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Q3617428 Português
O romance Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, contextualiza historicamente as vivências das populações negras rurais no Brasil, especialmente no tocante à negação de direitos fundamentais. Leia-o para responder à questão.

Meu povo seguiu rumando de um canto para outro, procurando trabalho. Buscando terra e morada. Um lugar onde pudesse plantar e colher. Onde tivesse uma tapera para chamar de casa. Os donos já não podiam ter mais escravos, por causa da lei, mas precisavam deles. Então, foi assim que passaram a chamar os escravos de trabalhadores e moradores. Não poderiam arriscar, fingindo que nada mudou, porque os homens da lei poderiam criar caso. Passaram a lembrar para seus trabalhadores como eram bons, porque davam abrigo aos pretos sem casa, que andavam de terra em terra procurando onde morar. Como eram bons, porque não havia mais chicote para castigar o povo. Como eram bons, por permitirem que plantassem seu próprio arroz e feijão, o quiabo e a abóbora.

VIEIRA JUNIOR, Itamar. Torto Arado. São Paulo: Todavia, 2019, p. 204
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Alternativas

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Tema central: Esta questão envolve interpretação de texto e o uso de pronomes pessoais do caso oblíquo, especialmente o mecanismo de coesão referencial — ou seja, como o texto recupera termos anteriores para garantir clareza e continuidade.

Análise da alternativa correta:

No trecho “Os donos já não podiam ter mais escravos, por causa da lei, mas precisavam deles”, a palavra “deles” é um pronome oblíquo masculino plural. Para descobrir a quem ela se refere, devemos sempre voltar ao termo masculino plural anterior, utilizado no contexto da necessidade dos donos.

Observe: antes do termo, aparecem as expressões “ter mais escravos” e logo em seguida “precisavam deles”, o que estabelece uma relação clara: “deles” substitui “escravos”. Assim, o texto enfatiza que, embora não pudessem mais “ter escravos” (por causa da lei), continuavam precisando deles sob outros nomes. Isso é um exemplo clássico de coesão referencial, conforme orientações de Bechara e Cunha & Cintra.

Portanto, a resposta correta é: C) Escravos.

Por que as demais alternativas estão incorretas?

  • A) Meu povo: O termo está no singular e não faz sentido, no contexto, dizer que “os donos precisavam de meu povo”, já que a frase se articula com a ideia de trabalho compulsório (escravidão).
  • B) Donos: Os donos não precisam deles próprios, e “deles”, sendo um pronome de terceira pessoa, nunca retoma o sujeito da própria frase dessa forma.
  • D) Lei: “Lei” é feminino, enquanto “deles” está no masculino plural. A concordância não permite essa retomada.

Dicas de prova: Sempre que um pronome oblíquo for usado para recuperar um termo, confira gênero (masculino/feminino), número (singular/plural) e o sentido do texto. Esta leitura cuidadosa evita erros comuns em pegadinhas desse tipo!

Referências: Bechara, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa; Cunha & Cintra. Nova Gramática do Português Contemporâneo.

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