A frase no texto “O menino é o pai do homem” sugere, sobretudo

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Texto para as questões de 01 a 05

O Coração Roubado

Eu cursava o último ano do primário e como já estava com o diplominha garantido, meu pai me deu um presente muito cobiçado: O coração, famoso livro do escritor italiano Edmondo de Amicis, Best-seller mundial do gênero infanto-juvenil. Na página de abertura lá estava a dedicatória do velho, com sua inconfundível letra esparramada. Como todos os garotos da época, apaixonei-me por aquela obra-prima, é tanto que a levava ao grupo escolar da Barra Funda para reler trechos do recreio.

Justamente no último dia de aula, o das despedidas, depois da festinha de formatura, voltei para a classe a fim de reunir meus cadernos e objetos escolares, antes do adeus. Mas onde estava O coração? Onde? Desaparecera. Tremendo choque. Algum colega na certa o furtara. Não teria coragem de aparecer em cfasa sem ele. Ia informar a diretoria quando, passando pelas carteiras, vi a lombada do livro, bem escondido sob uma pasta escolar. Mas... era lá que se sentava o Plínio, não era? Plínio, o primeiro da classe em aplicação e comportamento, o exemplo para todos nós. Inclusive o mais limpinho, o mais bem penteadinho, o mais tudo. Confesso, hesitei. Desmascarar um ídolo? Podia ser até que não acreditassem em mim. Muitos invejavam o Plínio. Peguei o exemplar e o guardei em minha pasta. Caladão. Sem revelar a ninguém o acontecido. Lembro do abraço que Plínio me deu à saída. Parecia estar segurando as lágrimas. Balbuciou algumas palavras emocionadas. Mal pude retribuir, meus braços se recusavam a apertar o cínico.

Chegando em casa minha mãe estranhou que eu não estivesse muito feliz. Não, eu amargava minha primeira decepção. Afinal, Plínio era um colega que devíamos imitar pela vida afora, como costumava dizer a professora. Seria mais difícil sobreviver sem o seu exemplo. Por outro lado, considerava se não errara em não delatá-lo. “Vocês estão todos enganados, e a senhora também, sobre o caráter de Plínio. Ele roubou meu livro e depois ainda foi me abraçar...”

Passados muitos anos reconheci o retrato de Plínio num jornal. Advogado, fazia rápida carreira na Justiça. Recebia cumprimentos. Brrr. Magistrado de futuro o tal que furtara meu presente de fim de ano! Que toldara muito cedo minha crença na humanidade! Decidi falar a verdade. Caso alguém se referisse a ele, o que passou a acontecer, eu garantia que se tratava de um ladrão. Se roubava já no curso primário, imaginem agora... Sempre que o rumo de uma conversa levava às grandes decepções, aos enganos de falsas amizades, eu contava, a quem quisesse ouvir, o episódio do embusteiro do Grupo Escolar Conselheiro Antônio Prado, em breve desembargador ou secretário de Justiça.

– Não piche assim o homem – advertiu-me minha mulher.

– Por que não? É um ladrão!

– Mas quando pegou seu livro era criança.

– O menino é o pai do homem – rebatia, vigorosamente.

Plínio fixara-se como um marco para mim. Toda vez que o procedimento de alguém me surpreendia, a face oculta de uma pessoa era revelada, lembrava-me irremediavelmente dele. Limpinho. Penteadinho. E com a mão de gato se apoderando de meu livro.

Certa vez tomaram a sua defesa:

– Plínio, um ladrão? Calúnia! Retire-se da minha presença!

Quando o desembargador Plínio já estava aposentado, mudei-me para meu endereço atual. Durante a mudança alguns livros despencaram de uma estante improvisada. Um deles O coração, de Amicis. Saudades. Havia quantos anos que não o abria? Quarenta ou mais? Lembrei da dedicatória de meu falecido pai. Ele tinha boa letra. Procurei-a na página de rosto. Não a encontrei. Teria a tinta se apagado? Na página seguinte havia uma dedicatória. Mas não reconheci a caligrafia paterna:

“Ao meu querido filho Plínio, com todo amor e carinho de seu pai.”

In: REY, Marcos. O coração roubado e outras crônicas. Ática: São Paulo, 1994.

A frase no texto “O menino é o pai do homem” sugere, sobretudo

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Gabarito comentado – Questão de Interpretação de Texto

O tema central desta questão é a interpretação textual e a análise semântica de uma expressão metafórica presente no texto: “O menino é o pai do homem”. O desafio consiste em compreender o sentido dessa frase no contexto e relacioná-la a conceitos como determinismo e livre-arbítrio.

Segundo a norma-padrão e a análise semântica (Cunha & Cintra, Bechara), interpretações metafóricas precisam ser entendidas a partir do seu contexto. No caso, a expressão selecionada sugere que as experiências e características da infância condicionam o adulto futuro. Ou seja, o passado molda e determina o futuro do indivíduo.

Esse raciocínio corresponde ao determinismo, conceito que aponta que acontecimentos e traços futuros resultam de condições anteriores. O narrador reforça a crença de que “Plínio seria um ladrão adulto porque já era um ladrão na infância”, evidenciando a influência direta da infância sobre a vida adulta.

Alternativa correta:
D) determinismo — Reflete a ideia de que o comportamento infantil (menino) define quem será o adulto (homem), ou seja, o futuro é condicionado pelo passado, conforme sugere a frase do texto.

Análise das alternativas incorretas:

A) inveja: Não existe menção ou sentimento de inveja nessa passagem.
B) esperança: A frase não expressa expectativa positiva sobre o futuro; o foco é na consequência inevitável das ações passadas.
C) decepção: Apesar do narrador estar decepcionado com Plínio, a expressão em análise não comunica “decepção”, mas sim consequência e causa.
E) livre-arbítrio: Contrapõe-se ao determinismo.

Dica para questões semelhantes: Sempre avalie se o texto sustenta uma visão de escolhas livres (livre-arbítrio) ou inevitabilidade (determinismo). Palavras como “sempre”, “inevitavelmente”, “não poderia ser diferente” indicam determinismo.

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