um abalo sísmico.

Trata-se de uma comparação/metáfora, que aproxima um fenômeno social e abstrato de um fenômeno físico e concreto para intensificar o sentido.

  • A ❌ Abstração? Não. O recurso faz justamente o oposto: concretiza a ideia.
  • B ❌ Não há traços humanos atribuídos à crise (isso seria personificação).
  • C ❌ Não há diferenciação; há aproximação.
  • D ✅ Comparação do fenômeno analisado no texto a um terremoto.

Esse tipo de questão cai muito em prova: sempre que aparecer escala, medida, fenômeno natural aplicado a algo social → pense em comparação/metáfora intensificadora.

A resposta correta é a D: A comparação do fenômeno analisado no texto a um terremoto.

A Escala Richter é um sistema de medida utilizado especificamente para quantificar a magnitude de terremotos (abalos sísmicos). Ao transpor esse conceito para o campo social ou psicológico — no caso, a "crise de confiança" — a autora utiliza uma metáfora.

  • A (Abstração): Incorreto. O uso da escala Richter faz o oposto; ele torna a ideia mais "concreta" e palpável através de uma imagem física.
  • B (Humanização): Incorreto. A escala Richter é um instrumento geofísico/matemático, não uma característica humana.
  • C (Diferenciação): Incorreto. A intenção não é separar os conceitos, mas sim aproximá-los para que o leitor entenda a gravidade da situação por meio da analogia.

Gab. D

Gab: D.

Trecho importante para resolver a questão: Vivemos uma crise de confiança tão grande que dá para medir em Richter. Ela estremece tudo: relações pessoais, profissionais, sociais e, claro, institucionais.

Basicamente a autora traz a ideia de que a crise de confiança estremece as relações como se fosse um terremoto. Nesse sentido, a crise poderia ser medida na escala Richter.

D – a comparação do fenômeno analisado no texto a um terremoto.

Explicação:

Quando o texto diz: “Vivemos uma crise de confiança tão grande que dá para medir em Richter”, a autora compara a intensidade da crise de confiança à força de um terremoto medida na escala Richter. Essa estratégia cria um efeito de metáfora, permitindo que o leitor perceba a gravidade do problema de forma mais concreta e impactante.

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