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Q2045518 Português
O inimigo do Computador

O escritor e acadêmico Ariano Suassuna esteve no Rio de Janeiro. Como sempre, sua aula-espetáculo foi um sucesso, reunindo centenas de alunos e professores no Teatro R. Magalhães Jr., da Academia Brasileira de Letras. O pretexto foi o encerramento da Maratona Escolar, promovida pela Secretaria Municipal de Educação, que teve o dramaturgo e poeta paraibano como objeto de estudos da garotada, empolgada pelas suas obras, com destaque especial para “O Auto da Compadecida”.

De início, sentado numa cadeira no palco, Ariano fez questão de esclarecer uma dúvida: “Disseram que eu sou inimigo do computador. Não é bem isso. O computador é que é meu inimigo.” Explicou que teve uma experiência extremamente desagradável com o uso da máquina:

“ - Bati o meu nome no computador. Ariano. Veio Ariano. Coloquei o nome do meio (Vilar). Veio ‘vilão’. Não entendi. E fiquei indignado mesmo quando bati Suassuna. Com tantos esses, o computador, no corretor ortográfico, colocou ‘assassino’. Então, em vez de ser Ariano Vilar Suassuna, virei Ariano Vilão Assassino. Não é para virar inimigo dele?”

Como sempre, contando uma série infindável de causos, Ariano foi aplaudidíssimo. Mas também provocou choros de emoção, ao contar histórias tristes, como o assassinato do seu pai. Durante uma hora, apesar dos seus 85 anos bem vividos, não demonstrou nenhum cansaço. Cada vez que discorria sobre determinada passagem da sua obra ou da sua vida era coroado de aplausos. Como ao explicar a frase: “Quem lê nunca está sozinho.”

Reclamou da exigência dos pernósticos em relação ao uso da língua portuguesa. “O nordestino fala ‘nóis’ e é assim que eu escrevo. Mas, quando na televisão, por exemplo, forçam a barra para exigir que atores ou atrizes falem na prosódia que não dominam, fico com raiva. Isso logo se nota. Certos diretores pensam que somos idiotas.”

Ariano repetiu na ABL (onde participou do tradicional chá acadêmico) que não é otimista nem pessimista, mas acha que hoje se caminha melhor na questão da desigualdade social. Foi bem objetivo nas suas considerações: “Os otimistas costumam ser ingênuos e os pessimistas, amargos. Sou um homem da esperança. Sonho com o dia em que o sol de Deus dará justiça para todos.”

Falou ainda do orgulho de ser nordestino e do absoluto desinteresse pelas viagens internacionais: “Nunca saí do Brasil e não sinto a menor necessidade de fazê-lo. Sei de tudo utilizando a televisão e o computador.” Ainda confessou que adora as novelas de televisão, como forma de expressão da nossa cultura. E confessou que ainda não está na hora de parar de produzir: “Quando vem a inspiração, não há razão para driblá-la. Por isso mesmo, hoje, estou às voltas com o próximo livro.” Quando lhe perguntei o título, levei um susto: “O jumento sedutor.” Prometeu que íamos no surpreender com o seu enredo. Esperemos.

Arnaldo Niskier – Texto adaptado
É incorreto afirmar que, para o desenvolvimento do texto, o autor fez uso do seguinte recurso:
Alternativas

Gabarito comentado

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Tema central da questão: Interpretação de Texto

Esta questão avalia a habilidade do candidato em identificar recursos textuais e distinguir tipos de textos: narrativo, descritivo e argumentativo. Principalmente, exige atenção ao conceito de estratégias argumentativas, coesão, variação linguística e estrutura narrativa.

Alternativa correta (ou seja, INCORRETA segundo o comando): D

O texto apresentado é predominantemente narrativo e descritivo. Ele se dedica a relatar episódios, reproduzir falas e traçar características do escritor Ariano Suassuna. Não há, em seu desenvolvimento, o emprego de estratégias argumentativas intensas com o objetivo de convencer ou persuadir o leitor sobre uma tese central, como seria esperado em um texto argumentativo (Ex.: crônicas opinativas, artigos, editoriais).

Segundo Cunha & Cintra (Nova Gramática do Português Contemporâneo), a argumentação ocorre quando há intenção evidente de defender um ponto de vista. No texto, há opiniões e relatos do autor, mas o foco está em contar causos e traçar um perfil, e não defender uma ideia em debate com o leitor.

Análise das alternativas corretas:

A) Elementos de coesão: O texto faz uso de conectivos, pronomes e expressões que articulam suas ideias (“Ainda confessou…”, “Como sempre, contando…”, “Quando vem a inspiração…”), promovendo coesão textual (cf. Koch, A Coesão Textual).

B) Marcas de oralidade: Trechos como “não é para virar inimigo dele?” e o uso de expressões regionais (“‘nóis’ e é assim que eu escrevo”) mantêm a variação linguística típica da oralidade, reforçando a autenticidade do discurso.

C) Narração curta e com tempo cronológico: O texto relata eventos de modo cronológico (visita, palestra, falas e comentários), situando o leitor no tempo e conferindo ordem à narração.

Resumo para concursos: Quando a banca exige identificar o tipo textual ou os recursos empregados, atente-se ao objetivo comunicativo central: relatar (narração), descrever (descrição) ou defender ideias (argumentação). Evite ser induzido por trechos opinativos em textos predominantemente narrativos ou descritivos.

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